Educação

Vai mandar ou não o filho para a escola? Não julgue quem decidir o contrário!

Faz tempo que o clima não é de paz, bem longe disso, mas a nova fase vermelha e o agravamento da pandemia explodiram como bomba nas divergências entre famílias sobre as aulas presenciais. Pais com opiniões diferentes julgam uns aos outros, fazem acusações de todas as ordens e até descambam para ofensas. E quem são as maiores vítimas desse fogo cruzado? Crianças e adolescentes, que já sofrem o suficiente com essa pandemia sem fim e deveriam ser poupados da falta de noção dos adultos.

A novidade no caldeirão é a fase vermelha com as escolas abertas. Desde dezembro, um decreto em São Paulo definiu a educação como serviço essencial, a exemplo de diversos países europeus, a partir da convicção de que se deve levar em conta, além dos riscos da reabertura, os prejuízos do fechamento prolongando das escolas.

Se até o fim de 2020 as famílias eram majoritariamente contrárias às aulas presenciais, no início de 2021 o quadro mudou. Com uma maior percepção das consequências de não se frequentar a escola e a perspectiva de que a pandemia não terminará tão cedo, grande parte da sociedade incorporou a ideia de que o retorno seria necessário. No país que bateu recorde em tempo de escolas fechadas, a crítica a incoerências da retomada pegou: “Bar, shopping, balada, cinema, tudo pode, só escola que não?”

Ainda que aos trancos e barrancos, deu-se início ao ano letivo, com a variação da presença de alunos entre 35%, em regiões na fase laranja, a maioria do estado, e nas poucas ainda na vermelha, ou 70% para as que haviam chegado à amarela. Apesar das dificuldades da retomada, como o medo, a ansiedade e os duros protocolos de segurança, o clima foi de esperança e de comemoração com os reencontros.

Na rede privada, a adesão das famílias às atividades presenciais girou em torno de 70% a 80%. Nas estaduais, 84% dos alunos disseram estar felizes com o retorno e 86%, que estavam com saudades da escola, segundo pesquisa do governo realizada entre 26 de fevereiro e 1º de março com mais de 152 mil matriculados do 6º ano do fundamental ao 3º do médio.

Mas vieram Manaus, Araraquara, quase 2.000 mortos em um dia, uma vacinação lenta e os novos fechamentos inevitáveis diante da ameaça de um colapso da saúde generalizado no país de Jair Bolsonaro. Em São Paulo, um ano após determinar o fechamento das escolas antes de tudo, o governador João Doria incorporou ao seu discurso político que elas serão as últimas a fechar, porque “educação é essencial”.

Mas, na coletiva de imprensa em que anunciou a fase vermelha para todo o Estado, lançou mão de uma nova orientação para as próximas duas semanas: a escola presencial deve ser para quem mais precisa. E a subjetividade inerente a essa sugestão do governo jogou mais pólvora na polarização pró e contra escolas abertas.

O secretário de Educação, Rossieli Soares, um dos principais defensores da retomada das escolas, elencou na coletiva “quem são os alunos que mais precisam”: aqueles com necessidade de alimentação na escola, com dificuldade de acesso à tecnologia e a outros suportes, com severa defasagem de aprendizado, que tenham pais que trabalhem em serviços essenciais e os que estão com a saúde mental em risco.

De acordo com a secretaria de Educação, há aproximadamente 833 mil estudantes na linha de pobreza ou extrema pobreza no estado, esses mais vulneráveis às dificuldades com alimentação e tecnologia. Mas o órgão diz reconhecer a necessidade também daqueles que têm uma estrutura melhor em casa, mas não se adaptaram às aulas on-line.

Não são poucos os casos de estudantes que estão sem acompanhar qualquer atividade educacional há um ano. A orientação para as diretorias das escolas, tanto na rede pública quanto na privada, é que são as famílias, especialmente nesta fase mais aguda da pandemia, que devem definir se os filhos devem ou não ir para as aulas.

E lá vem o tribunal das redes sociais: aluno de classe média e alta tem que ficar em casa para que os mais pobres possam ir para a escola; pais que mandam os filhos para a escola querem se livrar deles; depressão se cura com terapia e remédio, Covid mata; Fulaninho vai para a balada, mas não para as aulas; Sicrano pega ônibus, mas não manda o filho para a escola; fazer a unha no salão pode, mas estudar não. E por aí vai.

O tiroteio só se soma à culpa imputada desde o início da reabertura a crianças e jovens em uma eventual contaminação e morte de pessoas queridas. Uma professora de arte de uma escola particular do Itaim (zona sul de São Paulo) postou no Instagram, em que tem alunos como seguidores, uma charge contrária às aulas presenciais na qual uma criança, com uma mochila nas costas, coloca flores em um túmulo e fala: “Não se preocupe, estou levando o casaco!” Ou seja, nas aulas presenciais, em vez de acolher os estudantes, está na prática lhes dizendo: “Você vai matar o seu pai ou a sua mãe”.

Claro, isso é uma caso grave de falta de ética e de empatia. Mas não é inofensiva a troca de acusações entre famílias em um momento no qual crianças e jovens precisam restabelecer laços de confiança. Quem sou eu, quem é você para definir se o filho do outro deve ou não ir para a escola? Como calcular as necessidades, das mais diversas ordens, de outras famílias para optar entre o presencial e o virtual? Se mal sabemos calcular riscos para a saúde mental dentro de casa, como julgar os do colega do filho?

Queremos que crianças e adolescentes, diante de tudo o que já estão enfrentando, vejam diariamente amigos na carteira da escola ou no quadradinho do computador pensando que só podem ser malucos, neuróticos, negacionistas ou genocidas, de estar aqui ou acolá? Não é só uma questão de compaixão, mas de responsabilidade.


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