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Censo chinês estimula mudança de políticas e de estratégias empresariais

O recenseamento da China oferece um novo retrato do país. Mundo afora, as manchetes destacaram o tamanho da população chinesa —1,411 bilhão, que logo começará a encolher. E a taxa de fertilidade do país —1,3 filho por mulher, bem inferior aos 2,1 necessários para manter a população estável.

O ciclo de notícias avançou, mas as repercussões do censo na China estão apenas começando. Com base nele, políticas públicas e estratégias empresariais estão sendo repensadas.

A pesquisa evidenciou o encolhimento da força de trabalho, o que limita o potencial de crescimento do país. A resposta do governo? Em primeiro lugar, aumento da produtividade. São menos pessoas no mercado de trabalho, mas elas podem ser mais produtivas.

Para isso, tecnologia ganha peso na equação. Educação também. O censo mostra claramente que a população que entra no mercado de trabalho é mais educada do que a que sai dele. O percentual dos que têm diploma universitário cresceu mais de 70% na última década, alcançando 15% da população. A proporção não é grande (no Brasil é de cerca de 17%). É o salto que importa, e mais virá.

Urbanização é outro item na caixa de ferramentas para estimular produtividade. Hoje, 36% dos chineses ainda vivem no campo. Na cidade, os empregos são mais produtivos. Trata-se de motivo extra para facilitar a migração de chineses dentro da China, algo ainda controlado.

Há um instrumento poderoso para conter a redução da força de trabalho: aumentar a idade de aposentadoria. Engana-se quem pensa que, na China, isso é fácil. Homens ainda se aposentam aos 60; mulheres, aos 55 ou mesmo aos 50. As idades não refletem a realidade da China de hoje, em que a expectativa de vida é superior a 77 anos. A reforma é difícil, mas o censo encoraja o governo a mexer no vespeiro.

Em muitos países, facilitar a imigração seria uma das maneiras de lidar com uma força de trabalho que encolhe. A população estrangeira na China é baixíssima ainda —de 0,1%, revelou o levantamento. Mas não é por aí que o governo deve avançar, salvo de maneira muito focada em profissionais com competências específicas. Alterar regras para aposentadoria pode até ser, mas fazer da China um país de migrantes está fora de cogitação.

Claro, um aumento da taxa de fertilidade ajudaria no médio prazo. O irônico é que, até agora, os chineses estão sujeitos a multas se tiverem mais filhos do que o permitido —podem ter dois, não três. Com o censo, ganha força de lógica inversa: subsídios ou mesmo bônus financeiro para proles maiores.

Não apenas o governo, mas as empresas estão digerindo os resultados. Buscam sobretudo antecipar tendências de consumo.

O número de residências compostas por uma ou duas pessoas surpreendeu. Os domicílios chineses são formados por menos de três indivíduos —2,6 em média. Isso faz empresas considerarem, por exemplo, o tamanho de imóveis, veículos e eletrodomésticos, as embalagens de alimentos e o desenho de mobiliário.

A faixa etária acima de 60 anos —18,7% da população contra 13,3% em 2010— passa a receber mais atenção. Como consumidores, são mais numerosos – e ricos – que no passado. Serviços de saúde, por exemplo, representam um desafio para o governo mas oportunidades para empreendedores.

A mudança no perfil demográfico da China estimula ajustes de rumo de agentes públicos e privados. Tão interessante quanto a nova fotografia do país é saber que mudanças ela provocará. A conversa que mais importa sobre o censo começa agora —quando se parou de falar dele.


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