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Trump e escândalo andam de mãos dadas

DonaldTrump e escândalo andam de mãos dadas, mas será esta a última gota de tolerância para um líder tão inepto?

Embora muitos nos Estados Unidos pensem assim, a história do autoritarismo e do fascismo nos mostra que é duvidoso que isso ocorra.

Vamos dar uma breve olhada nos últimos escândalos.

O New York Times acaba de demonstrar suas mentiras sobre sua situação financeira, que, ao contrário do mito de Trump como bilionário, nos mostra endividamento, conflito de interesses e a potencial ilegalidade de suas estratégias e situação fiscal. Em resumo, por trás da propaganda está uma verdade que o afunda.

O mesmo acontece com o penúltimo escândalo: em diálogos registrados com o famoso jornalista Bob Woodward no início de fevereiro, Trump admitiu que o vírus era de fato “mortal”. Como é de conhecimento público, ele negou a seriedade do vírus, falou de uma “conspiração chinesa” e prometeu resultados milagrosos.

Os efeitos desse contraste entre realidade e fantasia: os Estados Unidos têm o maior número de infectados e mortos do mundo –6 milhões de casos e quase 200 mil mortos.

Em países como o Brasil e a Índia ocorreu essa discórdia entre evidência e propaganda e isso não implicou em um problema para seus líderes. De fato, no Brasil, o líder Jair Messias Bolsonaro aumentou o número da sua popularidade, apesar de seu tratamento fracassado da crise.

Em tempos normais, essas coisas deveriam ser tóxicas para um político, mas nós não vivemos em tempos normais. Ao contrário, o presente se assemelha a um passado onde a conspiração, a paranoia e a necessidade de uma personalidade autoritária para nos governar eram moeda comum.

Em outras palavras, parece que voltamos aos tempos do fascismo, nos quais o ditador era considerado o dono da verdade, um mito vivo que poderia dizer qualquer coisa e ser acreditado.

Woodward fez parte da dupla que descobriu o escândalo de Watergate, e o presidente Richard Nixon teve que renunciar à Presidência, mas nada disso acontecerá nessas semanas. Inclusive, Trump prossegue com boas chances de ser reeleito.

Como se sabe, nestes últimos meses, Trump apostou em uma mistura de xenofobia, racismo, promoção da violência e repressão, e negação sobre o vírus.

Assim, ele vinculou, como solução para a doença, a construção de seu muro antimigrante e a ideia racista de um “vírus chinês” com suas promessas vazias de que tudo ficaria bem.

Para seus crentes, Trump pede fé em sua liderança. À evidência da mídia e de suas próprias ações, o presidente responde que elas são “fake news”.

Enquanto para muitos estadunidenses essas mentiras reveladas por Woodward e pelo New York Times são mais sérias do que as anteriores, para os trumpistas elas não são mentiras capitais (fontes e sintomas de outros pecados), mas, na pior das hipóteses, mentiras benignas que os protegem.

Essa foi exatamente a explicação que Trump deu nesses dias para suas mentiras, e o fez no contexto de uma base de seguidores preparada no terreno da paranoia totalitária.

Vamos pensar em um botão de amostra. Nos últimos quatro anos, houve um aumento no número de republicanos e trumpistas que acreditam em uma teoria de conspiração com inspirações fascistas e antissemitas: QAnon.

Como aponta o Washington Post, os crentes nessa fantasia pensam que Donald Trump está envolvido em uma guerra secreta “contra um grupo de canibais-pedófilos satânicos do Partido Democrata, de Hollywood e das finanças globais”.

Eles acreditam que esse grupo é responsável por todos os problemas do mundo, mas que Trump logo ordenará as prisões e execuções em massa de adversários políticos como Hillary Clinton e Barack Obama, em uma limpeza maciça chamada “A Tempestade”.

Os que creem na QAnon baseiam essa ideia em pistas de ‘Q’, uma figura anônima que tem publicado em fóruns de mensagens online desde 2017 que os fanáticos da QAnon acreditam ser uma figura de alto nível da administração Trump, “ou talvez o próprio Trump”.

Em atos de apoio ao presidente e contra máscaras faciais e quarentenas, os trumpistas e qanonistas apareceram em todos os lugares.

Uma dúzia de candidatos republicanos ao Congresso adere à QAnon e, apesar de o próprio FBI considerá-la uma potencial “ameaça terrorista nacional”, já que seus seguidores cometeram assassinatos e outros atos de violência que aumentaram com a crise da Covid-19, o próprio Trump já fez mais de 200 retweets de apoiadores da QAnon. E, quando foi questionado sobre seus seguidores, disse: “Ouvi dizer que essas são pessoas que amam o nosso país”.

Em uma entrevista coletiva na Casa Branca, ele sustentou que “realmente não sei nada além do fato de que eles supostamente gostam de mim”.

Com relação à teoria em si, que expõe o lugar central de Trump na luta contra um grupo de pedófilos e democratas, o presidente disse “se supõe que isso é algo ruim ou uma coisa boa?”, respondendo a um repórter que lhe perguntou se ele poderia apoiar essa teoria.

“Se posso ajudar a salvar o mundo de problemas, estou disposto a fazer isso. Estou disposto a me expor”, acrescentou Trump.

Nesse contexto, pensemos sobre a ineficácia dos escândalos recentes e por que não calaram profundamente em seus apoiadores mais fanáticos e também os moderados que toleram fazer parte de seu movimento.

Na verdade, o fato de Trump admitir em fevereiro uma realidade empírica não significa que o líder não acredite em suas mentiras nem sacrifique sua segurança por elas. O mesmo vale para a justificativa de sua apresentação como bilionário, quando ele parece estar à beira do colapso financeiro.

Apesar de admitir a seriedade da transmissão aérea do vírus, Trump se recusou e continua se recusando a usar uma máscara em público para se proteger. Apesar das denúncias contra ele, Trump não diminuirá o conflito de interesses.

A evidência de um Trump manipulador cuja hipocrisia elimina a crença na realidade não deveria nos confundir. Trump não é um ditador fascista, mas opera com os mesmos padrões que caracterizaram os líderes do fascismo: incentivando a paranoia e a corrupção, e até mesmo liderando-os.

www.latinoamerica21.com, um projeto pluralista que dissemina diferentes visões da América Latina.

Tradução de Maria Isabel Santos Lima

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