Esporte

Infância pobre e estímulo de técnico formaram engajado Marcus Rashford

No início de abril, o secretário de saúde do Reino Unido, Matt Hancock, disse que os jogadores de futebol deveriam fazer mais pelo país no período de crise. Ele se referia às arrastadas negociações para redução de salários por causa da pandemia da Covid-19.

Os atletas precisavam, segundo Hancock, abrir mão de parte dos vencimentos para evitar demissões de funcionários dos clubes.

Pouco mais de dois meses depois, foi a vez de um jogador cobrar o governo. A campanha liderada por Marcus Rashford, 22, atacante do Manchester United, pôs o primeiro-ministro Boris Johnson contra a parede e o fez se comprometer a gastar 120 milhões de libras (cerca de R$ 750 milhões) em vouchers de alimentação para 1,3 milhão de crianças em situação de vulnerabilidade durante as férias escolares.

O benefício era considerado temporário pelo governo, enquanto as escolas estivessem fechadas por causa da pandemia e as crianças estivessem sem acesso às refeições servidas no intervalo das aulas. A previsão era que ele fosse interrompido com a chegada das férias.

Rashford começou uma campanha nas redes sociais com pedidos para que os eleitores pressionassem os membros do parlamento e que o benefício fosse estendido. A comoção foi tão grande que, em 24 horas, o governo anunciou a continuidade do programa no período de férias.

A manchete de um dos tabloides ingleses foi: “Rashford 1 x 0 Johnson”.

Nesta quarta (24), o atacante foi titular do Manchester United na goleada por 3 a 0 sobre o Sheffield United, pelo Campeonato Inglês. Os três gols foram marcados pelo francês Anthony Martial.

Hancock agradeceu ao engajamento do jogador e o chamou em seguida, durante entrevista à Sky News, de Daniel Rashford.

“Nós somos muito gratos ao que Marcus conseguiu, não só por nós, mas por todos os que fazem o trabalho de levar alimentação a crianças em situação de pobreza. Graças à ajuda dele, conseguimos levar comida a milhões de crianças vulneráveis”, afirma Lindsay Boswell, presidente da Fare Share, ONG que distribuiu refeições para famílias carentes no Reino Unido.

A partir do início da pandemia, em março, Rashford abraçou a causa. Fez a maior doação individual da história da entidade e contribuiu com outros bancos de comida, entidades ao redor do país em que as pessoas podem doar ou, se precisarem, coletar os alimentos.

“A campanha dele para que as crianças continuem a receber os vouchers do governo durante as férias será um enorme alívio para as famílias que têm sofrido muito com essa crise”, completa Boswell.

Os vales são de 15 libras (R$ 90) semanais, que podem ser usados em compras no supermercado.

“Eu sei o que representa porque já fui uma dessas crianças”, disse o atacante ao fazer o apelo ao governo.

Nascido em Wythenshawe, ao sul de Manchester, Marcus Rashford chegou ao United aos 7 anos. Criado apenas pela mãe, precisou várias vezes da ajuda das famílias de amigos, que o convidavam para jantar para que ele não fosse dormir de barriga vazia.

“Minha mãe tinha dois empregos, e mesmo assim tínhamos muita dificuldade para pagar as contas e comprar comida”, relembra.

Ele afirma que, por ter passado pelo fantasma da fome e visto outras pessoas com o mesmo problema, resolveu abraçar a causa.

O retorno foi imediato. Boris Johnson lhe telefonou para dizer que o atacante deu grande contribuição no debate sobre a pobreza na Inglaterra. Rashford foi elogiado publicamente por políticos, jornalistas, companheiros e ex-jogadores. Os maiores rivais do United, Liverpool e Manchester City, publicaram notas afirmando estarem orgulhosos dele.

“Precisa ser feito mais. Eu não quero que isso seja o fim porque há os próximos passos, e precisamos analisar qual a resposta possível. As pessoas estão sofrendo o ano todo e precisamos saber como podemos ajudá-las da melhor forma”, disse, em entrevista à BBC no dia em que o governo decidiu voltar atrás na política dos vouchers.

Rashford foi encorajado pelo técnico da seleção inglesa, Gareth Southgate, a se posicionar e participar da vida do país. Atletas negros, como ele e Raheem Sterling, disseram que o treinador os aconselhou a tentar fazer a diferença nas comunidades e falarem sobre o passado. Rashford, que apareceu aos 18 anos em 2016 no time profissional do United, pôs em prática o conselho.

“Tudo aconteceu muito rápido na minha vida. Eu tenho a chance de dar algo de volta e quero fazer isso. Nenhuma criança deveria ir para a cama com fome, sem um prato quente de comida”, completou.

Aos 20 anos, ele fez parte da seleção inglesa que chegou às semifinais da Copa do Mundo de 2018, na Rússia, a melhor campanha da equipe na competição desde o título de 1966.

No dia em que foi convocado para o Mundial, ele postou no Twitter uma foto em homenagem à mãe, Melaine, com uma mensagem: “Depois de você ficar por anos de pé na beira do campo no frio e debaixo de chuva, mãe, nós vamos para a Copa do Mundo”, escreveu.

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