Educação

A pandemia e seus tempos

“Meus dias duram cinco minutos”, me escreveu outro dia uma amiga por email. Não esqueci mais essa hipérbole, que ela usou de passagem e que talvez soasse banal em outro contexto. Achei-a perfeita para expressar um efeito do confinamento que não foi devidamente antecipado.

Três meses atrás, quando muitos de nós estávamos no começo do túnel de isolamento social, uma grande preocupação era o que fazer com o tempo que, óbvio, passaríamos a ter de sobra.

Sem o tempo perdido no trânsito e nas compras; empregado em visitar amigos, receber a visita deles, encontrá-los na rua; investido em cinema, restaurante, dentista, academia de ginástica —quanto tempo ia sobrar!

Houve quem ficasse contente. Um freio de arrumação! Hora de ler os clássicos adiados há décadas. Maratonar séries maneiras. Aprender mandarim, filosofia, cozinha tailandesa, crochê.

É claro —mas não custa reforçar— que falo da parcela privilegiada que pôde se dar ao luxo de ficar em casa num país que, politicamente doente, nunca adotou o confinamento de forma efetiva e coordenada.

Logo o isolamento se revelou um consumidor voraz do recurso tempo, palavra que trouxemos no século 13 do latim “tempus” para designar a “duração relativa das coisas, que cria no ser humano a ideia de presente, passado e futuro” (Houaiss).

Foi o que se viu: a lavanderia insana das compras; as horas passadas junto a fogão, pia e vassoura; os cuidados com os filhos sem escola; o jeito que deu o tempo do trabalho (para quem, privilegiado em dobro, conseguiu mantê-lo) de se infiltrar no tempo do “repouso”.

Por tudo isso, é natural que os dias pareçam durar cinco minutos, e que três meses escoem num estalar de dedos, deixando uma sensação de três semanas.

Ao mesmo tempo, seria ingenuidade não reconhecer que a distorção em nosso sentido de tempo promovida pelo cruzamento de Cronos com Covid tem complexidades.

Cinco minutos também podem durar um dia inteiro, e meses parecerem anos.

Pensando bem, terá mesmo havido um tempo pré-pandemia? Haverá um pós? A cabeça diz que sim, mas não é sempre que o coração acredita. O tempo pandêmico sabe ser uma esfinge.

Por um lado, a concentração de nossos afazeres num número limitado mas intensivo de tarefas rotineiras, mecânicas, se soma à tendência dos dias à homogeneidade, a uma falta de eventos que passa a ser desejada (“no news, good news”), para tornar o tempo ligeiro e indistinto como o vento.

Em compensação, viver o tempo inteiro com o peso da possibilidade de um evento tremendo, o evento que acabaria com todos os eventos, lhe dá uma gravidade turva de eras.

O tempo do isolamento pandêmico é ambíguo porque marca um tempo fora do tempo, um hiato, um compasso de espera, ao mesmo tempo deprimente e desejável, insuportável e acolhedor.

Sair de seu círculo de tédio é enfrentar a possibilidade nada desprezível de uma aceleração brusca do tempo e da marcha dos eventos até o ponto da ruptura, aquele em que já não haverá tempo

—a finitude, a morte.

No entanto, deve-se reconhecer que todo esse drama está chegando ao fim. Não porque o vírus tenha perdido fôlego no país, mas porque nossos governantes —e grande parte da população, com bons motivos ou não— decretaram que acabou o isolamento.

Vamos ao tempo do deus-dará. Talvez a gente acabe descobrindo que os dias têm durado cinco minutos como metáfora do piscar de olhos com que a vida passa na terra.

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