Educação

Faculdades incentivam estudantes a transformar pesquisa em negócio

Além de gerar conhecimento, pesquisas acadêmicas também podem resultar em novas empresas. A aplicação prática da ciência produzida por estudantes entrou no radar das instituições e dos próprios alunos.

A Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) tem a agência Inova, que auxilia alunos que desejam empreender, dá suporte para pesquisas acadêmicas que podem render patentes, faz eventos de empreendedorismo e tem espaço para que empresas trabalhem dentro da instituição, em um parque tecnológico.

“Só a ideia não transforma o mundo, inovar é transformar a ideia em negócio”, diz o professor Newton Frateschi, diretor-executivo da agência.

O objetivo da Inova é fomentar uma cultura de empreendedorismo entre os estudantes, mas o projeto traz outros benefícios. Ter empresas funcionando dentro do campus facilita a contratação de alunos, e o desenvolvimento de negócios no local ajuda a economia da região.

“Ainda há nas universidades a mentalidade de que trabalhar com o mercado é prostituição do conhecimento, mas isso é bobagem, há espaço para todo mundo”, diz Frateschi.

A Unicamp já tem 1.038 empresas-filha, como são chamados os negócios que foram fundados por alunos e ex-alunos da instituição ou incubados na universidade. Entre eles estão unicórnios como Ifood e QuintoAndar.

A USP (Universidade de São Paulo) também tem centros que apoiam o empreendedorismo. É na incubadora do campus de Ribeirão Preto que está a Decoy, startup de biotecnologia que combate pragas em animais de criação usando predadores naturais.

Os três sócios da companhia, dois biólogos e um economista, têm carreira acadêmica. Entre ele está Túlio Nunes, 36, diretor de operações que é biólogo e tem pós-doutorado.

Segundo Nunes, a carreira acadêmica é um fator positivo para a empresa, já que ele e seus sócios estão habituados a fazer pesquisa e testar possíveis soluções para os problemas encontrados.

“Os contatos que fizemos também nos ajudam, temos em nosso time doutores e alguns professores colaboradores, uma rede criada na universidade”, afirma.

Além disso, ao se inscrever para a incubadora, eles fizeram um curso para montar o plano de negócio e, uma vez dentro dela, têm contato com outros empresários que viraram seus parceiros.

“Temos forte formação acadêmica, mas sabíamos muito pouco sobre empreendedorismo, a incubadora tem sido fundamental para o nosso desenvolvimento”, diz Nunes.

Espaços para incentivar o surgimento de empresas não estão restritos a instituições públicas. Em São Paulo, a Faap tem um laboratório para ajudar estudantes a transformar ideias e trabalhos acadêmicos em negócios, o Business Hub.

Anualmente é feito o desafio #EmpreendaFaap, concurso de empreendedorismo para alunos e antigos estudantes.

A primeira edição aconteceu em 2014, e o projeto vencedor foi o de Augusto Aielo, 29, então aluno da pós-graduação em gestão de negócios.

A ideia que ele apresentou deu origem à Soul Urbanismo, empresa que aluga parklets, decks de madeira que ocupam vagas para carros.

“Não é só um concurso, é um programa de aprendizado. O modelo de negócio que fizemos lá é parecido com o que usamos hoje”, diz Augusto.

Desde então, ele ajudou em outras edições do concurso e é acompanhado por Alessandra Andrade, coordenadora do Business Hub.

“Quem participa tem mentoria para a vida inteira, a gente sempre vai conectando o empreendedor com as pessoas que ele precisa, não o abandonamos”, afirma Andrade.

Hoje, além da Soul Urbanismo, Augusto tem a aceleradora Voe Sem Asas, que motiva funcionários de grandes corporações a criar negócios dentro das empresas, e organiza o evento Quem Quer Ser um Unicórnio, para auxiliar startups que estão em busca dos primeiros clientes.

“Participantes da última edição do #EmpreendaFaap estiveram no evento. Fui beneficiado e agora ajudo outras pessoas”, afirma.

Mesmo pesquisas para TCCs (trabalhos de conclusão de curso) na graduação podem render ideias de sucesso.

A Mvisia, empresa que desenvolve câmeras industriais com sensores para supervisionar linhas de produção, foi um projeto de TCC, de 2015, que deu certo. Em junho, foi comprada pela Weg, multinacional brasileira de motores elétricos.

Os quatro sócios eram alunos de engenharia da Escola Politécnica da USP e participaram do projeto AWC (Academic Working Capital), do Instituto Tim, que apoia a criação de negócios a partir de TCCs.

Eles inscreveram o projeto, um algoritmo que selecionava mudas de eucalipto, e receberam recursos para fazer o protótipo. “A AWC materializou nossa vontade de transformar conhecimento acadêmico em uma solução”, diz Henrique Oliveira, 27, diretor de operações da Mvisia.

Depois que eles se formaram, mudaram o foco da empresa para o setor industrial e hoje são também fornecedores dos equipamentos usados para supervisionar a qualidade da produção.

“O ambiente universitário é um celeiro de inovações, mas, no Brasil, temos uma cultura de que o trabalho universitário é para pesquisa pura, não aplicada”, diz Márcio Lino, diretor de sustentabilidade da Tim, que promove o AWC.

O projeto está em sua sexta edição e já apoiou 150 TCCs, de 400 estudantes. Para participar, os alunos que vão se formar no final do ano devem inscrever seus trabalhos no site awc.institutotim.org.br, entre março e abril.

Os estudantes selecionados recebem recursos para a construção de protótipos e treinamento com professores de suas áreas. Depois, apresentam suas empresas em uma feira de empreendedores, para conseguir os primeiros contratos. Os estudantes não ficam atrelados à Tim nem precisam devolver os recursos que receberam.

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