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Meca do basquete de rua passa por renovação em Nova York

Quando criança, Michelle Roberts às vezes se via no Holcombe Rucker Park, quando seus irmãos mais velhos, que supostamente deveriam ficar em casa cuidando dela no sul do Bronx, optavam em vez disso por levá-la ao Harlem.

Roberts não conseguia ver por sobre as cabeças das pessoas que assistiam aos jogos e lotavam as laterais da quadra. Mas curtia a empolgação e a energia dos torcedores, as gargalhadas e os gritos que acompanhavam aquilo que na prática era uma grande festa de rua na rua 155 Oeste, na esquina da então Oitava Avenida. E o basquete era a trilha sonora eterna.

“Se você cresceu em Nova York, em qualquer época, mas especialmente nas décadas de 1960 e 1970, não há como não saber o que o Rucker significava para o basquete da cidade”, disse Roberts, 63, hoje diretora executiva do sindicato dos jogadores da NBA.

Ao longo das gerações, a quadra de asfalto só ganhou reputação, como Meca e foco de futuras lendas da NBA, a exemplo de Wilt Chamberlain, Lew Alcindor (mais tarde conhecido como Kareem Abdul Jabbar) e Julius Erving, que no parque era conhecido pelo apelido “The Claw”, muito antes de se tornar o Dr. J da NBA. Eles jogavam contra lendas do basquete amador cujos apelidos exóticos eram dignos da vastidão de seu talento: Earl “The Goat” [Goat significa bode e também é a sigla usada para “melhor de todos os tempos”] Manigault, Herman “The Helicopter” Knowings, “Jumpin’” Jack Jackson e Pee Wee Kirkland.

“Se você era do basquete, sonhava em jogar naquele parque”, disse Corey Williams, que atende pelo apelido Homicide e fez de partidas impressionantes no Rucker e em outras quadras amadoras o ponto de partida para uma longa carreira internacional no basquete profissional. “Todo mundo queria jogar lá.”

Roberts visitou o Rucker Park depois de voltar a morar em Nova York, ao se tornar diretora executiva do sindicato dos jogadores, em 2014.

Ela inicialmente achou que sua memória a tinha enganado, e que as lembranças que tinha eram coloridas pela nostalgia. O Rucker Park que ela encontrou parecia decrépito, com o asfalto da quadra rachado e desnivelado, e as arquibancadas tortas.

“A ideia de que aquele parque pudesse estar tão deteriorado me dava dor no coração”, ela disse.

Quando Roberts perguntou aos integrantes do comitê executivo do sindicato se eles estavam interessados em renovar a Greg Marius Court, no Rucker Park, o que ouviu dos jogadores foram perguntas sobre quando eles poderiam começar.

Em agosto, o sindicato dos jogadores anunciou uma parceria com o Departamento de Parques e Recreação da prefeitura de Nova York e com outras organizações a fim de remodelar substancialmente a quadra, a um custo de US$ 520 mil, e criar um posto de gerente de recreação no Rucker Park e no Jackie Robinson Recreation Center, que fica bem perto.

As obras na quadra começaram em agosto, com o nivelamento do asfalto e a instalação de arquibancadas pretas e um placar moderno e cestas profissionais da NBA, doadas pela Spalding. A nova quadra, preta e dourada, traz um mural criado pelo artista ASAP Ferg, do Harlem, e produzido pelo artista e cineasta Set Free Richardson.

A quadra foi reinaugurada formalmente no domingo, com uma cerimônia, clínicas de basquete para jovens e jogos. Williams, hoje comentarista da Australian Nastional Basketball League, serviu como mestre de cerimônias na reinauguração, que contou com a presença de Erving, Kirkland, Nate Archibald e diversos outros jogadores que criaram reputação na quadra.

“É algo que precisa ser preservado”, disse Williams. “O Rucker Park precisa ser tratado como o Central Park, Ellis Island, a Estátua da Liberdade. Os ônibus vermelhos de turismo vão ao parque, quando visitam o Harlem. É um marco. É como o Madison Square Garden das quadras de basquete de rua do planeta”.

