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A grande meta é medalha olímpica, diz Bruno Soares após bi no US Open

Agora vencedor de seis títulos de Grand Slam (três nas duplas masculinas e três nas mistas), o tenista brasileiro Bruno Soares, 38, tem bem claro para si o que ainda falta conquistar na carreira.

“A grande meta mesmo, o grande sonho, a grande vontade, é uma medalha olímpica”, ele afirma à Folha. O mineiro mira os Jogos de Tóquio, adiados para 2021 e em que deve fazer parceria novamente com o conterrâneo Marcelo Melo, ex-número 1 do mundo e ganhador de dois Slams.

A entrevista foi concedida no sábado (12), enquanto Soares cumpria isolamento e aguardava a divulgação do resultado do seu teste de Covid-19 num quarto de hotel em Roma, para onde viajou logo após ganhar o US Open ao lado do croata Mate Pavic, na última quinta (10).

Nesta semana, a capital italiana já recebe um evento Masters 1.000. Na sequência, dia 27, começa Roland Garros, em um calendário bastante alterado e agora cheio após cinco meses de paralisação dos circuitos.

A volta do tênis em meio à pandemia de Covid-19 fez com que o US Open não tivesse público. O protocolo sanitário do evento, porém, foi bastante questionado pela pouca transparência na divulgação de critérios e decisões tomadas ao longo de sua realização.

O único tenista com teste positivo de coronavírus confirmado antes e durante o Grand Slam foi o francês Benoit Paire, que precisou entrar em isolamento. Mas outros 11 jogadores, que teriam tido algum tipo de contato com ele e em tese também teriam que fazer quarentena, receberam tratamentos diferentes. A única excluída foi a francesa Kristina Mladenovic, favorita na chave de duplas.

O brasileiro reconhece que a comunicação sobre as medidas foi confusa, mas isenta o torneio das decisões tomadas.

Membro do conselho de jogadores da ATP (Associação dos Profissionais do Tênis), ele também fala nesta entrevista sobre a tentativa, liderada pelo sérvio Novak Djokovic, de criar uma entidade paralela para representar os atletas no circuito mundial.

O número 1 do mundo, que presidia o conselho até o último mês, é um dos que consideram que o colegiado do qual fazem parte, além do brasileiro, nomes como Roger Federer e Rafael Nadal, não consegue exercer influência suficiente no comando da entidade e defender os interesses dos tenistas junto aos organizadores de torneios.

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Você contou na entrevista coletiva após o título que teve Covid-19 15 dias antes de embarcar para os EUA. Foi difícil manter a cabeça no lugar em meio a tantas preocupações? Realmente eu deixei quieto, não achei que fosse necessário divulgar. Passei 14 dias isolado e em repouso, mas supertranquilo. Não tive complicação. O mais complicado foi que peguei aos 48 do segundo tempo, o que quase me faz não só perder o torneio, mas também o trabalho que eu tinha feito de preparação física por três, quatro meses, e as seis semanas de pré-temporada na quadra. Jogou a minha condição física lá embaixo. Por outro lado, me deu até uma tranquilidade de já ter pegado. Obviamente, não está comprovado quanto tempo dura a imunidade, mas deu uma relaxada por não ter aquele estresse da “bolha”, de pode pegar [durante os torneios] e ser desclassificado.

Apesar disso, você participou normalmente de todos os protocolos do torneio? O lance de não ter estresse é puro psicológico, porque o protocolo foi exatamente igual. Não tive nada diferente por já ter tido [a doença]. Exisitia uma dúvida muito grande de como seria, novidade para todo mundo, mas foi muito bem organizado. Desde isolar o hotel, toda a parte de testes, informação, transporte. Obviamente aparecem desafios ao longo do evento, a confusão que deu com o Benoit [Paire], mas dada as proporções [do torneio] eles mandaram muito bem.

