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Documentário disseca primeiro ano da era Putin

Vitali Manski era o chefe do departamento de documentários do Rússia 1, principal canal estatal de seu país, em 31 de dezembro de 1999.

Naquela tarde, ele resolveu gravar sua família com uma câmera caseira e involuntariamente testemunhou a história em sua TV.

Nela, o alquebrado Boris Ieltsin renunciava à Presidência da Rússia e indicava seu primeiro-ministro, Vladimir Putin, para sucedê-lo até a eleição que ocorreria em março.

A mulher de Manski, Natalia, falou que os russos haviam trocado sua “utopia” pela “mão de ferro” do homem que vencera a guerra na Tchetchênia. A filha, que Putin seria “um ditador”.

“O mundo vai nos temer de novo”, profetizou Natalia, ainda que seja difícil ver utopia nos anos caóticos de Ieltsin, do fim da União Soviética (1991) até então.

A cena é uma das poucas coisas inéditas no documentário “Testemunhas de Putin”, que Manski lançou em 2018 e chegou agora ao Now e ao Canal Brasil.

Isso não é uma crítica: além de pouco conhecidas fora da Rússia, as cenas que ele resgata dos filmes que ele foi comissionado a fazer por Putin em 2000 são apresentadas com um novo olhar.

Os filmes de Manski retrataram a campanha eleitoral de Putin e sua vida no Kremlin. Uma cena central é o registro da noite da vitória.

Em torno da mesa do comitê, chefiado por um quase imberbe Dmitri Medvedev, há pelo menos sete auxiliares importantes que acabaram rompidos com Putin.

Um deles, o magnata da publicidade Mikhail Lesin, acabou morto em circunstâncias estranhas em 2015.

O detalhe mais arrepiante, só evidenciado agora, é que o comitê se dispersa com uma televisão ligada no canal NTV, que veicula entrevista de um crítico de Putin, o ex-vice-premiê Boris Nemtsov.

Um ano depois, a crítica NTV sofreria intervenção e nacionalização. E Nemtsov acabou morto a tiros ao

lado do Kremlin, em 2015.

Apenas Medvedev ficou com Putin. Foi seu premiê e sucessor de 2008 a 2012, quando o mentor ocupou sua antiga cadeira e manteve sua influência.

À luz da trajetória imperial de Putin, o documentário fica ainda mais vívido. Ali, para consumo externo, quem aparece nas entrevistas é um político que afirma “não ter ambições monárquicas”, pois “quer voltar a ter uma vida normal”.

Duas décadas e quatro mandatos depois, ele mudaria a Constituição neste ano e poderá tentar

ficar na cadeira até 2036.

A dinâmica inusualmente sincera entre Manski e Putin visava uma humanização da figura em formação, algo que beira o hagiográfico.

Não dá muito certo: a visita do presidente-candidato à casa de sua professora de infância em São Petersburgo é um desastre que explicita a falta de empatia de Putin no momento.

Manski recuperou também uma conversa que, por ser franca demais, não entrou nos filmes originais.

O cineasta critica a decisão de retomar a melodia soviética para o hino russo. Putin, ainda um projeto de czar, escancara o uso que faria da herança comunista.

“Temos de associar a música aos piores aspectos do período soviético? Podemos pensar na vitória na Segunda Guerra, e não no [sistema de campos de concentração] Gulag?”, questiona. “É preciso restaurar a confiança no sistema.”

A conversa é meio truncada, e no dia seguinte Putin chamou Manski para tentar persuadi-lo a apoiar sua iniciativa. Não consegue, mas ali fica claro outro pilar do regime putinista: a necessidade de aprovação, talvez numa esfera mais pessoal que Putin gostaria de transparecer.

Essa particularidade, paradoxal dada a imagem almejada, tem um objetivo: “Obter a confiança do povo”.

É uma complexidade que desafia a caracterização ocidental clássica de Putin. Por outro lado, fica mais do que explícito o automatismo frio associado ao presidente.

De forma algo melancólica, o jovem Putin de então, com 47 anos, é também um lembrete dos efeitos do exercício prolongado do poder sobre políticos do mundo todo.

Há muito mais, a começar por cenas impagáveis de Ieltsin, este sim perdoado aos olhos de Manski em

longas cenas domésticas.

Manski já havia subvertido seu próprio trabalho ao fazer um filme de propaganda na Coreia do Norte para depois lançá-lo com cenas proibidas na forma do documentário “Sob o Sol” (2015).

Agora, em tom confessional, o cineasta questiona o papel que ele e outros tiveram naquele começo de era. O faz com propriedade: está autoexilado na vizinha Letônia desde 2014, e “Testemunhas de Putin”

é proibido na Rússia.

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