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Vozes negras americanas lutam para ligar as ruas às urnas

O joelho fincado no pescoço que, em quase nove minutos, asfixiou até a morte George Floyd abriu também uma rachadura inédita no edifício americano.

Antes de Floyd, foram Trayvon Martin, Eric Garner, Michael Brown e tantos outros de pele negra. Mas, vivendo nos EUA, sente-se algo de realmente novo no ar –das multidões de máscaras, em mais de 40 cidades sob toque de recolher, às tropas ocupando as escadarias do Lincoln Memorial, perto da Casa Branca.

Não se via tamanho estado de emergência em 52 anos. O desemprego é o maior em nove décadas. A ameaça de Donald Trump de usar soldados contra a população viola um equilíbrio de 233 anos nas relações civis-militares.

Discute-se o antes inimaginável na mais longeva democracia das Américas –se Trump aceitará uma derrota eleitoral, se o Pentágono recusará ordens para agir dentro dos EUA.

A cisão se alastra para além do governo, por grandes instituições americanas de toda sorte. Jornalistas do New York Times se rebelaram contra um artigo do senador Tom Cotton demandando intervenção de soldados contra manifestantes.

Funcionários do Facebook fizeram uma greve pedindo controles sobre posts de Trump. Estrelas da NFL e da NBA entraram em conflito sobre o gesto de se ajoelhar em protesto durante o hino nacional.

Em meio à incerteza e ao ineditismo do momento, lideranças negras dos EUA apontam um caminho claro –o qual deve ser ouvido com cuidado no Brasil.

O ex-presidente Barack Obama quebrou o silêncio dos últimos tempos e insistiu que é preciso ligar dois pontos hoje distantes: desobediência civil e participação política.

“Temos de chamar a atenção a um problema e deixar as pessoas no poder desconfortáveis, mas também temos de traduzir isso em soluções práticas e leis.”

Stacey Abrams, a democrata que quase levou o governo da Geórgia e hoje é cotada para ser vice de Joe Biden, reforçou a mensagem.

Sob o luto e a violência dos últimos dias, convocar as pessoas a votar pode “parecer inadequado”, mas, sem voto, a beleza dos slogans nas ruas será –novamente– efêmera e inócua.

A prefeita de Atlanta, Keisha Lance Bottoms, escreveu sobre como é, ao mesmo tempo, comandar a polícia da cidade e viver com medo de que seu filho seja o próximo asfixiado por um policial. A solução, disse, é votar.

Para explicar como instituições progridem, os economistas Daron Acemoglu e James Robinson criaram o conceito de “critical juncture” (algo como “ponto crítico”): o momento em que um choque profundo abre uma janela de oportunidade para transformar o sistema político e mudar radicalmente a trajetória de sociedades.

A Grande Depressão e a Segunda Guerra, por exemplo, foram o ponto crítico que permitiu a emergência do estado de bem-estar social. O progresso, porém, depende de liderança e organização política.

A mobilização após a morte de Floyd –somada à pandemia, à debacle econômica e à destruição política promovida por Trump– abre uma janela de oportunidade. O que será feito com ela dependerá totalmente das eleições de novembro.

Em certo sentido, o Brasil desde 2013, quando estouraram as grandes manifestações, é a história de um ponto crítico desperdiçado –e uma tragédia que se seguiu.

O ativismo não se converteu em voto, mas em guerra contra o sistema político. No país do menino João Pedro Mattos, enquanto o anti-bolsonarismo tenta ir às ruas, o recado de Obama, Abrams e Bottoms merece atenção especial.

As opiniões expressas acima não refletem necessariamente a posição do Council of the Americas.

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