Saúde

Como equacionar tolerância, respeito e fé nos dias atuais ?

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Durante três anos, o Instituto Joana d’Arc de Guarujá, que é uma organização social que tem por objetivo promover ações de enfrentamento da epidemia de HIV/AIDS e Hepatites Virais, prevenção em DST e promoção à saúde pública, Direitos Humanos e Cidadania desenvolveu um projeto denominado “Saúde e Cidadania nos Ilês da Baixada Santista”.
 
Inovador, teve sua execução nas cidades de Bertioga, Guarujá, São Vicente e Mongaguá, no período de 2014 a 2017. Tinha por objetivo fortalecer os espaços de matrizes africanas e suas diversas nações mas, acima de tudo, reconhecer e valorizar as lideranças religiosas como promotores de saúde e cidadania.
 
Vários assuntos foram tratados nos terreiros, como meio ambiente, saúde sexual e reprodutiva, direitos humanos, dentre outros. Porém, dois temas se destacaram: “Tolerância e Respeito” e “Preconceito, Autopreconceito e Discriminação”.
 
Naquela época, estávamos ainda sob o impacto da morte de Fabiane Maria de Jesus, linchada em 2014 por alguns moradores do bairro Morrinhos, em Guarujá/SP, sob a alegação de ser praticante de bruxaria e assassinato de crianças, tendo como “prova” um boato com diversas informações distorcidas e replicado incessantemente nas redes sociais por meio da divulgação de um retrato falado sem a menor semelhança com a Fabiane. O suposto crime, desmentido posteriormente, datava de 2012.
 
Diante desse fato, diversos debates incluindo o tema foram travados: o impacto negativo e mortal da desinformação, o pré-julgamento sem bases sólidas e a famosa prática da lógica simplista, que dizia “se ela é bruxa, mata crianças para rituais e as religiões de matrizes africanas fazem sacrifícios, logo ela é macumbeira”.
 
Ledo engano. Fabiane era evangélica e tinha saído pra buscar sua Bíblia, esquecida na igreja que frequentava. As tecnologias empregadas pela Polícia Científica já estavam muito avançadas e seria impossível que uma criminosa com um currículo de mais de 50 mortes – segundo a desinformação – estivesse livre e com seu paradeiro sempre indicado nas postagens. Seria omissão e das grandes !
 
Os sacrifícios realizados pelas religiões de matrizes africanas nada tem a ver com assassinatos, apesar das críticas dos protetores de animais – e esse assunto daria um longo artigo com embates ferrenhos. Por fim, macumba é um instrumento de percussão de origem africana, semelhante ao instrumento reco-reco e não as oferendas feitas pelos adeptos das religiões.
 
Os espaços de comunicação virtual estavam em polvorosa: diversos murais, grupos e fóruns foram instalados para debater o tema. Dentre as discussões o que reinava era a intolerância religiosa. Advindas das mais diversas vertentes religiosas. Naquele momento, percebemos que faltava a ampliação de alguns debates, pois os ataques e fantasias eram um campo fértil para alargar as diferenças de crenças, mitos e tabus. O ódio era latente !
 
Iniciamos uma série de debates como forma de educação comunitária junto aos adeptos de matrizes africanas, num processo de imersão ou autoanálise. Inicialmente, trabalhamos os conceitos de religião, tolerância e respeito, estes últimos tão parecidos mas com significados distintos.
 
Religião, no seu conceito etimológico, deriva quer do latim relegere – respeitar e, por extensão, dedicar a um culto, quer do verbo religare – religar. A religião constitui então um laço que une o homem ao divino como à fonte de sua existência. Também, como uma expressão de sentimento do homem em relação ao que é santo ou sagrado, que acabou por exprimir através de mitos, rituais, símbolos e filosofia. A religião esteve sempre estreitamente relacionada com os valores morais e a estrutura da sociedade.
 
A Tolerância vem do latim tolerantĭa – constância em sofrer – e define o grau de aceitação diante de um elemento contrário a uma regra moral, cultural, civil ou física. Socialmente, a tolerância é a capacidade de uma pessoa ou grupo social de aceitar outra pessoa ou grupo social, que tem uma atitude diferente das que são a norma no seu próprio grupo.
 
