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Na corrida final para as eleições nos EUA, a Covid-19 está em disparada

O número de casos de coronavírus continua a bater recordes —entre outras coisas, cinco assessores do vice-presidente Mike Pence foram identificados em exames como portadores da doença. O número de hospitalizações, que acompanha com atraso o de casos, está disparando. E o de mortes, que segue o de contágios com atraso ainda maior, também está começando a subir. Podemos resumir assim: daqui até o dia da eleição [3 de novembro], é provável que percamos duas vezes mais vidas americanas para a Covid-19 do que perdemos em 11 de setembro de 2001.

E como o governo Trump está respondendo? Aparentemente, fazer qualquer coisa quanto à pandemia não é uma possiblidade. O que estamos vendo, em lugar disso, é uma estratégia de relações públicas em múltiplos níveis: Estamos fazendo um ótimo trabalho. De qualquer jeito, não há o que alguém possa fazer. E além disso, os médicos estão falsificando os números para que possam ganhar mais dinheiro.

É evidente que essas linhas de argumentação são incompatíveis, e a difamação dos trabalhadores de saúde, que arriscam suas vidas para salvar as dos outros, é pura vileza. Mas nada disso deveria nos surpreender.

Estamos falando de Donald Trump, afinal. E além disso, já vimos essa combinação de negação, de declarações de impotência e de teorias da conspiração, no passado. Trump e companhia estão seguindo com relação à Covid-19 a mesma estratégia que a direita adotou há muito tempo com relação à mudança do clima.

A esta altura, quase todo mundo está familiarizado com o modo pelo qual Trump altera seus marcos a fim de afirmar sucesso não importa o quanto a situação esteja piorando. Em fevereiro, ele previu que “dentro de poucos dias” teríamos zero caso. No segundo trimestre, disse que a doença desapareceria quando o tempo esquentasse. Recentemente, ele vem declarando triunfo porque o coronavírus não matou 2,2 milhões de pessoas.

O governo demorou mais a admitir que estava se rendendo abjetamente à Covid-19. Mas já em agosto, o médico Scott Atlas —que acredita em “imunidade de rebanho”— basicamente, permitir que o vírus infecte a maior parte da comunidade —se tornou parte do grupo de trabalho da Casa Branca sobre o coronavírus.

Atlas é radiologista e não tem qualquer conhecimento especializado em doenças infecciosas, e epidemiologistas profissionais, como Anthony Fauci, encaram suas ideias com horror. Mas parece que é Atlas, e não Fauci, que toma as decisões, hoje em dia.

E no domingo (25), Mark Meadows, o chefe de gabinete de Trump, mais ou menos oficializou a postura do governo, afirmando que “não vamos controlar a pandemia” porque se trata de “um vírus contagioso”.

Isso veio depois de um comício no qual Trump —que se considera uma vítima porque a mídia não para de falar de “Covid, Covid, Covid”— declarou que o número de vítimas fatais do coronavírus estava sendo exagerado porque “os médicos recebem mais dinheiro e os hospitais recebem mais dinheiro” se eles afirmarem que a Covid-19 foi a causa da morte.

Todas essas desculpas parecem muito familiares para qualquer pessoa que tenha acompanhado o debate sobre a mudança do clima nos últimos anos. De acordo com a direita, não está acontecendo uma mudança no clima. De qualquer forma, não há o que possamos fazer a respeito sem destruir a economia.

E tudo não passa de uma trapaça tramada por uma conspiração mundial de cientistas, que só querem saber de dinheiro.

Esse último argumento é, evidentemente, uma projeção. Não, o consenso científico esmagador quanto ao fato de que estamos vivendo um período de aquecimento causado pelas atividades humanas não está sendo propelido por incentivos financeiros —mas as pessoas que rejeitam esse consenso com certeza estão.

A esta altura, a negação da mudança do clima vem sendo sustentada basicamente por uma rede de organizações de pesquisa direitistas sustentadas por interesses associados aos combustíveis fósseis; ou seja, os “especialistas” que afirmam ou que o aquecimento global não está acontecendo ou que nada pode ser feito quanto a ele são basicamente profissionais da negação, que ganham a vida como “mercadores de dúvida”.

E a negação da Covid, ao que parece, não é só um fenômeno semelhante: ela vem sendo conduzida basicamente pelas mesmas pessoas.

Atlas e outros funcionários do governo aparentemente foram muito influenciados pela Great Barrington Declaration, um manifesto em defesa da imunidade de rebanho que surgiu de uma reunião no American Institute for Economic Research. O que sabemos sobre esse instituto?

Bem, não surpreende que ele esteja ligado ao Charles Koch Institute. E basta dar uma olhada em seu site para perceber que até recentemente, a organização dedicava boa parte de seu tempo a negar a mudança no clima, publicando artigos com títulos como “os brasileiros deveriam continuar desmatando a selva amazônica”.

Mais recentemente, porém, o foco do instituto se voltou à negação da Covid. No mês passado, por exemplo, a organização publicou um artigo que elogiava a governadora Kristi Noem, da Dakota do Sul, cuja recusa em agir contra o coronavírus fez de seu estado o que o artigo define como “uma fortaleza de liberdade e esperança protegida contra a influência de políticos autoritários”.

De lá para cá, é claro, a Dakota do Sul experimentou uma explosão de infecções e uma disparada nas hospitalizações, e agora está registrando uma ascensão rápida no número de mortes por Covid-19.

Houve chance algum dia de que o governo Trump encarasse a pandemia com seriedade? Provavelmente não. Afinal, ele sempre foi um negador radical da mudança do clima, proponente de teorias da conspiração, e sua resposta ao coronavírus veio diretamente do manual empregado por aqueles que negam a mudança do clima.

De qualquer forma, podemos prever com grande precisão o que Trump fará se as pesquisas de opinião pública estiverem erradas e ele vier a conquistar um segundo mandato. O presidente nada fará para enfrentar a pandemia; mas tentará acobertar a verdade sobre o que está acontecendo. E muito mais americanos morrerão.

The New York Times, tradução de Paulo Migliacci

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