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Drones dominam história militar de 2020 e abrem brecha a países pobres

Durante toda a década passada, os aviões sem piloto simbolizaram uma forma peculiar de projeção de poder dos Estados Unidos: comandados a milhares de quilômetros, eles fizeram estimados 14 mil ataques em locais como Afeganistão, Paquistão e Somália.

O Predator (predador, em inglês), que até 2017 foi o modelo principal em uso pela superpotência, virou sinônimo de uma morte silenciosa e, para alguns, covarde e antiética. Mas tudo isso mudou em 2020, que entrou para a história militar como o ano dos drones.

O conflito de 44 dias entre Armênia e Azerbaijão, que resultou numa vitória militar de Baku e a desocupação de quase todo o território que Ierevan dominava desde os anos 1990, foi o primeiro em que os drones tiveram um papel ativo entre Estados.

Antes, além do protagonismo na chamada guerra ao terror, os drones já eram vistos em campos de batalha de locais como Síria e Líbia, engolfados em guerras civis.

Mas o Cáucaso viu a estreia da arma como um instrumento decisivo no embate entre nações envolvidas em um conflito convencional.

Baku não tinha drones armados até meados do ano passado, quando passou a receber dezenas de unidades de sua aliada Turquia, hoje uma das potências do ramo —seus modelos são onipresentes nos céus sírios e na Líbia, onde impediram o avanço final do líder rebelde apoiado por Moscou ao destruir suas baterias antiaéreas.

O principal deles é o Bayraktar (porta-estandarte, em turco) TB2, uma adaptação do famoso Heron (pássaro, em hebraico), da israelense IAI. O Estado judeu é pioneiro no uso do armamento e também vendeu outro modelo, o drone suicida Harop (harpa), para os azeris.

O saldo para os armênios foi quantificado pelo site militar Oryx: 185 tanques T-72, 90 blindados, 182 peças de artilharia, 26 baterias antiaéreas, inclusive 5 poderosas S-300 russas, 73 lançadores de foguetes, 14 radares, 451 veículos militares, 1 avião de ataque Su-25 e 4 drones destruídos.

As perdas do lado azeri, atacado de forma mais convencional, foram cerca de um sexto da destruição sofrida pela Armênia. Houve em torno de 5.000 mortos oficiais no conflito, metade para cada lado.

“Pela primeira vez, ficou claro que países com menos recursos podem fazer uso intensivo de drones numa guerra convencional”, afirma o especialista em drones Pavel Fedutinov, de Moscou.

“Eles são opções baratas a caças caros. Manter uma Força Aérea é uma aventura dispendiosa. A Armênia havia gasto US$ 100 milhões para comprar quatro Su-30 da Rússia e eles não fizeram nenhuma diferença”, conta.

Um drone Bayraktar TB2, modelo principal da Turquia, sai por menos de US$ 2 milhões. Ele pode ficar 27 horas no ar e carregar 150 quilos de foguetes e bombas.

Fedutinov argumenta, porém, que drones não irão substituir a importância de caças e bombardeiros para países mais capazes, mas nem por isso as grandes potências militares os subestimam —ao contrário.

O secretário de Defesa do Reino Unido, Ben Wallace, afirmou no mês passado que a Turquia era um exemplo de como liderar o caminho com produtos mais acessíveis, comparando o custo de um Bayraktar com os US$ 20 milhões de cada um dos 16 Protector (protetor) americanos que o país encomendou.

“Drones são o futuro”, disse por mensagem Nikolai Doljenkov. Ele tem autoridade: em 1982, na esteira do sucesso do uso de aviões-robôs de vigilância por Israel no Líbano, ele foi escolhido pela União Soviética para desenhar seu primeiro drone, o Ptchela (abelha, em russo).

Após algumas incursões na aviação convencional, ele se dedicou totalmente aos drones. É o chefe de desenho da maior especialista em aviões não tripulados da Rússia, a Kronstadt.

Doljenkov conta que o crescente uso de drones por rebeldes islâmicos apoiados pela Turquia na Síria fez os russos investirem mais no armamento.

Ele passou a testar o uso de mísseis e bombas em seu principal drone, o Orion-E, que recebeu em dezembro a certificação para combate e licença para ser exportado.

Ele é chamado de o “Predator russo”, mas traz uma aviônica mais avançada que a do modelo americano aposentado há três anos em favor do maior e mais potente Reaper (ceifador). Para fazer frente a drones mais potentes, os russos têm outra resposta, o Okhotnik (caçador).

Uma asa voadora a jato, que lembra o bombardeiro furtivo B-2, o Okhotnik surpreendeu o mundo da aviação ao ser exibido voando como um “parceiro” do caça de quinta geração Su-57. Ambos os modelos são da Sukhoi, tradicional fabricante de caças russos.

O Okhotnik, contudo, deverá ser um produto caro. Como opção, Doljenkov apresentou o Grom (trovão), um drone menor, também a jato, para voar controlado por Su-57 e Su-35, caça amplamente usado pela Rússia.

Há no mundo, segundo conta da ONG New America feita em 2019, 22 Estados com drones armados. Os EUA continuam líderes, com a maior frota de drones pesados do planeta: 495 deles, ante 26 do segundo colocado, a China, diz o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres.

Principal rival geopolítica dos EUA, Pequim também investiu no ano passado em testes de pequenos drones suicidas.

Assim como o Harop israelense, eles sobrevoam o campo de batalha à busca de alvos, com pequenos sensores. No caso chinês, eles voam em enxames, podendo fazer ataques pontuais ou concentrados.

O Brasil possui um modelo nacional de grande porte, o Atobá, que foi desenvolvido pela Stella Tecnologia mas ainda não foi adotado pela Força Aérea. Ele é um drone de vigilância, contudo.

Apesar de despontar como estrela no campo, a Turquia enfrenta problemas com seus drones.

Sua indústria de defesa cresceu enormemente, incentivada pela política externa agressiva do presidente Recep Tayyip Erdogan —passou de uma receita de US$ 1 bilhão anual em 2002 para US$ 11 bilhões no ano passado.

Tal apetite chamou a atenção de competidores. Os drones da classe Bayraktar usam versões modificadas de motores austríacos da Rotax, empresa que não gostou de ver sua tecnologia numa arma de guerra e passou a vetar transferências tecnológicas, assim como fizeram os EUA.

Para equipar sua próxima geração de drones, o Akinci (corsário), os turcos então se voltaram à sua nova parceira regional, a Ucrânia. Só que Kiev não está disposta a fornecer todo o conhecimento sobre seus dois motores turboélice, travando a produção.

“Isso mostra que a competição está só começando. Se os drones estão em quase tudo na vida civil e já tinham ampla aplicação militar, isso mudou de patamar em 2020”, diz Fedutinov.

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