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Afinal, para que serve a ivermectina?

A ivermectina é um medicamento que já está no mercado há mais de 30 anos, protegendo a vida de milhares de pessoas que sofrem com doenças parasitas e infeciosas. O remédio é tão importante que rendeu até o prêmio Nobel para dois pesquisadores envolvidos em seu desenvolvimento. Contudo, a ivermectina não é eficiente no combate aos sintomas da covid-19 – na verdade, o medicamento pode até custar a vida do paciente em alguns casos.

A discussão é relevante já que a droga está sendo utilizada no modo chamado “off-label”. Nesse método, o uso do remédio não é oficialmente previsto pela bula do medicamento. Em alguns países, como na Índia e no Brasil, médicos estão tomando a decisão de receitar o medicamento para tratar os sintomas do novo coronavírus.

O que é e de onde vem a ivermectina?

Embalagem de ivermectina (créditos: rafapress/Shutterstock)

De acordo com Jeffrey R. Aeschlimann, professor do curso de farmácia da Universidade de Connecticut (Estados Unidos), que escreveu um artigo sobre o remédio para o site especializado The Conversation, a ivermectina foi identificada pela primeira vez nos anos 70. O medicamento foi descoberto em uma bateria de exames para encontrar um tratamento eficaz contra parasitas em animais. Portanto, trata-se de um remédio originalmente voltado para uso veterinário e que não possui relação com o tratamento de viroses.

O grupo de pesquisa responsável pela descoberta (o Merck Pharmaceuticals), em parceria com um instituto médico japonês (o Kitasato Institute, liderado por Satoshi Omura), isolou um composto químico batizado de avermectina. Após aproximadamente cinco anos de estudo, os pesquisadores criaram uma forma menos tóxica desse elemento, dando a ele o nome de ivermectina.

Em 1981, o medicamento foi aprovado com o nome comercial de Mectizan para combater infecções por parasitas em gados e animais domésticos.

Ivermectina para uso humano

Satoshi Omura e William Campbell ganhadores do Nobel pelas descobertas com a ivermectina (créditos: Bengt Nyman/Wikimedia Commons)Satoshi Omura e William Campbell ganhadores do Nobel pelas descobertas com a ivermectina (créditos: Bengt Nyman/Wikimedia Commons)Fonte:                Bengt Nyman/Wikimedia Commons 

Mais ou menos nesse mesmo período, o pesquisador William Campbell começou a estudar o uso da ivermectina em humanos. O medicamento estaria demonstrando eficácia contra o parasita causador da doença popularmente conhecida como “cegueira dos rios”, “mal do garimpeiro” ou pelo nome científico de oncocercose. Os testes começaram em 1982 e foram aprovados em 1987.

Desde então, a ivermectina é distribuída gratuitamente em diversos países. Graças a isso, a oncocercose está praticamente erradicada em 11 países da América Latina e preveniu a cegueira de cerca de 600 mil pessoas. Essas quase duas décadas de estudo renderam um prêmio Nobel em Fisiologia e Medicina para William Campbell e Satoshi Omura em 2015.

Ivermectina para tratamento da covid-19

Fazer o que é chamado de reutilização de medicamentos é uma prática comum na medicina. A própria ivermectina tem demonstrado resultados positivos no tratamento de outras parasitoses, como estrongiloidíase, leishmaniose e até malária.

Os estudos relacionados ao uso do medicamento para tratamento da Covid-19 começaram em abril de 2020 e logo despertaram a atenção da comunidade científica. Um dos principais problemas das pesquisas era a dose de ivermectina utilizada nos testes, que era de 20 a 2 mil vezes maior do que o padrão utilizado, o que seria extremamente tóxico para os pacientes.

Os cientistas ainda identificaram outros problemas na pesquisa de uso da ivermectina contra a covid. As inconsistências iam desde análises estatísticas incorretas, discrepância entre dados coletados e publicados até a publicação de resultados duplicados de pacientes e um registro de paciente que havia morrido antes dos testes começarem.

O uso indiscriminado de ivermectina pode levar a casos graves de intoxicação. Duas mortes foram reportadas nos Estados Unidos com suspeitas de overdose desse medicamento. Também é importante destacar que os principais órgãos de saúde do Brasil e do mundo não recomendam a utilização desse remédio para outros fins que não estejam descritos na bula.

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