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Na Coreia do Sul, a Covid-19 vem acompanhada do risco de bullying na internet

O escândalo que empolgou os bisbilhoteiros online da Coreia do Sul começou quando Kim Ji-seon, aos 29 anos, se hospedou em um apartamento à beira-mar em fevereiro. Funcionária de escritório, Kim tinha casamento marcado para junho. Seus planos no apartamento não incluíam nada mais ousado do que um encontro com membros de sua igreja para organizar um programa para jovens.

Então Kim recebeu diagnóstico de Covid-19 e, de repente, os detalhes de sua vida começaram a alimentar a crescente cultura sul-coreana de cyberbullying e desinformação, um fenômeno que vem complicando o elogiado esforço digital do país para rastrear pessoas contaminadas pelo vírus.

Utilizando ferramentas digitais complexas, as autoridades sul-coreanas revelaram publicamente a idade de Kim, seu gênero, o nome de sua igreja e seu paradeiro recente. A partir dessas informações, trolls online a acusaram de fazer parte de uma seita religiosa. Compararam o itinerário dela com o de outro fiel da igreja que também fora contaminado e concluíram que ela estava traindo seu noivo.

“Fiquei pasma”, disse Kim, agora com 30 anos. “Como eles têm coragem de zombar de pessoas que estão lutando para sobreviver? Mas eu, deitada num leito de hospital com sonda enfiada no meu braço, não tinha como fazer qualquer coisa a respeito.”

Governos em todo o mundo lutam contra desinformação e mentiras deslavadas em torno do coronavírus. Na Coreia do Sul, essa luta ganha contornos singularmente pessoais.

O país deve muito de seu relativo êxito em localizar pessoas infectadas com o vírus ao uso agressivo de imagens de câmeras de vigilância, dados de smartphones e registros de transações pagas com cartões de crédito.

Mas esse esforço também empoderou trolls, assediadores e outros exemplos de flagelos do século 21. Mais recentemente, as autoridades deixaram de utilizar algumas das táticas mais indiscretas, apesar de relativamente poucos sul-coreanos terem protestado em defesa de sua privacidade.

“Acho que isto não reflete uma falta de respeito pela privacidade na Coreia do Sul”, comentou Park Kyung-sin, professor da Escola de Direito da Universidade da Coreia e especialista em privacidade. “O que ocorre é mais que as pessoas parecem pensar que em um tempo de pandemia, é permissível sacrificar a privacidade em nome da saúde pública.”

Algumas pessoas pagaram um preço por isso; é o caso de Kim. Assediadores online a tacharam de “papa-anjo”, sugerindo que ela teria usado sexo para tentar converter um homem mais jovem. Outros disseram que, se ela engravidasse, o bebê deveria ser submetido a teste de paternidade. Autoridades da cidade de Busan desmentiram as especulações, mas elas continuaram a se espalhar online.

Depois de receber alta do hospital, Kim registrou queixas contra um grande portal da web, pedindo que os conteúdos falsos fossem tirados do ar. Mas, depois de tentar perseguir dezenas de blogs, ela desistiu. “Eram blogs demais”, ela disse.

A luta global contra a pandemia vem levantando preocupações de privacidade em diversos países. Vários governos, incluindo os da Itália, Israel e Singapura, têm usado dados de celulares para rastrear pessoas potencialmente infectadas e seus contatos. A China emprega aplicativos de celular e é pouco transparente sobre como os utiliza para rastrear pessoas. A Venezuela incentiva as delações entre vizinhos.

País intensamente conectado onde praticamente todas as pessoas têm smartphone, a Coreia do Sul levou esses esforços um pouco mais longe. Além de tornar públicos alguns dados privados, as autoridades às vezes usam essas informações para enviar mensagens de texto a pessoas cujo histórico de dados de celular indica que estavam nas proximidades de uma pessoa infectada.

Tirando a China, a Coreia do Sul é praticamente o único país do mundo cujo governo tem o poder de coletar tais dados livremente durante uma pandemia, segundo Park.

Nos primeiros meses desesperados da pandemia, sites do governo registraram um esboço detalhado da vida diária de cada paciente até ele ou ela o diagnóstico e isolamento. O governo não divulgou os nomes dos pacientes, mas em alguns casos deixou vazar dados que revelariam sua identidade, tais como seus endereços e os de seus empregadores.

Esse fluxo de dados alimentou uma cultura crescente de assédio online. O doxxing –a prática de procurar e expor informações pessoais prejudiciais online— já era um problema crescente na Coreia do Sul, citado com frequência nos suicídios recentes de estrelas do cenário k-pop.

Restaurantes frequentados por pacientes foram tratados como se fossem amaldiçoados. Citando o fato de uma paciente frequentar salões de karaokê, trolls online alegaram que ela devia ser prostituta. Gays sul-coreanos começaram a ter medo de serem expostos contra sua vontade, levando o governo a lhes prometer anonimato nos testes após um surto de coronavírus em um clube gay de Seul, em maio.

Em muitos casos o assédio foi persistente. Os rumores infundados sobre Kim Ji-seon e sua congregação emergiram em fevereiro, mas continuam a circular até hoje. Kim Don-hyun, o fiel falsamente acusado por trolls de ter um relacionamento com ela, disse que recentemente alguém perguntou à sua namorada sobre o “infame homem imoral” de sua igreja.

Com o aumento dos relatos de violações de privacidade, o governo recuou, deixando de divulgar algumas informações.

O governo deixou de revelar a idade, o sexo, nacionalidade ou local de trabalho de um paciente. Tampouco divulga os nomes de lugares visitados recentemente pelo paciente, desde que todos com quem o paciente teve contato já tenham sido identificados. Qualquer informação que tenha sido divulgada agora é removida das vistas públicas após duas semanas.

Com o ressurgimento do vírus nos últimos meses, as autoridades passaram a reprimir a difusão de desinformação e o vazamentos de dados pessoais, tendo interrogado 202 pessoas por atividades criminais relacionadas.

Uma delas foi um homem que alegou no YouTube no mês passado que as autoridades sanitárias estavam manipulando resultados de testes de modo a conservar críticos do governo em quarentena. Também foram interrogadas seis pessoas que circularam boatos de que um paciente teria visitado lugares na zona sul de Seul onde ele não havia ido.

Mas as autoridades ainda estão tentando equilibrar privacidade com segurança. A polícia pediu o indiciamento de 13 acusados de divulgar informações falsas, incluindo várias pessoas que mentiram a investigadores epidemiológicos sobre sua saúde ou os lugares onde estiveram enquanto estavam potencialmente portando o vírus.

A humilhação pública vem se mostrando eficaz. Segundo pesquisas da Escola de Saúde Pública da Universidade Nacional de Seul, muitos sul-coreanos temem a estigmatização mais do que o coronavírus. As pessoas prestaram atenção: uma pesquisa feita em maio mostrou que seis em cada dez pessoas checaram dados de pacientes em sites do governo e que a imensa maioria delas disse que isso foi útil.

Mesmo Kim Dong-hyun e seus amigos disseram entender por que a informação precisava ser coletada e divulgada. Mas eles também falaram do ônus social enfrentado pelos contaminados pelo vírus. Kim Dong-hyun disse que o governo fechou seu local de trabalho temporariamente depois de ele ter testado positivo e que seus colegas de trabalho tiveram que ficar em quarentena.

O sentimento de culpa por conta disso, ele comentou, “foi mais difícil de suportar do que a dor corporal provocada pela Covid-19”.

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