O objetivo do sindicato dos jogadores é restaurar o parque como um bem comunitário e atrair jogadores da NBA.

Não muito tempo atrás, jogadores da NBA como Kobe Bryant, Allen Iverson e Vince Carter faziam a peregrinação à rua 155 Oeste e ao Frederick Douglass Boulevard para visitar uma quadra cuja área é minúscula mas cuja importância histórica e cultural é imensa.

“A quadra abiu caminhos para muitas pessoas”, disse Williams. “Ajudou muita gente a escapar de problemas. O crime parava por quatro horas, quatro dias por semana, naquela área. Não é segredo que a quadra fica do outro lado da rua do Polo Grounds, um dos conjuntos de habitação popular mais perigosos de Nova York. Mas quando havia jogos, todo mundo parava para ver”.

Roberts disse que a renovação também ajudaria a preservar o legado daqueles que trouxeram fama ao parque e à quadra.

“Se existem jogadores de basquete, garotos que aspiram a jogar na NBA ou só amam o esporte, e talvez morem nas cercanias do parque, sem conhecer inteiramente sua história, agora podemos esperar que esse projeto reviva a história, para eles”, ela disse. “Vamos contar essa história.”

Holcombe Rucker, que era diretor de parques infantis, estabeleceu uma liga de basquete infantil e um torneio de verão, quase 70 anos atrás, a fim de manter as crianças longe da tentação, mesmo que outras pessoas o aconselhassem a deixar de lado um esporte que era visto como bom só para o inverno.

Rucker orientava as crianças, criou um programa começando do zero, e sempre mantinha no bolso um cronograma com todos os compromissos de sua movimentada agenda. Com o ganho de popularidade do torneio, a Rucker League se transformou em um programa de verão, e Rucker usou as conexões que tinha estabelecido para obter centenas de bolsas de estudo universitárias para adolescentes em que ele pensava primeiro como estudantes e só depois como atletas.

Rucker morreu de câncer em 1965, antes de chegar aos 40 anos. O parque foi batizado em sua homenagem, em 1974, como Holcombe Rucker Playground. As pessoas costumam chamá-lo de Rucker Park ou só de Rucker.

Chris Rucker, neto de Holcombe Rucker, disse que “o parque é um símbolo e um ponto de referência ao que meu avô fez e o que ele realizou ao longo dos anos, e por isso, sem quadra de basquete funcional, o legado dele não estaria completo”.

Ele acrescentou que “o Rucker Park é tão parte da comunidade do Harlem quanto o Apollo Theater”.

Na década de 1980, os jogadores da NBA em geral deixaram de jogar no Rucker Park, por medo de colocar em risco os seus lucrativos contratos.

Greg Marius, antigo artista de hip-hop, revitalizou a atmosfera ao criar o Entertainers Basketball Classic, em 1982. Ele não demorou a convidar os profissionais a voltar, e criou uma experiência mais animada, com o uso de narradores bombásticos, trilha sonora de hip-hop em alto volume e patrocínio por grandes empresas.

Marius morreu aos 59 anos, em 2017. Em junho daquele ano, o prefeito Bill de Blasio deu à quadra de basquete do Rucker Park o nome Greg Marius Court.

Stacey Marius, irmã de Greg, disse que seu irmão “teve a visão de unir seu amor pelo hip-hop e pelo basquete em um só lugar, e organizar torneios, mas em lugar no qual os torneios tivessem alta visibilidade e que todo mundo pudesse curtir”.

Há quem acredite que parte da pureza pela qual Rucker sempre batalhou tenha sofrido, com a comercialização do parque. Mas os astros voltaram, e não só à quadra. O ex-presidente Bill Clinton certa vez passou por lá para assistir a um jogo. Figuras importantes do hip-hop como Fat Joe e Diddy apoiam times.

“Se você vai ao parque em um dia de torneio, pode ver qualquer estrela”, disse Gus Wells, presidente-executivo da Entertainers 155, que organiza o torneio de basquete de rua. “Há jogadores da NBA jogando lá. Há celebridades na plateia, lá. E a coisa mais importante é que tudo isso é grátis. Não se pode ver uma coisa assim de graça basicamente em lugar algum, fora lá”.

