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Eleição presidencial nos EUA aprofundou divisão entre classes profissionais

O crescimento dos empregos e dos salários nos Estados Unidos, que o presidente Donald Trump esperava que o levasse a um segundo mandato, foi especialmente forte nas áreas metropolitanas. Mas os americanos que vivem nas grandes cidades e nas comunidades a seu redor, onde a economia mais prospera, votaram contra o presidente.

Trump ganhou no Texas, mas perdeu no condado que inclui Fort Worth —a primeira vez para seu partido desde 1964. Ele venceu na Flórida, mas os eleitores na maior cidade do estado, Jacksonville, e arredores votaram nos democratas pela primeira vez desde 1976. O condado onde fica Phoenix votou nos democratas pela primeira vez desde 1948. (Condados são divisões administrativas territoriais, como os municípios, mas às vezes contêm mais de uma cidade.)

Ao todo, Trump perdeu em 91 dos 100 condados mais populosos do país em 2020, quatro a mais que em 2016.

Essa mudança é uma de várias que mostram que as divisões econômicas do país continuam refletindo suas divisões políticas, ambas aumentando. A América metropolitana, com seus níveis mais altos de educação e concentração de empregos de colarinho branco (setor de serviços), vota cada vez mais nos democratas, enquanto os republicanos reforçam sua influência em partes de crescimento mais lento e menos urbanas do país.

O presidente eleito, Joe Biden, ganhou em 17% dos condados do país, mas estes representam 71% do PIB nacional —porcentagem maior que os 64% conquistados pela candidata democrata anterior, Hillary Clinton, segundo o analista Mark Muro, do Instituto Brookings. Neste ano, Trump ganhou em 83% dos condados, que representam menos de 30% do PIB.

Trump venceu neste ano em 16 dos 100 condados cujos moradores têm maior propensão a ter diplomas de faculdades de quatro anos, contra 21 condados em 2016, segundo análise do Wall Street Journal. Ele ganhou em 43 dos condados com renda familiar média mais alta, oito a menos que em 2016.

Biden melhorou a porcentagem de votos em seu partido nas grandes áreas metropolitanas, principalmente por causa dos eleitores suburbanos. Mas muitos deles também apoiaram congressistas republicanos, sugerindo que as afiliações políticas em muitos lugares continuam fluidas. E por isso as divisões econômicas sugeridas pelos resultados de 2020 podem não ser duradouras.

De modo geral, porém, a eleição de 2020 mantém uma tendência que começou nos anos 1980.

Desde a era Reagan, os dois partidos basicamente trocaram seus principais apoiadores. Os democratas, partido dos sindicatos e da América trabalhadora, hoje incluem grande parte da classe profissional do país. Os republicanos, antes o partido dos americanos com diploma superior, são cada vez mais o partido da classe trabalhadora branca —e, como mostrou a eleição de 2020, de uma minoria maior de hispano-americanos.

Os condados que trocaram de partido na eleição de 2020 mostraram uma clara divisão entre partes do país de maior crescimento, com empregos no setor de serviços, e um conjunto de comunidades de crescimento mais lento que dependem mais de empregos industriais.

Desde o início da presidência Trump até o ataque do coronavírus, o emprego aumentou 5,3% nos condados que apoiaram Biden depois de apoiar Trump em 2016, segundo a análise de Muro e do Instituto Brookings. Em comparação, o crescimento dos empregos foi de 1,4% nos condados que votaram nos democratas na eleição anterior, mas apoiaram Trump neste ano.

Nos condados que mudaram para Biden, uma média de 38,5% dos adultos empregados têm empregos de colarinho branco —em cargos administrativos, computação, advocacia e outras profissões.

Em comparação, 26,5% dos trabalhadores ocupam empregos em serviços nos condados que mudaram para Trump, segundo análise de Kenan Fikri e colegas no Grupo de Inovação Econômica, um grupo de pensadores políticos bipartidário. (Sua análise excluiu o estado de Nova York, onde o total de votos em alguns condados ainda é incompleto.)

A concentração de empregos em serviços “é um bom prenúncio de cultura, classe e perspectivas econômicas”, disse Fikri. Referindo-se aos condados que trocaram de partido, ele disse: “As forças que dividem os americanos segundo essas linhas em campos políticos diferentes parecem bastante poderosas. Esses lugares resistiram à tendência em 2016, mas a pressão foi grande demais em 2020 e eles mudaram”.

As crescentes divisões ajudam a explicar por que o centro político do país está encolhendo. “O que eles refletem são experiências cada vez mais diferentes de oportunidade e bem-estar nos EUA”, disse John Lettieri, presidente do grupo. “Devemos esperar que essas tendências, enquanto continuarem, atuarão como ventos de popa na polarização de nossa política.”

Uma visão mais ampla das divisões econômicas reveladas nos resultados da eleição presidencial de 2020:

População: Trump não ganhou em nenhum dos 25 maiores condados neste ano, depois de perder nos dois maiores que o haviam apoiado em 2016: Maricopa, no Arizona, que inclui Phoenix; e Tarrant, no Texas, que inclui Fort Worth. O maior condado que apoiou Trump é Suffolk, o 26º em população, em Long Island, Nova York. Os republicanos venceram regularmente em um terço ou mais desses mesmos condados até os anos 2000.

Crescimento populacional”Mais da metade dos condados americanos estão perdendo população, conforme ela migra de muitos condados rurais ou de ambientes mais urbanos que perderam empregos na indústria. Esses condados votaram desproporcionalmente em Trump.

Eles incluem lugares como o condado de Mahoning, em Ohio, onde fica o antigo centro siderúrgico de Youngstown, que por muito tempo votou democrata até apoiar Trump neste ano. O condado perdeu mais de 4% dos habitantes de 2010 a 2019, segundo análise do Grupo de Inovação Econômica.

Ao todo, cerca de 57% dos condados que apoiaram Trump perderam população nesse período, comparados com 37% dos condados de Biden. O ganho médio de população nos condados de Biden foi de quase 3,2%, comparado com 0,6% nos condados onde Trump venceu.

Educação: Trump ganhou em 16 dos 100 condados com maior nível educacional –os que têm maior porcentagem de moradores com diploma superior de quatro anos ou mais. Em 2016, ele ganhou em 21 deles. Em 1980, os republicanos ganharam em 76 desses mesmos 100 condados.

Renda: Biden venceu em 16% de todos os condados americanos, mas em 30% daqueles com renda familiar média entre os 25% da camada superior, que incluem pouco mais de 775 condados. Entre os cem condados com maior renda, 57 apoiaram o candidato democrata à Presidência, contra 49 condados em 2016.

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