Desse modo, é garantida a aceitação de diferenças sociais e a liberdade de expressão. Portanto, tolerar algo ou alguém é permitir que algo prossiga, mesmo que a pessoa não concorde com tal valor, pois é dado o respeito de discordar.
 
Já o respeito pode ser definido como uma atitude de admiração que se demonstra ou se sente por uma outra pessoa ou por alguma coisa que é confiável, que possui boas qualidades ou ideias e é apreciável. Ou, ainda, como uma maneira de veneração, prestar culto a uma entidade – podendo ser uma religião ou uma pessoa, obediência, acatamento ou submissão. Assim, respeito tem vinculação com aquilo que aceitamos como uma verdade demonstrada por alguém ou em algo que confiamos.
 
Assim, no tocante a generalização – como todos os evangélicos são intolerantes ou todo umbandista e candomblecista servem ao demônio, por exemplo – compreendemos que são definições extremamente rasas, já que existe a polarização focada entre o bem e o mal. Há pessoas com boa ou má índole, ideologias e formas de pensamentos diversos em qualquer sociedade, religião, espaço político, entre outros.
 
As questões de intolerância religiosa estão muito mais ligadas a garantia ou manutenção de poder do que na fé em si, por meio da busca incessante de acúmulo de praticantes ou adeptos, no uso desenfreado do marketing de massa e promessas milagrosas, seja na imposição de dogmas e princípios como verdade absoluta.
 
Apesar da multiplicidade de crenças, dogmas e práticas existentes nas diversas religiões, há a necessidade de respeito às individualidades e escolhas, seja no âmbito da fé ou no modo de viver.
 
Ainda, não há como negar a existência de omissão ou violência passiva avalizada por regramentos ou dogmas religiosos, onde algumas agressões – sejam físicas ou psicológicas – são simplesmente ignoradas ou aceitas, como se não nos atingissem ou se fossemos imunes a tais ataques.
 
Por fim, desqualificar lideranças religiosas não é o caminho para o entendimento dos fenômenos psicorreligiosos, pois sabemos que existem rituais onde há a prática de “pressentir” sofrimentos, sejam no sentido material, no corpo ou na alma.
 
Pois bem, na análise de uma pessoa cética, a avaliação racional seria pelo viés de fraudes, já que todas as pessoas sofrem de alguma maneira; que o Brasil conta com mais de 12 % de desempregados; que aproximadamente 25 % da população mundial sofre de algum tipo de dor, alinhando tais arroubos com adivinhação ou probabilidade científica. Mas e o fenômeno da fé ? Deve ser desconsiderada ? Desvalorizada ?
 
Mas qual o motivo desta recordação ? Primeiro, como forma de reverenciar um trabalho tão importante realizado pela instituição que fez com que diversas lideranças entendessem seu papel social e se tornassem atuais protagonistas no campo das políticas públicas.
 
Segundo, para que não haja mais atentados contra Fabianes por conta de intolerância religiosa. Terceiro, por que estamos vivenciando um período muito parecido com o citado, onde as agressivas Fake News – outra pauta urgente a ser amplamente discutida e regrada –  e as ações de políticas públicas não pautadas pela laicidade do estado ameaçam nos fazer reviver o passado.
 
Então, qual o caminho para equacionar tolerância, respeito e fé nos dias atuais ? A saída para esse dilema é garantir a laicidade do Estado, evitar e doutrinar a disseminação das Fake News devido ao seu poder extremamente nocivo com suas pautas fraudulentas, investir em ações voltadas na empatia, no respeito entre as pessoas e as religiões, agregando a sociedade civil por meio daqueles que lutam por uma sociedade mais justa, independente das diferenças e credos – incluindo aqui os agnósticos e ateus.
 
Aproveito para parabenizar o grande trabalho que vem sendo realizado pelo Fórum Interreligioso Municipal (FIRM), de Guarujá, onde as discussões sobre cultura de paz e liberdade de crença são uma missão institucional e do qual sinto-me honrado de ter feito parte do processo de construção.
 
Ainda, utilizemos o exemplo de um dos maiores filósofos e pacificadores, Jesus, independente da sua religiosidade ou não, por meio da aplicação diária da junção do segundo maior mandamento com o primeiro: “Tens de amar o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:39).
 
Que Deus, Jesus, Alá, Oxalá, Buda, Jeová, Krishna, todos os seres iluminados e você estejam vibrando pela tão sonhada comunhão, paz e amor universal.
 

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