Ao longo das décadas, jogadores da NBA descobriram que não basta reputação para dominar a quadra. Bryant, superastro do Los Angeles Lakers que morreu no ano passado, foi tanto aplaudido quanto apupado por uma torcida animada, quando ele jogou na quadra em 2002.

Tim Gittens, natural do Harlem, conquistou seu apelido –Headache– jogando no parque, e agora é treinador assistente do Dallas Wings, da WNBA.

“Aqueles caras todos iam lá para jogar porque basicamente era tudo no mano a mano”, ele disse, “um cara contra o outro, sem ninguém explicando como montar uma jogada; era talento contra talento, conhecimento contra conhecimento, em um campo de jogo nivelado, e a torcida também podia se tornar um adversário”.

Ele acrescentou que “você era forçado a subir o nível de seu jogo, porque não queria fracassar diante daquelas pessoas todas, e você queria que elas o vissem brilhar, porque isso dava muito mais energia e vida ao seu jogo, e sua reputação só aumentava”.

Wells se lembra do dia em que Carter, que deixou o basquete profissional recentemente depois de uma carreira de 22 anos na NBA, enfrentou Adrian Walton, mais conhecido como Whole Lotta Game. “Ele ficou chocado por um molequinho de 18 anos estar partindo para cima dele daquele jeito”, disse Wells. “Teve de apertar os laços dos tênis.”

Baron Davis, outro antigo superastro da NBA, sempre fazia um aquecimento na quadra uma noite antes dos jogos que disputou no Rucker Park, disse Gittens.

Wells se lembra do dia, em 2011, em que Kevin Durant apareceu para jogar no Rucker Park durante um locaute da NBA, e marcou 66 pontos, em uma apresentação memorável.

“Quem viu achou que eles estivessem gravando um filme, porque a cada vez que ele descia a quadra, o time passava logo a bola, e ele chutava de bem longe da linha de três pontos”, disse Wells. “Não errava uma. Era quase automático”.

Jamar Jones, cujo apelido é Papa, estava ansioso por jogar na quadra renovada, depois da reabertura no sábado. Ele viu jogadores como Bryant, Durant e Klay Thompson jogando lá.

Para Jamar, 16, morador do Harlem, a quadra continua a ser o parquinho local, em que ele joga desde que se lembra. Para ele, a reforma tem um significado que vai muito além do retorno das celebridades e dos jogadores da NBA.

Ele quer a oportunidade de melhorar seu jogo em uma quadra funcional. “Estava difícil, porque um lado da quadra estava desnivelado, e você corria com um pé para cima e um pé para baixo, ao partir para o ataque”, disse James. “E era difícil arremessar da zona morta.”

Wells espera que o interesse renovado pelo Rucker Park restaure os atrativos da quadra.

Nos últimos anos, ele disse, torneios de verão que costumavam ser realizados no Harlem começaram a ser levados para outros locais.

“Não é só a reforma”, disse Wells. “São todos os relacionamentos que, com sorte, vão voltar, e sustentar a marca que já existe e o torneio que já existe, e ajudar a trazer de volta a mística do passado, e preservar a mística que ainda existe. A quadra precisa da conexão e relação com outras marcas, e de seu apoio. Precisa ter o apoio que costumava ter.”

A mística do passado pode ter morrido. Mas o Rucker Park sempre foi o lar de jogadores de basquete de raiz, que criam sua identidade no esporte jogando lá, como disse Williams.

“Não importa quem você é”, disse Williams. “Não importa o que você faz. Não importa de onde você vem. Suas realizações e credibilidade na NBA não fazem diferença. Somos só nós aqui no parque, hoje. É por isso que o parque é especial. Não vamos lá para dar flores aos jogadores. Eles precisam fazer por merecê-las. Muitos jogadores aparecem no parque e são vaiados. Pode acreditar. Muitos mesmo.”

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