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Ele ficou 20 anos preso por causa de um crime cometido por um serial killer

Um sul-coreano que passou 20 anos na prisão pelo assassinato de uma menina de 13 anos foi absolvido em um novo julgamento na quinta-feira, depois de o serial killer mais infame do país ter confessado o crime no ano passado.

O homem absolvido, Yoon Sung-heo, 53, foi sentenciado à prisão perpétua em 1989 por acusações de homicídio envolvendo a morte da menina em Hwaseong, um condado ao sul de Seul, no ano anterior. Yoon passou duas décadas atrás das grades. Recebeu liberdade condicional em 2009.

Ele teria passado o resto da vida visto como ex-condenado, não fosse por uma reviravolta sensacional no caso de assassinatos múltiplos que passou mais tempo sem ser elucidado no país.

No ano passado a polícia anunciou que um homem que cumpria pena de prisão perpétua pelo estupro e assassinato de sua cunhada em 1994 confessara ser responsável pelos chamados assassinatos em série de Hwaseong, envolvendo dez mulheres que foram encontradas brutalmente mortas entre 1986 e 1991.

O serial killer confesso, Lee Chun-jae, também admitiu ter matado outras quatro pessoas, entre elas a menina de 13 anos. Yoon imediatamente pediu um novo julgamento de seu caso.

O juiz distrital Park Jeong-jae, de Suwon, ao sul de Seul, disse na quinta-feira (17) em sua decisão sobre o processo de Yoon: “Foi um veredito errado, baseado em investigações falhas.

“Como membro do Judiciário, peço desculpas ao réu pelo fato de o Judiciário não ter cumprido corretamente seu papel de último bastião dos direitos humanos”, acrescentou.

Quando o veredito foi anunciado, os defensores de Yoon explodiram em aplausos e lhe entregaram flores.

A promotoria decidiu não recorrer do veredito.

“Espero que ninguém mais seja falsamente acusado, como eu fui”, Yoon disse a jornalistas na quinta-feira.

Os crimes em Hwaseong aterrorizaram os sul-coreanos durante décadas. As vítimas tinham entre 7 e 71 anos de idade, e muitas foram mortas por estrangulamento, depois de estupradas. Seus corpos foram encontrados com suas próprias meias ou sutiãs enfiadas na boca. Alguns dos corpos tinham sido mutilados com guarda-chuvas, garfos ou lâminas de barbear.

“Ainda não sei porque fiz o que fiz”, disse Lee no mês passado, quando depôs no novo julgamento de Yoon. “Eu não pensei antes, não planejei. Cometi os crimes como uma mariposa que é atraída por uma chama.”

Ao longo dos anos, um total de 2 milhões de policiais foram mobilizados na caça ao assassino e mais de 21 mil homens foram interrogados. Os assassinatos inspiraram o filme “Salinui Chueok”, sucesso comercial de 2003.

Os casos permaneceram sem solução até o ano passado, quando avanços nas análises de DNA permitiram que especialistas forenses extraíssem amostras de algumas das evidências colhidas nos locais dos crimes. As amostras corresponderam às amostras de DNA de Lee, e este começou a confessar a autoria dos crimes.

Durante o novo julgamento de Yoon, um dos ex-detetives da polícia que investigara seu caso admitiu que Yoon foi espancado e impedido de dormir por três dias antes de ser forçado a confessar. Na quinta-feira o tribunal concluiu que os argumentos contra Yoon haviam sido baseados em sua detenção ilegal e tortura e não sobre quaisquer provas confiáveis.

Já a confissão de Lee “é muito digna de crédito”, segundo o tribunal.

A Agência Nacional de Polícia emitiu declaração na quinta-feira em que pediu desculpas por ter “estigmatizado um jovem inocente como assassino”.

Segundo os advogados de Yoon, a investigação policial original beirou o absurdo: a polícia alegou que Yoon teria escalado um muro para entrar na casa da menina assassinada. Mas, quando o levou ao local para uma reconstituição do crime, Yoon, que sofreu pólio na infância e anda mancando, não conseguiu escalar o muro.

O argumento de Yoon de que sua confissão foi extraída a custo de tortura não foi admitido em seu julgamento original.

Quando Lee compareceu como testemunha no novo julgamento de Yoon, em novembro, também ele revelou que a investigação policial original fora cheia de falhas.

Antes de iniciar sua série de assassinatos brutais, em 1986, ele foi interrogado pela polícia sobre um estupro, mas libertado quando os policiais optaram por não levar o caso adiante, Lee contou. Ele disse que em determinado momento estava com o relógio de uma de suas vítimas no bolso quando a polícia o interrogou como parte da investigação dos assassinatos em Hwaseong. Mais uma vez ele saiu livre.

“Ainda não entendo por que eles levaram tanto tempo para me pegar”, disse Lee, 57. “Fui interrogado várias vezes, mas os policiais sempre me perguntavam sobre meus amigos e vizinhos –nunca me interrogaram seriamente sobre mim mesmo.”

A polícia disse que Lee pode ter decidido cooperar após a análise do DNA porque ele já não teria que enfrentar mais acusações criminais. O último dos assassinatos em Hwaseong prescreveu em 2006, 15 anos depois do crime. Mas as chances de liberdade condicional de Lee evaporaram.

Lee disse que prefere permanecer na prisão do que receber liberdade condicional. Ele citou o caso de Cho Doo-soon, libertado este mês depois de cumprir 12 anos de prisão pelo estupro de uma menina de 8 anos. Cho recebeu ameaças de morte durante meses antes de ser libertado, obrigando a polícia a aumentar a segurança em volta de sua casa.

“Não é que eu não tenha pensado sobre como seria a vida se eu pudesse sair em condicional”, disse Lee no mês passado. “Mas prefiro continuar na cadeia. Ouvi falar de como o povo reagiu à libertação de Cho Doo-soon. Posso imaginar como seria se as pessoas soubessem que eu seria solto.”

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