Educação

Endereçando a anglofilia

O Brasil fala inglês muito mal, mas ainda assim –ou por isso mesmo– tem uma postura servil e apatetada diante da língua do coaching, do lockdown e do making of, expressão muitas vezes grafada erradamente como “making off”.

O parágrafo acima lança a coluna em terreno escorregadio, onde já se estabacaram gerações de puristas incapazes de compreender que línguas são organismos tão vorazes quanto indomáveis. Vamos em frente com cuidado.

No domingo (28), a manchete principal da Folha destacava a prova de inglês do Enem como a que mais tira competitividade de alunos da escola pública no maior exame de acesso ao ensino superior.

Não é que o ensino privado seja muito melhor: nossa educação é democrática na ruindade anglófona. O privilégio dos alunos da rede particular se materializa fora da escola, na forma de cursos avulsos e programas de intercâmbio.

No mesmo domingo, o apresentador de TV Luciano Huck, que fala inglês fluente, escreveu numa colaboração para o Estadão que “as cabeças mais admiradas nas próximas décadas” serão as que forem capazes de, entre outros feitos, “endereçar a pobreza extrema”.

Huck não inventou nada. “Endereçar” com o sentido de atacar, lidar com (um problema) é um dos anglicismos toscos da moda no corporativês, jargão em que anglicismos toscos abundam.

Trata-se de uma tradução preguiçosa de “address”, o que situa esse uso de endereçar na mesma prateleira de “planta” com o sentido de instalação industrial e de “realizar” significando “dar-se conta de”.

Chamo de preguiçosa essa modalidade de tradução porque, por ignorância ou descaso, ela se dispensa de considerar as características da língua de destino, submetendo-a com brutalidade aos caprichos da língua-fonte.

“Ah, endereçar, realizar e planta não têm esse sentido em português? Dane-se: agora têm!”, proclama o tradutor preguiçoso. E –eis o elemento que complica tudo– muitas vezes acaba tendo razão.

O português brasileiro rouba e roubará do inglês –e em futuro próximo, provavelmente, também do mandarim– tudo aquilo que os falantes, soberanos da língua, entenderem de roubar.

Grande parte do butim cai no esquecimento sem deixar vestígios, como modismos de verão. Outra parte é incorporada à paisagem local de tal forma que em breve ninguém se dá conta de sua origem.

Aconteceu há tempos com o time de futebol (“football team”). Mais tarde, com o show e o shopping, que nem precisaram de novas grafias. Mais recentemente ainda, com o verbo deletar. São incontáveis os anglicismos que circulam por aí sem sotaque.

Nada de novo. O mesmo havia ocorrido, algumas gerações antes, com um grande elenco de palavras importadas do francês. Na época, houve sabichão defendendo chamar o abajur de abaixa-luz.

O novo sentido de “realizar” parece estar criando raízes, paciência. É cedo para saber se seguirão seus passos modismos como o de “endereçar um problema”. Ou o da preposição sobre numa frase como “língua é sobre liberdade”.

Enquanto não é tarde, prefiro correr o risco de ser atropelado pela marcha da história e denunciar essas traduções preguiçosas –não exatamente como erros de português, mas como sintomas.

Hoje, no meio da mortandade e da implosão institucional patrocinados por um governo criminoso, esse é o menor dos nossos problemas. Se o Brasil sair dessa, chegará o dia de lidar com a baixa autoestima cultural evidenciada por nossa jequice anglófila.


LINK PRESENTE: Gostou desta coluna? Assinante pode liberar cinco acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Continue lendo

Artigos relacionados


 
Botão Voltar ao topo