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Crítica – Casa Gucci

Prestes a adentrarmos no segundo ato de Casa Gucci de Ridley Scott, testemunhamos uma conversa entre marido e mulher. Ela insiste para que seu cônjuge reabra o canal de relações com sua família, pois eles importam, portanto deveriam lamber as feridas e fazer as pazes; ele questiona essa reaproximação, visto que estão felizes naquele momento, então para que mudar isso, certo?!

É a partir deste ponto que Ridley Scott irá desenvolver sua narrativa para o segundo filme que lança este ano. O irregular O Último Duelo estreou mês passado (outubro/2021) nas salas de cinema pelo país, e agora, poucos dias depois recebemos Casa Gucci, que tinha todas as peças e ferramentas para criar algo espetacular, porém ficou estacionado por não ter a audácia de perceber que o roteiro escrito pela dupla Becky Johnston e Roberto Bentivegna implorava por algo mais farsesco, que bem utilizado poderia elevar todo o drama vivido dentro do império Gucci.

O longa segue a ambiciosa Patrizia Reggiani (Lady Gaga) e seu romance com Maurizio Gucci (Adam Driver). Eles se casam, e ela entra na dinástica marca de luxo italiana. Os negócios da família não atraem Maurizio, sendo que o verdadeiro poder está nas mãos de seu pai Rodolfo (Jeremy Irons) e seu tio Aldo (Al Pacino). Se uma forasteira como Patrizia quiser ser uma verdadeira força no clã Gucci, ela terá que colocar o resto da família uns contra os outros. Será que a queda dos Gucci representará a subida ao poder de Patrizia?

Pelo guia do duo Johnston/Bentivegna acompanhamos a vida do casal protagonista em Casa Gucci por todo o primeiro ato. Em um determinado momento, teremos uma festa de aniversário para o tio Aldo que está completando 70 anos de idade. No meio da celebração que acontece em um grande casarão, seremos apresentados ao último membro dos Gucci que resta conhecer: Paolo Gucci, interpretado por Jared Leto.

Possivelmente, ficarão impressionados depois de observarem poucos minutos da atuação de Leto, positivamente ou negativamente. Confuso, não?!

Explicação: a performance de Jared Leto é extremamente exagerada em seus maneirismos, com caras e bocas e expressões onomatopeicas que não fazem o menor sentido, assim enquanto assistimos, observamos incrédulos daquilo que nossos olhos e ouvidos captam; isolando o ator do restante do elenco que caprichou forte no sotaque italiano, mas ainda mantendo algo naturalista em cena.

Dava a impressão que o ator americano, também um músico conhecido mundialmente, representava aquela nota musical desafinada que escutamos no meio da sinfonia. Doce engano!

Foi por ele que percebemos que o renomado cineasta Ridley Scott segurou as rédeas muito forte quando queria ter afrouxado mais, no que poderia ter sido uma deliciosa farsa tragicômica. Ao invés, optou por usar de dois estilos narrativos que nunca harmonizaram por um minuto sequer durante o desenrolar dos eventos acompanhados em Casa Gucci.

Scott queria ter abraçado o ‘camp’, estilo estético e sensibilidade que considera algo apelativo pelo seu mau gosto e valor irônico, mas contentou-se com as convenções dramáticas do cinema que foca em histórias de crimes e falcatruas.

De modo igual, temos um restante de elenco que se destaca, cada um deles em uma modalidade diferente: Gaga encarna doçura e engenhosa destreza com facilidade; Adam Driver começa na ingenuidade, quase de um garotinho, mas avança para algo impetuoso; Al Pacino “dança” naturalmente em qualquer ritmo, sempre praticando uma entonação irônica que é capaz de partir iceberg no meio; além de Leto que é a representação inimitável do pináculo da estupidez humana.

Resumindo: um bando de toscanos italianos toscos que apesar dos bolsos cheios, portam uma cabeça oca… todos eles!

Todavia, Ridley Scott ainda faz questão de aliviar a barra de seus personagens, já que relega tantas escolhas infelizes dos Gucci; pois para ele existe algo próximo a uma maldição com o nome da família, que afeta cada um dos membros que nasceram marcados, além daqueles que querem ostentar o sobrenome em questão a qualquer custo.

Portanto, ser um Gucci nunca é boa coisa! Mas, como dizem por aí – “Família é família”.

Talvez seja este o maior problema.

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