Saúde

Thammy Miranda e a Paternidade

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Como diria o célebre colunista José Simão, o famoso Macaco Simão: “Buemba, Buemba: Thammy Miranda, filho da cantora Gretchen é contratado pela Natura para estrelar comercial do Dias dos Pais”.
 
Esta pseudonotícia, desmentida posteriormente, causou um tremendo alvoroço em grande parte da sociedade. Uns, questionaram o motivo de se colocar uma mulher representando a figura paterna, invocando tal conduta como atípica para os padrões brasileiros. Outros, convocaram seus seguidores para um grande boicote a marca por afrontar os valores cristãos.
 
Afinal de contas, o que de fato aconteceu ? A empresa Natura, com o objetivo de esclarecer seus consumidores, emitiu a seguinte nota:
 
“A Natura acredita na diversidade. Esse valor está expresso em nossas crenças há mais de vinte anos, estando sempre presente em nossas campanhas publicitárias e projetos patrocinados. A campanha de Dia dos Pais mergulha na rotina desafiadora que todos estão vivendo durante a quarentena e mostra como esse intenso convívio pode fortalecer a relação entre pais e filhos, mostrando que a presença paterna é o maior presente. A Natura celebra todas as maneiras de ser homem, livre de estereótipos e preconceitos, e acredita que essa masculinidade, quando encontra a paternidade, transforma relações”.
 
Thammy Miranda é um homem trans e pai do Bento, de 6 meses, fruto do relacionamento com Andressa Ferreira. Além dele, a empresa convidou outros artistas e influenciadores para compartilhar, em suas redes sociais, as experiências de parentalidade durante o período de isolamento social com a hashtag #MeuPaiPresente.
O mesmo já havia gravado um vídeo no Instagram, em dezembro passado, desabafando sobre o fato de ser discriminado para fazer propagandas, através do questionamento “por que minha imagem não representa a sua marca”. Ele acredita que falta oportunidade pelo fato de ser transgênero.
 
De fato, a polêmica não está apenas na escolha de um transexual para a campanha. É para além disso. Está na dificuldade da grande maioria da sociedade entender sobre a mudança nas expressões da sexualidade.
 
A expressão da sexualidade compreende as múltiplas dimensões da experiência humana, tais como os aspectos biológicos, culturais, afetivos e sociais. Na adolescência, coincide com a maneira de conciliar ao seu novo corpo, às novas sensações e tensões, que o colocam diante de situações novas.
 
Assim, a sexualidade rompe com o conceito homem-mulher e transcende para as mais diversas expressões, que independem do sexo biológico, da identidade de gênero e da orientação sexual. Em Nova York, a Comissão dos Direitos Humanos decidiu por oficializar essa multiplicidade, rumo a um futuro em que todo mundo possa se sentir devidamente identificado.
 
No lugar de somente duas ou três identidades oficiais, a Comissão apontou nada menos que trinta e uma nomenclaturas de gênero para serem usadas em âmbitos profissionais e oficiais, com possibilidade de processos a quem se recusar a fazê-lo e há ainda muito espaço para novas adições de identidades.
 
O documento é enfático na proibição: “Recusa intencional ou repetida em usar um nome, pronome ou título preferencial ao indivíduo. Por exemplo, insistir em chamar um transgênero mulher de ‘ele’ ou ‘senhor’, mesmo que ela tenha deixado claro o pronome e título que prefere”.
 
Diante disso e, espelhando-se em Nova York, devemos exigir o respeito as individualidades e sua incorporação no dia-a-dia já que o mundo está mudando, tornando-se mais complexo, com diferentes possibilidades de vivê-lo – principalmente no campo das identidades de gênero.
 
Diversos grupos têm lutado para garantir as suas identidades e, principalmente, a quebra dos estigmas, discriminações e preconceitos. No movimento negro, palavras como “mulato”, “cabelo ruim” são duramente combatidos, assim como o adjetivo substantivo “aidético”, no universo HIV.
 
Recentemente, participei como mediador de duas lives: “Nome social e os desafios para a retificação de nome e gênero” e “Discriminação por identidade de gênero em estabelecimentos comerciais”. As pessoas que discorreram sobre os assuntos eram compostos por indivíduos comuns que vivem o enfrentamento destas mazelas no cotidiano, relatando de forma franca, clara e aberta sobre inúmeras dificuldades. Uma verdadeira aula !
 
Uma coisa ficou clara: ainda temos a validação do indivíduo por conta exclusivamente de sua genitália. E como tratar as pessoas que retificaram seus nomes e gêneros mas mantém sua genitália biológica ? Simples: como Cidadãos ou Cidadãs. Não é a presença ou ausência do pênis ou da vagina que se faz um indivíduo. Mas a sua conduta, o seu caráter e a sua dignidade.
 
Algumas pessoas relatam a necessidade de se ter um tempo para assimilação destas novas composições sociais. Entendo parcialmente, já que a vida é dinâmica. Porém, esse prazo não deve ser dissociado do bom senso. Qual é a imagem que vejo ? Como gostaria de ser chamado ? A empatia ainda é um excelente termômetro de civilidade.
 
O imbróglio com o Thammy Miranda e a referida propaganda do Dia dos Pais é apenas o início de uma grande discussão pela defesa e valorização dos direitos individuais de acordo com sua identidade, seu papel social e suas escolhas.
Sua mãe, Gretchen, ao defender seu filho define bem o significado da palavra pai: “ele é um pai de verdade, porque ele é um pai presente, um pai que sustenta, um pai que ama, um pai que cuida do filho, um pai que protege sua mulher, um pai que está ao lado do filho e da mulher ao mesmo tempo, um pai de verdade”. Precisa desenhar ?
 

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