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Mídia dos EUA encara como conservar público de 'órfãos' de Trump

Dias depois da eleição, um assessor de Joe Biden para mídia não gostou do que vinha acompanhando no Facebook e desabafou publicamente. A plataforma estava, escreveu Bill Russo no Twitter, “destruindo o tecido da nossa democracia”, permitindo e até estimulando desinformação.

Não foi manchete naqueles dias de apuração, Russo apagou a mensagem em seguida, mas Mark Zuckerberg, presidente do Facebook, teria lido.

Em reunião com funcionários logo depois, vazada para BuzzFeed News e The New York Times (NYT), ele decidiu então alterar o algoritmo da rede social. Foi após o fechamento das urnas, não afetou o resultado da eleição, mas mostrou que ele tem, de fato, o poder de editar o Facebook como quiser e de forma quase imediata.

Zuckerberg elevou o peso que o algoritmo dava para as pontuações dos veículos de comunicação em seu ranking interno de “Qualidade do Ecossistema de Notícias”.

O resultado foi aumentar a visibilidade para veículos tradicionais como CNN e NYT, de acordo com o próprio NYT, em detrimento de sites à direita, como o Breitbart.

Com a revelação da mudança, a pressão dos democratas passou a ser pela manutenção do algoritmo como ele está.

Do lado republicano e de outros, sobreveio uma revolta pela aparente comprovação de alinhamento entre plataformas e mídia para favorecer o então candidato Biden.

Para Ben Shapiro, do Daily Wire, uma das novas referências à direita, as redes sociais terão o que merecem, caso atuem como “megafones para a mídia tradicional suprimirem seus concorrentes”. Elas foram, afinal, “o lugar ao qual os americanos recorreram, se estavam insatisfeitos com a mídia monolítica de esquerda”, afirmou ele.

O episódio revelou não só o poder de Zuckerberg para conter a disseminação de desinformação, se quiser, mas também para usá-lo como barganha em negociações. É uma arma agora às claras, por exemplo, para se defender das ameaças de divisão da empresa, tirando dele o Instagram.

No início do ano, Biden declarou, sem rodeios: “Nunca fui um fã de Zuckerberg. Eu acho que ele é verdadeiramente um problema. Não devemos nos preocupar só com a concentração de poder, mas com o fato de eles serem isentos. Propagam falsidades que sabem ser falsas. É totalmente irresponsável”.

O presidente eleito, assim como muitos republicanos e democratas no Congresso, quer derrubar a chamada seção 230, legislação que isenta as plataformas de processo pelo conteúdo que publicam.

Para Carlos Eduardo Lins da Silva, professor do Insper, “vai haver muito jogo político entre big tech, Congresso e o governo Biden”, a partir de agora.

“Um jogo de toma-lá-dá-cá, com toda a questão do monopólio, se vai quebrar ou não essas grandes empresas, a taxação digital. E a tendência é de uma atitude, digamos, menos conservadora do Facebook.”

Mas o saldo das plataformas na eleição é positivo, acrescenta. “O comportamento de 2020 foi diferente e, na minha opinião, muito melhor do que em 2016, embora ainda insuficiente para dar conta das notícias falsas.”

O canal Fox News, também logo após o dia da votação, declarou o estado do Arizona para Biden, no que foi visto como precipitação até por veículos tradicionais, como a CNN. O efeito, como no caso do Facebook, foi que o republicano derrotado Donald Trump e seus seguidores ameaçaram se afastar do canal.

“A Fox News foi um dos maiores perdedores da eleição”, diz o publicitário e analista político Alexandre Borges.

“Aos olhos do público conservador, a emissora passou a mimetizar parte da linha editorial dos concorrentes, o que foi devastador para a sua credibilidade”, acrescentou.

O canal procurou manter a posição e não só repórteres, mas também alguns de seus âncoras de opinião se opuseram à resistência de Trump em aceitar sua derrota.

Tucker Carlson e Laura Ingraham —e até o histórico radialista Rush Limbaugh, que não é da Fox— questionaram a falta de provas das supostas fraudes e reconheceram a vitória de Biden.

Eles estimularam Trump a fazê-lo também e, assim que o republicano deu os primeiros sinais de admitir a

saída do poder, reaproximaram-se do discurso trumpista.

