Esporte

Novo astro do atletismo, Duplantis treinou no quintal para alcançar recordes

O sueco Armand Duplantis, 20, havia acabado de saltar 6,18 metros em uma competição indoor em fevereiro deste ano, estabelecendo o recorde mundial no salto com vara, quando a pandemia de Covid-19 forçou o mundo a entrar em quarentena. Não deu nem tempo de aproveitar o sucesso.

De março até a primeira semana de junho, Mondo, como é conhecido, precisou permanecer em casa, no estado norte-americano da Louisiana, sem poder usar instalações esportivas para treinar. A solução para não voltar fora de ritmo foi viajar até a casa dos pais, na Suécia, e adaptar uma pista de salto no quintal.

Pode parecer estranho para um atleta de elite, mas não para ele. Foi assim, saltando no quintal desde criança, que ele começou sua relação com a modalidade. Seu pai, Greg, também foi atleta do salto com vara e o introduziu no esporte.

“Eu nunca achei que fosse voltar a usar aquele quintal de novo, não o usava desde os 15 anos de idade. Foi ali que descobri o amor pelo salto com vara, e essa repetição constante me ajuda no meu salto hoje. Usar aquelas instalações foi nostálgico. Eu havia acabado de conquistar um recorde mundial, e percebi que fui do recorde para o quintal de casa”, diz Duplantis em entrevista por vídeo à Folha.

A adaptação e as limitações impostas pela pandemia não foram capazes de frear a curva de crescimento do sueco, que nasceu e cresceu nos EUA.

Em setembro, depois de treinar na pista montada com a ajuda do pai, o atleta viajou a Roma para disputar uma etapa da Liga Diamante. Saltou 6,15 metros e estabeleceu a maior marca da história em competições outdoor, superando os 6,14 metros da lenda ucraniana Sergei Bubka, estabelecidos em 1994.

Dono das melhores marcas da história nas pistas internas e externas, Armand Duplantis é considerado o sucessor de Usain Bolt como grande protagonista do atletismo mundial, independentemente da prova. Uma passagem de bastão que o saltador tem certa dificuldade em aceitar.

A reportagem nem precisa citar o nome do jamaicano para que ele rejeite a comparação. “Eu não posso ser o próximo Usain Bolt porque eu sou Armand Duplantis. Somos pessoas diferentes, fazemos coisas diferentes”, afirma.

“Achava que era possível chegar ao ponto de quebrar o recorde, sempre senti que tinha esse potencial, mas o fato de realmente alcançá-lo é difícil de explicar, na verdade. Ainda não absorvi tudo, entende? Estranho pensar que as crianças me veem da forma como eu via Renaud [Lavillenie] quando eu era mais novo. Ele era o rei do esporte, amava tudo sobre ele, amava como ele saltava. O fato de que as pessoas me enxergam hoje como eu enxergava Renaud é muito legal.”

Tricampeão mundial indoor e medalhista de ouro em Londres-2012, o francês Renaud Lavillenie, 34, deixou de ser só inspiração para se tornar amigo de Duplantis. Em fevereiro deste ano, o sueco-americano saltou 6,17 metros na Polônia e superou o recorde que antes pertencia ao seu ídolo. Uma semana depois, atingiu 6,18 metros na Escócia e superou a própria marca.

Essa competitividade, cada vez mais contra si mesmo, é um traço de personalidade forjado dentro de casa. Sua mãe, Helena, foi heptatleta na Suécia. Aos 20 anos de idade, mudou-se para os Estados Unidos e estudou na Louisiana State University, onde praticou atletismo e vôlei. Foi lá que conheceu Greg, o pai de Armand, atleta da universidade no salto com vara.

Do matrimônio entre os esportistas nasceram Andreas, Antoine, Armand e Johanna, a caçula dos quatro. Incentivados pelos pais, todos se envolveram com o esporte em algum momento.

