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Fogo no Brasil, silêncio em Paris

“A nossa casa queima”, escandalizava-se Emmanuel Macron nas redes sociais um ano atrás. O estardalhaço do presidente francês deflagrou o primeiro grande embate diplomático do governo Jair Bolsonaro.

Seguiram-se algumas semanas de cotoveladas bilaterais. Com um ataque misógino a Brigitte Macron, Paulo Guedes garantiu o seu lugar de honra no time dos boçais da Esplanada.

Todos ansiavam por um segundo round. Emmanuel Macron colocou em Brasília Brigitte Collet, uma diplomata especialista em assuntos ambientais, e o Itamaraty de Ernesto Araújo multiplicou as provocações contra a França nos salões das embaixadas e dos fóruns internacionais.

Agora, o Pantanal vira cinzas, e Macron silencia. A França fez pouco mais do que organizar umas reuniões discretas com parceiros locais e organizar o centésimo funeral do acordo entre a União Europeia e o Mercosul.

A explicação óbvia para o silêncio é a pandemia, que obrigou os governantes a olharem para dentro. Mas outras variáveis, bem mais mesquinhas, também explicam o sumiço do paladino da ordem liberal na era populista.

Em 2019, Macron lutava para posicionar a França na liderança da Europa. O ativismo ambiental seduzia os movimentos verdes, muito influentes na composição de forças do parlamento europeu, na altura em pleno processo de renovação.

Tudo mudou no verão de 2020, quando Macron saiu correndo atrás do eleitor de direita e extrema direita para aumentar as suas chances de reeleição em 2022. Uma tropa de choque indicada pelo ex-presidente Nicolas Sarkozy assumiu cargos-chave no governo e saturou as conversas de praça com temas insalubres como a “selvageria” da sociedade.

Figuras que habitam na interface da direita e extrema direita como o soberanista Phillippe de Villiers passaram a ter acesso irrestrito ao palácio presidencial.

Maior expoente do centrismo radical, Macron repete a guinada à direita dos seus predecessores. Sarkozy começou o mandato com a política de “abertura” à esquerda e terminou lendo os discursos do ultraconservador Patrick Buisson, chamado de “hemisfério direito do cérebro” do presidente.

Depois de aprovar o casamento homossexual, François Hollande tentou angariar apoio na direita com uma lei fascizante sobre retirada da nacionalidade a criminosos e terroristas. Deu tão certo que ele renunciou à reeleição.

Mas o alívio de Jair Bolsonaro proporcionado pela fraquejada estratégica de Macron é temporário. A era populista tornou a sociedade civil, o setor privado e a comunidade internacional menos dependentes dos humores das lideranças políticas.

Uma série de instrumentos jurídicos estão sendo criados para regular de forma consistente e permanente a circulação de ativos financeiros em países governados por vândalos ambientais.

Independente das mudanças na Casa Branca em novembro, a reação às queimadas da Amazônia e do Pantanal irá muito além do barraco na internet na era pós-pandemia.​

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