Nos dois episódios, surgiram supostos concorrentes pela direita. No caso do Facebook, a plataforma Parler se ofereceu publicamente em entrevistas do CEO, John Matze.

“Esse tipo de coisa secreta do Facebook com o algoritmo é orwelliano”, disse ele à Fox News, sobre a mudança que privilegiou NYT e CNN. “O Parler acredita que as pessoas devem determinar por si mesmas o que gostariam de acompanhar. Aqui elas podem escolher com o que vão se engajar.”

No caso da Fox News, os canais Newsmax e OAN também se pronunciaram, sobretudo o primeiro, em entrevistas do CEO Chris Ruddy. “Eles são esquizofrênicos”, disse ele ao site Mediaite, sobre a diferença entre os programas de opinião e noticiosos da Fox News. “De um lado, totalmente devotados a Trump. De outro, altamente críticos a ele.”

Nem a rede social Parler nem os dois canais podem ser vistos ainda como concorrentes de fato, mas a Fox News tratou de se defender junto ao seu público.

Seus âncoras pró-Trump evidenciaram que continuam no canal, não o seguiriam às cegas e com contratos menores.

No Facebook ou no Parler, vendo Fox News ou Newsmax, o certo é que Trump não sai da Presidência tão fraco. Com 74 milhões de votos após meses de avaliações negativas devido à sua condução da pandemia de Covid-19, o presidente tem um capital de audiência para lançar algo novo ou pressionar o velho. Facebook e Fox News não têm como prescindir dele.

“Trump e o Partido Republicano mostraram força substantiva”, diz Dennys Xavier, da Universidade Federal de Uberlândia e do Instituto Mises. “E esse público obviamente continuará a demandar seu espaço nas redes já estabelecidas.”

Um movimento em falso pode causar migração agressiva, acrescenta. “Duvido muito que se avance com uma asfixia das pautas e mídias conservadoras. Por visão pragmática de mercado.”

Lins da Silva concorda. “Trump teve uma votação impressionante, praticamente metade dos eleitores. É um potencial muito grande para o canal dele ou para o Parler.”

Borges também. “Como é evidentemente impossível calar metade do país, sempre haverá espaço a veículos para o público americano tradicionalmente identificado com valores mais conservadores.”

Ainda é cedo para saber o que muda, diz ele, mas os serviços gratuitos das redes sociais “mostraram seu maior custo: um controle cada vez mais autoritário sobre o conteúdo”.

É a visão também na esquerda, que abriu campanha, como é o caso de Matt Taibbi, maior estrela da plataforma de jornalismo independente Substack, contra a censura.


A mídia americana sob Trump


Facebook 

Maior rede social do mundo (2,7 bilhões de usuários), é alvo de polêmicas devido à circulação de desinformação e anúncios políticos

Twitter 

Um dos principais canais de comunicação de políticos e jornalistas. A rede tem 340 milhões de usuários e recebe críticas similares às direcionadas ao Facebook

Parler 

Usada por adeptos de teorias da conspiração (como a QAnon) e conservadores, a rede social ganhou espaço após Twitter e Facebook adotarem políticas de conteúdo mais rígidas

The New York Times 

O prestigiado jornal tem orientação editorial progressista. Sob Trump, adotou tom muito crítico ao presidente

Fox News

A emissora conservadora se destacou pela defesa de Trump e pelo espaço dado ao presidente e seus aliados, inclusive para a divulgação de fake news

CNN 

Canal recebeu críticas durante a pré-campanha republicana de 2016 por dar mais espaço a Trump do que aos seus adversários

Breitbart

Site apoiou Trump e é conhecido por promover nacionalismo branco. Entre 2012 e 2018, foi liderado por Steve Bannon

Drudge Report 

O agregador de notícias tinha perfil conservador e populista. Em 2019, passou a dar espaço a críticas ao governo Trump

Newsmax 

A plataforma conservadora e de baixa audiência publicou várias teorias da conspiração sobre a eleição, além de alegações de fraude eleitoral

AON 

A TV de ultradireita é frequentemente promovida pelo presidente. Publicou reportagem infundada sobre fraude eleitoral que foi compartilhada por Trump

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