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Espaço para o que pode ser tolerado encolheu com rapidez estarrecedora

Tendo passado a maior parte da pandemia nos Estados Unidos, estou na Europa há cerca de dois meses.

E foi apenas duas semanas atrás que repentinamente me dei conta de algo. Em todo o tempo que estou aqui, ninguém expressou alguma opinião política inofensiva que divergisse levemente do consenso prevalente nos grandes jornais e nas revistas e depois acrescentou casualmente: “Claro que eu nunca diria isso em público”. É um contraste marcante com os Estados Unidos.

Quando cheguei à América, gostei muitíssimo de como o discurso político nesse país era livre e amplo.

Mas essa realidade mudou radicalmente nos últimos cinco anos. Ao mesmo tempo que a ascensão de Donald Trump tornou possível um presidente incitar ódio e semear desinformação, o espaço para o que pode ser tolerado nos ambientes ditos “respeitáveis” em que eu me movimento e escrevo —incluindo os campi das universidades e as páginas dos jornais americanos— encolheu com rapidez estarrecedora.

Os múltiplos casos de pessoas que perderam seu emprego ou tiveram sua reputação destruída devido a infrações pequenas ou inexistentes captam parte dessa realidade.

Mas ninguém até agora conseguiu quantificar o efeito paralisador que eles vêm tendo. O regime de autocensura tem avançado mais rapidamente do que eu julgava ser imaginável.

Um novo caso recente sugere que as coisas podem estar prestes a se agravar ainda mais.

Dorian Abbot é geofísico da Universidade de Chicago. Em reconhecimento por suas pesquisas sobre mudança climática, o MIT (Massachusetts Institute of Technology) o convidou para proferir a palestra John Carlson, realizada anualmente e que tem o objetivo de “divulgar resultados novos e instigantes da ciência climática para o público geral”.

Começou então uma campanha para cancelar a palestra de Abbot. No Twitter, alguns estudantes e professores pediram que a universidade retirasse o convite feito a ele.

Dito e feito: o MIT cedeu, tornando-se mais uma instituição importante na vida americana a mostrar que o compromisso com a liberdade de expressão que ela alardeia em seu site desaparece no momento em que algumas vozes estridentes nas redes sociais pedem a cabeça de um orador.

Abbot seria alguém que nega a mudança climática? Ou será que cometeu algum crime hediondo? Não —ele apenas externou nas páginas de uma revista de alcance nacional sua opinião sobre o modo como as universidades devem selecionar seus alunos e contratar seus docentes.

Em agosto, Abbot e um colega, na revista Newsweek, criticaram a ação afirmativa e outros meios para favorecer candidatos a universidades ou empregos, com base em sua identidade étnica ou racial.

Abbot defendeu um sistema que descreveu como sendo baseado no Mérito, Imparcialidade e Igualdade (MFE, na sigla em inglês), no qual os candidatos sejam “tratados como indivíduos e avaliados por meio de um processo rigoroso e não enviesado, baseado unicamente em seu mérito e suas qualificações”.

Isso, destacou ele, também acarretaria “o fim das vantagens concedidas em razão de laços familiares ou realizações esportivas, vantagens que favorecem significativamente candidatos brancos”.

Seja ela certa ou errada, o fato é que a posição de Abbot em relação à ação afirmativa coincide com a da maioria da população americana. Segundo sondagem recente do Pew Research Center, 74% dos americanos pensa que, quando tomam decisões sobre contratação de pessoal, empresas e organizações devem “levar em conta unicamente as qualificações, mesmo que isso resulte em menos diversidade”.

Apenas 24% concordam que elas também devem “levar raça e etnia em conta, para aumentar a diversidade”. Do mesmo modo, em um referendo sobre ação afirmativa promovido em 2020, 57% dos eleitores na Califórnia —um estado muito liberal no qual, por acaso, as minorias étnicas e raciais formam a maioria da população— votaram por continuar a proibir a ação afirmativa.

Nos últimos anos, os campi americanos assistiram a muitas campanhas pelo cancelamento de aparições públicas de figuras controversas. Sou contra todas essas campanhas, independentemente de minha opinião sobre o palestrante em questão. Como colocou Nicholas Christakis sucintamente, “não existe um direito de ser convidado para discursar em uma universidade”. “Mas, a partir do momento em que uma pessoa é convidada, a universidade nunca deve ceder a pressões para que se retire o convite.”

Mas existe uma diferença qualitativa importante entre muitas dessas controvérsias passadas e a decisão covarde do MIT de cancelar a palestra de Abbot. Pois não só as opiniões de Abbot são muito mais moderadas, como elas não guardam relação alguma com o tópico sobre o qual foi convidado a discursar.

O MIT não rescindiu o convite feito a Abbot por prever que ele pudesse reiterar suas posições sobre ação afirmativa. Não —ele foi desconvidado a comparecer a uma das universidades de pesquisa mais importantes do mundo porque ela não tolerou que um cientista fosse autorizado a falar de suas pesquisas não controversas depois de ter ousado externar uma opinião sobre um tema não relacionado, que, embora fosse controvertida, por acaso coincidia com a da maioria do público americano.

Esse fato torna especialmente preocupante o princípio endossado explicitamente pelo MIT. Esse princípio representa, na prática, uma restrição grave à possibilidade de americanos divergirem de um conjunto específico de ideias políticas sem correr o risco de não poderem mais levar adiante seu trabalho não político. Isso, na prática, proibiria todos os acadêmicos —e, eventualmente, talvez, profissionais de outras áreas altamente visíveis— de manifestar posições políticas polêmicas.

A decisão do MIT não é, portanto, apenas mais uma em uma longa série de controvérsias nos campi. Ela reflete um ambiente social que já é chocantemente iliberal. Cria um precedente que, se não for resistido fortemente, trará uma ameaça séria à preservação de uma sociedade livre.


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