Esporte

Futebol feminino na Inglaterra é negócio, não caridade

Em 2018, ouvi a frase do título desta coluna de um dirigente da Ferroviária em um evento. O clube que conquistaria o Campeonato Brasileiro no ano seguinte encarava com a mesma seriedade e profissionalismo o time das mulheres e o dos homens. Isso não significa que fazia o mesmo investimento em ambos, mas que o tratamento em estrutura, comunicação e marketing era o mesmo. Da mesma maneira como a Ferroviária visava lucrar com o futebol masculino, tinha o mesmo objetivo com o feminino. Obviamente que guardadas as devidas proporções e contextos distintos.

O primeiro passo para fazer do futebol feminino um bom negócio é enxergá-lo como tal. “Ah, mas ele não dá retorno”. Quantos dos dirigentes que já repetiram isso em algum momento investiram de verdade no feminino para constatar se essa máxima é verdadeira? Há muitos negócios que podem falir e nunca dar retorno. Mas nenhum deles trará lucro se, antes, não houver investimento.

O que acontece hoje na Inglaterra é um ótimo exemplo para a discussão. O berço do futebol nunca havia tido olhares para as mulheres até o jogo entre Brasil e Inglaterra nos Jogos Olímpicos de 2012. Naquele 31 de julho, 70.584 pessoas estiveram em Wembley para acompanhar a vitória inglesa por 1 a 0 sobre a seleção brasileira. A partida chamou a atenção da FA (federação do país): se havia tanta gente disposta a pagar para ver um jogo de futebol feminino, existia um negócio em potencial ali. Esse foi o pontapé inicial para uma série de investimentos da FA em centro de treinamento para a seleção feminina, que em 2015 virou “a zebra” da Copa do Mundo, em terceiro lugar.

O investimento gerou resultado com a seleção e também estimulou clubes a despertarem para o futebol feminino. Aos poucos, Chelsea, Manchester City, Arsenal, Manchester United e outros grandes e tradicionais times masculinos passaram a dar mais atenção às mulheres. A liga se fortaleceu, ficou mais competitiva, atraiu visibilidade e, consequentemente, patrocínio. A Barclay’s anunciou seu apoio ao principal torneio nacional (Women’s Super League), investindo mais de 10 milhões de libras na competição, que também passou a ser televisionada.

Na última semana, anúncios de contratações das equipes inglesas chamaram a atenção. Das três melhores do mundo em 2019, duas foram jogar na Inglaterra –a lateral Lucy Bronze assinou com o Manchester City, e a atacante Alex Morgan foi anunciada no Tottenham. Das 10 indicadas ao prêmio da Fifa, 6 estão lá.

Tudo isso também resultou em mais torcedores nos estádios. Em 2019, a seleção inglesa quebrou seu recorde de público, com 77.768 pessoas em Wembley acompanhando amistoso contra a Alemanha.

Clubes também tiveram números expressivos, como as duas últimas finais de FA Cup colocando 45 mil torcedores no estádio.

Por aqui, ainda vemos muitos tratando o futebol feminino como “caridade” ou forma de cumprir uma obrigação. No domingo, o Flamengo recebeu o Cruzeiro no Estádio da Gávea, que não tinha nem cobertura para as jogadoras reservas no banco. As atletas ficaram por 90 minutos sob um sol de 30 graus das 15h.

Aliás, o clube mais rico do país não se dá ao trabalho de investir nas mulheres, apenas terceiriza o time para a Marinha. Será que algum patrocinador vai querer investir num time tratado com tamanho descaso?

É muito fácil se prender à muleta do “não dá retorno” do conforto do ar condicionado no escritório. Difícil é sentir a pele queimar no sol tendo que mostrar resultado em campo, quando, fora dele, o investimento dos dirigentes não dá conta nem de comprar uma cobertura para o banco de reservas.

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