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Eleitor negro pode fazer Biden virar estado que democratas não ganham há 30 anos

Domingo costuma votar em republicanos. Defende ideias conservadoras e é cético quanto a políticas públicas mais inclusivas.

A exceção foi Barack Obama. Em 2008 e 2012, o motorista hoje com 46 anos votou em um homem negro, assim como ele, ladeado por propostas que considerava realistas num país tão desigual como os EUA.

Em 2016, impulsionado pelo discurso em defesa da ampliação do direito à posse de armas, preferiu Donald Trump, mas agora se diz decepcionado. “Ao mesmo tempo em que fez coisas certas e aplicou políticas com as quais concordo, Trump tomou várias medidas horríveis para dividir o país”, afirma.

“As palavras têm poder, e o presidente não percebe que elas são como balas: depois que você atira, não tem como pegá-las de volta.”

Morador de Atlanta, capital da Geórgia, Domingo não aprova a condução agressiva do presidente diante dos protestos antirracismo que tomaram o país desde o assassinato de George Floyd, em maio.

Ele lembra que o republicano chamou manifestantes de “bandidos”, “vândalos” e “animais” e defendeu a repressão violenta de atos pacíficos. “O estrago causado pelo discurso de Trump foi significativo.”

Líder nas pesquisas nacionais, Joe Biden aposta no impacto da retórica racista e divisionista de Trump para motivar eleitores negros, como Domingo, e vencer na Geórgia, estado que há 28 anos não elege um democrata à Casa Branca.

Com 10,6 milhões de habitantes, 32,6% dos quais negros, a Geórgia virou um dos principais campos de batalha entre Trump e Biden, uma arena simbólica do peso que a questão racial tem na disputa deste ano.

Em 2016, o republicano venceu Hillary Clinton por cinco pontos percentuais no estado, ancorado nos eleitores brancos espalhados pelo norte e sul da região. A democrata, por sua vez, ganhou nas grandes cidades e seus subúrbios, como Atlanta, cada vez mais diversos e menos conservadores.

O resultado no reduto tradicionalmente republicano surpreendeu democratas, mas o comparecimento de eleitores negros às urnas —que não se motivaram a votar em Hillary, já que o voto não é obrigatório nos EUA— ficou bem aquém do esperado.

Em 2016, o voto dos negros na Geórgia caiu 8,5% ante 2012, quando Obama era o candidato. Mas há dois anos a democrata Stacey Abrams perdeu o governo do estado por apenas 1,4 ponto percentual, na disputa mais acirrada em 24 anos, e o partido de Biden renovou as esperanças na região.

Hoje a corrida na Geórgia —com seus 16 votos no Colégio Eleitoral— é uma das mais competitivas do país. Segundo o site Five Thirty Eight, que compila as principais pesquisas de intenção de voto nos EUA, Biden tem 47,8% ante 46,6% de Trump no estado.

Para consolidar a dianteira, o democrata precisa mobilizar eleitores negros e jovens em número maior do que Hillary conseguiu em 2016, principalmente na região metropolitana de Atlanta —que representa quase metade dos votos do estado e tem se diversificado ao receber imigrantes e americanos mais progressistas.

Biden tem que atuar em duas frentes: cristalizar a vantagem nos condados ao redor da capital, em que Hillary venceu com 70% ou 80%, como em DeKalb, que tem 55% da população negra, mas também ampliar a diferença para Trump em regiões de maioria branca, como Cobb, onde o resultado foi mais apertado —47,9% a 45,8% para Hillary.

Entre jovens e negros que votarão pela primeira vez neste ano, o sentimento anti-Trump é bem maior que o pró-Biden. Enquanto almoçavam nos gramados da praça central de Decatur, sede do condado de DeKalb, os estudantes Bradon Ery e Ashley Toliver reclamavam da agressividade do presidente.

Aos 21 anos, os estreantes nas urnas dizem não conhecer as políticas de Biden com detalhes, mas querem Trump fora do cargo. “Tenho duas opções, e Trump é bem pouco profissional”, diz Brandon.

“Biden imprime um pouco mais de respeito. Se Trump vai fazer porcaria, que ao menos fizesse de um jeito mais respeitoso. Mas não, ele diz na nossa cara: ‘Isso é o que vou fazer e não me importo em como você se sente’.”

Ashley acompanha o diagnóstico feito pelo amigo e sabe que Biden conta com eleitores como eles para virar o jogo na Geórgia —e em grande parte do país. “Biden aposta em jovens e negros, e também acho que vai ser bom ter uma vice-presidente mulher e negra pela primeira vez”, explica a jovem, em referência à senadora Kamala Harris, companheira de chapa de Biden.

Mas o sentimento anti-Trump não motiva a todos. Também moradora de Decatur, a empresária Alexandria Edwards, 30, aproveitava o sol quente que fazia na terça-feira (6) para trabalhar em uma mesa do lado de fora de seu escritório, mas diz que nada vai tirá-la de casa em 3 de novembro.

“Biden foca a população negra de um jeito errado. Não tem ajudado realmente nossa comunidade. Mira cantores, rappers, pessoas negras famosas para passar a ideia de que está envolvido com a gente, mas não está. Não acho que temos bons candidatos neste momento. Não vou votar.”

A postura da empresária é a grande preocupação da campanha de Biden e de eleitores negros democratas mais experientes, traumatizados com a falta de mobilização às urnas que custou a derrota a Hillary.

O eletricista Robby Evans é um dos que afirmam acreditar que o ex-vice-presidente não pode apostar todas as fichas nos jovens negros que, no fim, talvez não se animem a votar. Aos 46 anos, diz que o perfil de eleitores arrependidos, como o do motorista Domingo, é uma chave importante nos arredores de Atlanta.

“São aqueles com remorso, que votaram em Trump e agora falam: ‘Meu deus, isso não é o que escolhi’.”

A cerca de 30 km de onde Evans trabalha na capital, a cidade de Marietta abriga alguns desses arrependidos. Ali, o cenário demográfico é bem diferente do observado em Atlanta, onde 51% dos 500 mil habitantes são negros.

Entre as 60 mil pessoas que vivem em Marietta, 60% são brancas, assim como o piloto Jim Smith, 38, e a aposentada Anne, 76. Os dois votaram em Trump em 2016, mas só Anne vai manter o apoio neste ano.

“Trump é esse tipo de pessoa [transgressora], acho que poderia usar máscara mais vezes, mas não vejo nada de errado no que está fazendo.”

O piloto, por sua vez, diz que a postura do presidente diante da pandemia não está entre as razões que o levaram a desistir do voto no republicano. “Minhas considerações são mais sobre economia e questões sociais. Minha vida não melhorou nos últimos quatro anos.”

Sobre Biden, Smith afirma que o democrata é “um cara legal”, mas ainda não sabe se o desapontamento com Trump vai gerar um voto no ex-vice de Obama. “Não diria que não gosto de Biden. Mas concordo com ele? Não sei.”

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