“Quando eu era mais novo pratiquei futebol, beisebol em Louisiana, atletismo também. Você constrói esse espírito competitivo ao crescer entre atletas, como foram meus irmãos. Desenvolve essa atitude competitiva e esse estilo de vida. Vencer se torna muito importante, e essa base que eu tive quando criança me ajudou muito”, diz Mondo.

Seu irmão Antoine chegou a saltar, mas se destacou mais no beisebol e, depois de estabelecer recordes na universidade, se tornou atleta profissional. Atualmente ele atua pelo Brooklyn Cyclones, time das ligas menores que pertence ao New York Mets, da Major League Baseball.

A maior referência, porém, é o irmão mais velho, Andreas, que também seguiu para o salto com vara. Representando a Suécia, ele disputou mundiais nas categorias sub-18 e sub-20 e deixou de competir no ano de 2015.

Assim como sua grande inspiração, Duplantis decidiu competir pela terra natal da mãe. Quando tomou a decisão, em 2015, ele sentia que a concorrência nos Estados Unidos provavelmente seria maior e poderia atrapalhá-lo. Mas ainda não sabia que seria capaz de saltar além dos 6 metros —barreira representativa do esporte e que para ele passou a ser uma formalidade.

No horizonte do atleta está a Olimpíada de Tóquio, em 2021. O evento será sua estreia em Jogos Olímpicos.

Atual campeão olímpico, o brasileiro Thiago Braz, 26, tem feito apresentações irregulares no ciclo para o Japão, sem conseguir apresentar o mesmo nível que o consagrou como medalhista de ouro nos Jogos do Rio-2016.

No último mês de setembro, Braz recuperou parte da boa forma e ficou com o bronze no Meeting Istaf Berlim, na Alemanha, saltando 5,82 metros, seu melhor resultado no ano.

Armand Duplantis, que saltou 5,91 metros e ficou com o ouro no evento, concorda que falta ao brasileiro maior regularidade em seus saltos.

“Ele teve algumas temporadas de altos e baixos, mas mostrou alguns momentos de muito bom salto. Ele é muito talentoso, afinal é o campeão olímpico, tem um feeling. Acho que em breve ele voltará a saltar mais alto”, opina.

Em 2016, no Rio de Janeiro, Thiago Braz superou na final do salto com vara o francês Renaud Lavillenie, que chegou à Olimpíada como campeão olímpico. A disputa ficou marcada pelas vaias do público ao adversário do brasileiro, que desaprovou a atitude da torcida presente no Engenhão e chorou no pódio com a medalha de prata.

Amigo de Lavillenie, Duplantis também não gostou da postura da torcida naquela ocasião. Se fosse com ele, afirma, usaria as vaias como motivação para “saltar e vencer, e esfregar na cara do público”.

Aos 20 anos de idade, o atleta não coloca um teto para a sua carreira. No seu caso, subir a barra não é somente uma afirmação em sentido figurado, mas um objetivo concreto para o seu futuro.

“Eu não acho que ninguém consiga saltar mais que eu. Mas há um caminho a ser percorrido, existem alturas mais altas e eu vou continuar tentando subir a barra até onde as pessoas acharem que é possível”, completa o novo Usain Bolt, ou melhor, o Armand Duplantis do atletismo.


RAIO-X

Armand Duplantis, 20

Principal nome do salto com vara na atualidade, o sueco, nascido no estado de Louisiana, nos EUA, e filho do ex-saltador Greg Duplantis, alcançou a maior marca de todos os tempos em uma prova ao ar livre, superando a barra a 6,15 metros em 17 de setembro, em etapa da Liga Diamante de atletismo, em Roma —o recorde anterior era de Serguei Bubka, campeão olímpico em 1988, que saltou 6,14 metros em julho de 1994, em Sestriere (Itália). Duplantis também detém a melhor marca em eventos em estádios cobertos: 6,18 m, alcançados em fevereiro e que valem como recorde mundial

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