Esse episódio do Paire gerou muitas dúvidas sobre o tratamento para quem teve contato com ele. Quem acompanhou de fora ficou confuso com algumas decisões. Como foi para quem esteve lá dentro? Foi confuso, na verdade. O torneio fica na mão do departamento de saúde. E Nova York tinha uma particularidade que o hotel era num lugar, o clube no outro, e lá é tudo dividido por condado. Aí o condado de Nassau tinha uma decisão, o governo de Nova York falava outra coisa… Então essas mudanças de protocolo ou tratamento diferente para algumas pessoas foram muito em função disso, não decisão do torneio ou das entidades do tênis, que não tinham nenhuma voz nessas decisões.

Por mais que eu discorde de algumas delas, isso está totalmente fora do nosso controle. Tem alguns protocolos que na minha opinião são um pouco extremos. O lance de quem teve contato próximo [com um tenista que recebeu resultado positivo também precisar entrar em isolamento]. Depois que o cara testou duas vezes negativo, não vejo porque deixar duas semanas isolado. Até porque ficar 14 dias na quarentena, eu sei bem, detona não só as duas semanas que ele vai perder, mas as próximas em que tem que recuperar. Essas coisas deixaram as pessoas incomodadas. Mas é um risco que a gente corre. Em todo lugar que a gente vai o departamento de saúde pode chegar um dia e falar que mudou tudo e agora a regra é essa. Por enquanto acho que vida normal a gente esquece, vai ser dentro da bolha mesmo, mas quem sabe no fim do ano já começa a ter um pouco mais de liberdade.

Outro fator que mobilizou os bastidores foi a criação de uma nova associação de tenistas, às vésperas do US Open. Como isso chegou para você? Eles já estavam preparando isso há muito tempo. Tinham feito uma outra apresentação, não era novidade. Decidiram ir em frente para aproveitar que tem muita gente num Grand Slam, então já reúne uma turma toda e falam das intenções deles. Não tenho muita informação. Por não fazer parte do movimento não recebi as coisas, não sei detalhes do que eles estão tentando fazer. Não faço parte do projeto porque ainda acredito na estrutura da ATP e é difícil para mim entrar num negócio em que tenho muitas dúvidas do que vai ser e das consequências que pode ter.

Pesou no ambiente esse assunto chegar antes de um torneio em que já havia um ambiente tumultuado? No dia em que aconteceu e no pós teve uma certa tensão no ar entre jogadores e as entidades, ninguém sabia o que eles iam fazer, se iam pedir alguma coisa, então houve uma tensão. Mas depois passou, até porque eles não criaram nada ainda, foi uma carta de intenção. No futuro próximo deve ter algo mais concreto do que seria essa união. Então acabou que logo passou esse auê.

O que que teve de diferente, que mais chamou a atenção, no fato de ganhar um torneio tão importante nessas condições? A única coisa que chamou a atenção mesmo foi a falta de público, porque de resto a sensação foi a mesma. Desde chegar lá, a adrenalina, o auê dos amigos de mídias sociais, imprensa, sair nos maiores veículos [de comunicação]. Então de maneira geral foi igual ao que estamos acostumados, mas essa dinâmica sem público é um pouco estranha. Você faz um baita ponto e vem aquele silêncio no final. Mas nos acostamos rapido.

Pela fase de sua carreira você estabelece metas que deseja alcançar antes da aposentadoria? A grande meta mesmo, o grande sonho, a grande vontade, é uma medalha olímpica. Isso é o meu próximo foco, mas obviamente não posso deixar o circuito de lado. Só de voltar e já ganhar um Grand Slam é mais uma realização extraordinária, mas preciso continuar tendo bons resultados, porque para ir à Olimpíada dependo do meu ranking. Então é importante também estar extremamente focado no circuito. Essa é uma sensação que não fica velha: ganhar Grand Slam. Então espero que ainda possa ganhar outros no futuro.

Como a aposentadoria dos irmãos americanos Bryan, anunciada pouco antes do US Open, mexe com um duplista? Mexe no circuito de uma forma geral. Melhor dupla da história, dois caras que levaram a dupla a outro patamar. Não poderíamos ter tido melhores embaixadores para nossa modalidade nos 20 e poucos anos em que estiverem ativos. São caras fantásticos, de quem me tornei bom amigo, e vão fazer falta, porque sempre atraíram muita coisa positiva para o tênis e para as duplas, especificamente. Mas o esporte está acima de qualquer nome, então a gente vai superar essa perda.

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