Minas Gerais

O mistério da 51: A maria fumaça que pode voltar a apitar sobre os trilhos de Além Paraíba

A Locomotiva nº51 foi adquirida pela antiga Estrada de Ferro Leopoldina e chegou a entrar na “fila da morte”, onde quase se tornou “uma panela de pressão”. Mas foi resgatada a tempo, restaurada e agora está pronta para retornar a vagar como trem turístico.

Em 1880, uma das maiores fabricantes de veículos ferroviários no mundo moldava em seus caldeirões, nos Estados Unidos, a “Locomotiva 51”. Alguns anos depois, a maria fumaça americana vagava sobre os trilhos da antiga Leopoldina Railway.

O Brasil da época investia no transporte ferroviário como potência. O império de Dom Pedro II enxergava nos trilhos uma forma de escoamento de café. Em Além Paraíba, na Zona da Mata mineira, foi montada a Estrada de Ferro Leopoldina, linha que ligara as duas cidades, como forma de substituir o transporte por mulas, com a missão de escoar ainda mais rápido e em maior quantidade a produção. 

André Martins Borges é historiador e desenvolve o projeto de retorno da Locomotiva nº51 – Foto: Manfrini Lucas

 Além Paraíba tem uma localização privilegiada, localizada entre os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, este foi um dos motivos que levaram a cidade a se tornar uma grande potência para a ferrovia. Em 1883 a Locomotiva nº51, produzida nos Estados Unidos,  passa a vagar pelos trilhos da antiga Estrada de Ferro Leopoldina.

 Sobre os trilhos mineiros, a maria fumaça de número 51 funcionou de diferentes formas, de trem de carga,  passageiros e até de fúnebre. É o que explica o historiador André Martins Borges.

 

“A locomotiva 51 tem uma história muito pessoal aqui em Além Paraíba, porque dentre as diversas funções dela, ela também era a locomotiva que fazia o trem fúnebre.  Saia da Estação do Porto, no Centro, sentido até a Estação São José, para que o morto fosse enterrado no cemitério”

Destaca o historiador.

O historiador também revela ao ISN Portal uma outra curiosidade sobre a Locomotiva 51. Nos tempos onde o progresso do país  dependia dos trilhos dos trens, cada locomotiva tinha um maquinista responsável por cuidar dela.

Antigamente as locomotivas, diferentemente de hoje, tinham uma relação muito pessoal com os maquinistas. De modo geral, havia um único maquinista responsável por elas… a locomotiva 51 tem uma história muito especial com o maquinista dela.

Afirma André.

 Desaparecimento

Em 1957, a antiga Leopoldina Railway se torna parte da Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA), com a nova empresa e administração, aos poucos as máquinas movidas a vapor foram sendo trocadas por locomotivas a diesel.

Com novos maquinários para transporte de carga e passageiros, as antigas “marias fumaça” foram sendo paralisadas. A locomotiva 51 passou a ser usada de forma interna,  por muitos anos sendo usada para realizar manobras dentro da oficina rotunda da  RFFSA em Além Paraíba.

Em 1992, com a desestatização da RFFSA para a iniciativa privada, a Locomotiva 51 foi retirada de Além Paraíba, e levada para a antiga Estação de Guia de Pacobaíba, em Praia de Mauá, em Magé/RJ.

Por alguns anos a Locomotiva 51 ficou exposta na estação da antiga Estrada de Ferro Mauá, primeiro trecho ferroviário do Brasil, até que, em um dado momento, a maria fumaça desapareceu e tomou um rumo desconhecido, até então.

Resgate

A locomotiva 51 foi exposta durante anos na antiga estação Guia de Pacobaíba, em Magé/RJ – Foto: Reprodução

Enquanto isso em Além Paraíba, surge a Regional de Porto Novo da Associação Brasileira de Preservação da Ferrovia (ABPF-PN), com o objetivo de resgatar e preservar a ferrovia na cidade.

O movimento foi representado pelos ferroviários  José Carlos Faria, José Mauro Cardoso de Oliveira e pelo maquinista da Locomotiva 51, Valério Bajule.

Esses apaixonados por ferrovias procuraram por mais de 30 anos a locomotiva, que foi retirada de Além Paraíba e desapareceu nos trilhos da antiga estrada Barão de Mauá.

O ISN Portal esteve em Além Paraíba e conversou com o maquinista Valério, ele nos conta sobre o mistério do sumiço da locomotiva.

 “Foram anos tentando encontrá-la, ela foi levada assim que a Rede Ferroviária foi privatizada, na década de noventa. Ficou anos exposta na Guia de Pacobaíba, depois desapareceu.”

Narra o maquinista.

O ferroviário Valério Bajule era o maquinista responsável pela Locomotiva 51 – Foto: Acervo pessoal

Apaixonados por ferrovias, os membros da ABPF-PN sempre visitavam antigos armazéns, depósitos, galpões e estações da RFFSA. Durante uma visita a uma antiga oficina, em Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, os três ferroviários avistaram um antigo galpão fechado.

Ao se aproximar da estrutura, coberta por matos, Valério disse aos outros homens do grupo: “Onde a gente não dá nada pelo local é que a gente encontra coisas boas.” Empolgados, os amigos decidiram ver o local mais de perto.

