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Bolívia volta às urnas para tentar encerrar ciclo eleitoral longo, instável e violento

A dois dias de completar um ano desde a eleição presidencial de 2019, os bolivianos voltam às urnas neste domingo (18) para tentar colocar um fim a este longo, violento e instável processo de sucessão.

O cenário, claro, é indefinido. A dificuldade para realizar pesquisas confiáveis, que alcancem todos os cantos do país —a maioria é realizada por telefone, devido ao penoso acesso às regiões andina e amazônica—, faz com que a Bolívia não costume ter projeções eleitorais precisas.

Grande parte dos institutos sugere que o resultado da votação levará a um segundo turno entre o candidato do MAS (Movimento ao Socialismo), Luis Arce, ex-ministro da economia de Evo Morales, e seu principal rival, o ex-presidente Carlos Mesa.

Os levantamentos, por outro lado, não descartam a possibilidade de Arce ganhar já no primeiro turno. Se houver um segundo embate, em 29 de novembro, no entanto, a maioria das pesquisas indica que as chances de vitória de Mesa são maiores.

“Trabalhamos muito para que essa eleição seja transparente e incontestável. Já estão no país os observadores internacionais da OEA [Organização dos Estados Americanos], da União Europeia, do Centro Carter e das Nações Unidas”, diz à Folha a chanceler boliviana, Karen Longaric.

“Não vieram na quantidade que desejávamos, devido à pandemia, para cobrir as regiões mais afastadas, mas é um grupo extremamente técnico, capaz de legitimar o resultado de modo rápido.”

A divulgação ágil do resultado é essencial para dar credibilidade ao processo e manter as ruas pacíficas.

Nada disso ocorreu em 2019. Primeiro, o hoje ex-presidente Evo concorria de modo controverso a um quarto mandato, contra o que diz a Constituição boliviana e contra um referendo popular que ignorou.

Segundo, depois de as urnas serem fechadas, a contagem rápida dos votos foi suspensa no momento em que a apuração, em 80% do total, apontava para um segundo turno entre Evo e Mesa. O órgão eleitoral só voltou a contar no dia seguinte, com outro método, que deu vitória em primeiro turno ao então presidente.

A tensão logo tomou conta das ruas. Opositores do MAS apontavam fraude, enquanto militantes e apoiadores do partido defendiam que Evo havia vencido. A violência deu o tom das semanas seguintes, e os confrontos entre militares e manifestantes pró-Evo deixaram mais de 30 mortos.

Em 10 de novembro, o líder indígena, pressionado por protestos populares e pelas Forças Armadas, renunciou, assim como o vice, Álvaro García Linera, e a presidente do Senado, Adriana Salvatierra, os dois próximos na linha sucessória do país.

Evo e Linera partiram para o exílio, primeiro no México e, depois, na Argentina, onde vivem até hoje.

Após uma manobra controversa, o Congresso pôs na Presidência, interinamente, a segunda vice-presidente do Senado, Jeanine Añez, que assumiu o cargo segurando uma Bíblia e colocando o Exército nas ruas. Prometia ficar apenas alguns meses, segundo ela, para garantir a sucessão eleitoral.

Um novo tribunal eleitoral foi escolhido, e as eleições, marcadas para maio. A pandemia de coronavírus, porém, adiou o plano duas vezes, levando o pleito para setembro e, depois, para este domingo.

Añez não cumpriu o prometido. Candidatou-se, o que fez com que as críticas à sua gestão, especialmente durante a crise sanitária, aumentassem. Nomes de diversas cores do espectro político condenaram as medidas adotadas para tentar conter a disseminação da Covid-19 e apontaram escândalos de corrupção.

Sem tração nas pesquisas, entretanto, Añez desistiu da candidatura em 18 de setembro. Foi seguida por outro membro da direita boliviana, o ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga. Ainda que o discurso para justificar as desistências tenha sido o de impedir a volta do MAS à Presidência, ambos não declararam apoio aberto a Mesa, distante ideologicamente e em segundo lugar nas pesquisas.

Outro efeito colateral das saídas de Añez e Quiroga foi o fortalecimento do ultradireitista Luis Fernando Camacho, em terceiro lugar nas sondagens. Figura central na queda de Evo, ele concentra o voto do setor empresarial e conservador de Santa Cruz de la Sierra e reúne pouco menos de 15% das intenções de voto, o que o coloca como um peso decisivo num eventual segundo turno.

“O que vamos ver no próximo domingo é o começo do fim do ciclo que se abriu em 2016, quando houve um referendo em que a população decidiu que não queria Morales disputando um novo mandato”, diz à Folha o analista político Pablo Stefanoni.

Assim, diz ele, desde o momento em que a população se deu conta de que Evo buscaria outro meio para se reeleger, contrariando a consulta popular, os ânimos se acirraram. “Começou uma polarização que foi se radicalizando até chegar à violência nas ruas em 2019. Até então, havia uma certa harmonia política.”

Para Stefanoni, olhar para 2014, quando Evo se reelegeu com mais de 60% dos votos, conquistando até o empresariado de Santa Cruz, que havia feito oposição a ele, deixa claro que o ponto de virada ocorreu dois anos mais tarde. “Em 2016 Evo mostrou que queria se eternizar no poder, e a sociedade não engoliu.”

Para conseguir se candidatar outra vez, o ex-presidente argumentou que negar-lhe a possibilidade de disputar a Presidência era contrariar um direito humano. O Tribunal Eleitoral à época aceitou o argumento.

Em um processo tão conturbado e eclipsado por uma figura que passou quase 14 anos no poder, o atual líder nas pesquisas passa quase despercebido. No evento de encerramento da campanha, na noite de quarta (14), Arce, um homem calmo, sem pinta de orador para grandes multidões, tentou mostrar um lado mais “cool”. Exibiu-se jogando basquete e até fazendo propaganda pelo aplicativo TikTok.

Em El Alto, na região metropolitana de La Paz, cuja população é, em sua maioria, de trabalhadores, apareceu vestido com uma jaqueta descolada, com a estampa de Tupac Kapari —herói aimara das lutas contra os espanhóis no século 18— e com seu apelido, “Lucho”, nas costas. Ao lado do vice em sua chapa, David Choquehuanca, dançou para uma multidão.

Nas últimas semanas, o ex-ministro da Economia reagiu a uma certa divisão que há no MAS e se descolou da figura do ex-presidente. Defendeu a liberdade de expressão logo depois de Evo sugerir um aumento de controle da imprensa e se mostrou mais disposto ao diálogo com a oposição.

“Evo tinha um plano que não deu certo. A ideia era que, da Argentina, ele mobilizasse muita gente, que o país entrasse em tal convulsão que ele tivesse que voltar”, diz Stefanoni. “Só que agora, com ele, está apenas o núcleo mais extremo do MAS. Há uma boa parte dos atuais parlamentares que está no caminho da moderação, assim como Arce.”

Já Mesa se apresenta como a opção mais viável para derrotar o partido de Evo. Ainda convive, no entanto, com a imagem de presidente que, em 2005, teve de renunciar porque não aguentou a pressão de sindicalistas do setor de gás de El Alto que pediam a nacionalização dos recursos naturais.

Em seu evento final de campanha, foi a Santa Cruz, cidade que concentra a oposição ao MAS e é reduto de Camacho, para tentar convencer o eleitorado de que o voto útil deve ser dado agora, e não no segundo turno. Embora seja muito articulado, Mesa acabou cometendo gafes e se viu num momento embaraçoso quando gritou, em inglês: “Evo Morales never in the life”.

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