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'Minha sogra foi minha paciente. Ela morreu, e eu não pude fazer nada', conta médico

Atendi o caso zero no país, no fim de fevereiro. Desde então, têm sido dias muito duros. Perdi 7 kg. Minha vida mudou, como profissional e como pessoa. Sou intensivista há 30 anos, já fui chefe de várias UTIs ao mesmo tempo, eu levava isso bem. Mas agora estou deprimido.

Nossa UTI está lotada, todos os 19 leitos ocupados por pacientes graves com Covid-19. A taxa de mortalidade do paciente intubado e com ventilação artificial é de mais de 80%. Significa que de dez, só sobrevivem dois. Imagine você perder todo dia três ou quatro pacientes com os pulmões totalmente brancos, sem conseguir respirar.

Minha sogra foi minha paciente. Minha segunda mãe. Ela faleceu. Saiu uma vez só, para ir ao supermercado. E nunca tossiu, tinha febre, mal-estar, achamos que fosse dengue. Ficou grave, foi intubada e em cinco dias morreu. Sou o chefe da UTI e não pude fazer nada. Isso foi muito forte para mim.

Vi amigos morrerem. Só aqui em Guayaquil, mais de 70 médicos faleceram. Dos 16 profissionais da minha equipe, 15 adoeceram, com sintomas leves. O contágio intra-hospitalar é muito alto, apesar dos equipamentos de proteção. Você tem contato íntimo com seu paciente e, no caso da UTI, é tudo fechado, com ar-condicionado. No restante do hospital, você ainda pode abrir uma janela, circular o ar.

No meu hospital, um funcionário de atendimento ao cliente e um garçom da cafeteria morreram. Tinham 38 anos, eram saudáveis. É uma grande mentira dizer que só velhos ou pessoas com outras doenças morrem.

Fiz quatro testes, todos negativos. Isso me traz uma grande intranquilidade, porque ainda posso ser contaminado e não sei qual será minha evolução. Temo mais a doença do que a morte, porque sou muito católico. Tenho medo também de contaminar minha família.

As imagens de cadáveres na rua e dentro das casas são reais. Até uma semana atrás tínhamos que rejeitar muitos pacientes. Agora a curva baixou, melhorou um pouco. Mas quando começar novamente o contato social não sabemos o que vai acontecer. Calculo que em uns 15 dias deve haver outro pico, especialmente nas periferias. Guayaquil tem 3,2 milhões de habitantes. Imagine o que nos espera ainda.

Quem disser que não tem medo é porque baixou a guarda. E com isso se perde a prudência. Vivo muito tenso, mas sigo. Sigo adiante.

Stenio Cevallos, 56, é o chefe da UTI do hospital privado Alcivar, em Guayaquil, no Equador; depoimento a Flávia Mantovani

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