Ao entrar na antiga oficina, os ferroviários tiveram uma surpresa! Toda desmontada, empoeirada, abandonada. Longe do brilho do passado, lá estava ela, sem apitar e sem soltar sua fumaça. Mas para a alegria dos ferroviários, a locomotiva 51 foi encontrada.

 O início de um fim

Após encontrar a locomotiva 51, totalmente abandonada, dentro de uma antiga oficina da RFFSA, começa uma nova fase na vida dos ferroviários da ABPF-PN: Trazer a locomotiva de volta para Além Paraíba, em Minas.

A Locomotiva 51 foi encontrada em uma antiga oficina da RFFSA – Imagem: Acervo ABPF – PN

Empolgados, os ferroviários saíram da oficina em Engenho de Dentro e foram diretamente para a Agência Geral da RFFSA, na região central do Rio.

O objetivo era relatar a descoberta e viabilizar a recuperação e o retorno da maria fumaça para Minas.

Na sede da RFFSA, o grupo foi atendido por um representante da Rede, que também é de Além Paraíba, Jaime Bittencourt, no quinto andar do prédio. Ao ouvir o relato, ele se empolgou com a descoberta, começa a partir daí um mutirão dentro da Rede Ferroviária com o objetivo de resgatar a locomotiva.

Dentro da Rede Ferroviária, diversos colaboradores se comprometeram em ajudar os ferroviários na missão de levar a 51 “para casa”. Para isso, foi preciso superar obstáculos burocráticos e estruturais, dentre eles a largura da bitola (espaço entre os trilhos, que pode variar de uma estrada de ferro para outra).

A locomotiva 51 usa trilhos com a distância de um metro entre eles. No local onde ela foi encontrada a bitola é maior, com distância de um metro e sessenta centímetros entre os ferros da malha ferroviária.

A Locomotiva 51 foi trazida do Rio de Janeiro para Além Paraíba em cima de um trem de carga – Imagem: ABPF-PN

O que ninguém podia imaginar, aconteceu. A solução veio rápida e, em 15 dias, a locomotiva foi colocada, por um guincho, em cima de um trem e partiu, do Rio de Janeiro até a cidade de Três Rios, na bitola de 160cm.

Quando chegou em Três Rios, a 68km de distância de Além Paraíba, a locomotiva 51 foi trocada de trem, dessa vez em uma bitola de um metro, onde de lá, partiu de “volta para casa”.

Começava mais uma etapa do desafio! Antes de retomar o brilho do passado, a maria fumaça precisava ser remontada, como um quebra-cabeça, já que ela chegou toda desmontada.

A antiga maria fumaça foi encontrada toda desmontada em uma antiga oficina da RFFSA – Imagem: Acervo ABPF-PN

Foram vários anos de restauração, até que, em 2016, a locomotiva estava pronta para voltar aos trilhos.

Após alguns testes, a maria fumaça foi vista circulando pela linha férrea do município. Surgiu então,um projeto de retorno da locomotiva como trem turístico de passageiros, desenvolvido em parceira da ABPF-PN e o Museu de História e Ciências Naturais (MHCN) de Além Paraíba.

Em 2016, a Locomotiva 51 chegou a vagar pelos trilhos em Além Paraíba – Imagem: Carlos Torres Moura/Reprodução

 

Com recursos privados e públicos, uma jardineira foi construída para integrar a locomotiva 51 – Foto: Sonia Regina

Trem Turístico  

Após longos anos de busca pela locomotiva 51, enfim ela foi encontrada e entregue aos cuidados da ABPF-PN. “Em casa”, a Locomotiva foi restaurada com recursos particulares e públicos. Uma jardineira, vagão de passageiros, foi construída para integrar a composição.

Um projeto prevê o uso turístico da maria fumaça como trem turístico de passageiros, em uma viagem de 12km, entre as estações Porto Novo e Simplício, passando por fazendas históricas, lago de Furnas e circuito gastronômico.

Paula Esquerdo é economista e desenvolve pesquisas sobre a economia de Além Paraíba – Foto: Rede Social

Um estudo de viabilidade turística e econômica foi realizado pela mestre economia, Paula Esquerdo. Segundo a pesquisadora, o projeto, se colocado em prática, pode trazer retorno financeiro em diferentes áreas do setor econômico de Além Paraíba, como agronegócio, indústria, serviços e turismo.

Entretanto, cinco anos depois de elaborado, o projeto que prevê a volta da Locomotiva 51 ainda não foi colocado em prática. A ABPF-PN é a responsável pela operação e manutenção da maria fumaça. Segundo o ferroviário Valério, a associação aguarda a liberação da Ferrovia Centro Atlântica (FCA) para operar a 51 pelos trilhos.

O ISN Portal entrou em contato com a VLI, controladora responsável pela FCA,  informou em nota que ” a movimentação de locomotivas de passageiros de terceiros, em operação nas linhas das concessionárias, depende de regulamentação e normas definidas pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).”

A VLI também destacou que “o trecho em questão está dentro do processo de renovação da concessão da FCA. Assim sendo, a concessionária entende que é necessário aguardar a conclusão do referido processo para avaliar a solicitação encaminhada pelos interessados.”

O ISN Portal também entrou em contato com a ANTT, e aguarda o retorno do órgão.

 

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