Economia

Esperamos que Brasil escolha fornecedores confiáveis para o 5G, diz integrante do governo Biden

O governo dos Estados Unidos não fez um pedido direto de veto à participação da Huawei no processo de implementação da tecnologia 5G no Brasil, mas deixou claro à comitiva brasileira em Washington que considera fornecedores não confiáveis, como os americanos definem a empresa chinesa, como uma ameaça à segurança do país.

Integrantes do governo Joe Biden e o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), um dos integrantes da comitiva que viajou a Washington e Nova York nesta semana, afirmam que os EUA não solicitaram diretamente o banimento da Huawei nem mesmo na rede privativa de comunicação que o Brasil pretende montar para órgãos e empresas consideradas sensíveis, como o Planalto, a Petrobras e o STF (Supremo Tribunal Federal).

Apesar de não ter vetado a empresa chinesa do edital do leilão do 5G, previsto para julho, o governo brasileiro estabeleceu requisitos mais específicos para o setor considerado sensível, o que deve impedir a participação da chinesa. Em audiência na Câmara, em março, o ministro das Comunicações, Fábio Faria, já havia dito que a Huawei não estaria apta a participar da rede privativa do governo.

À Folha, Stephen Anderson, um dos responsáveis pela comunicação internacional e política de informação do Departamento de Estado americano, resumiu o discurso diplomático americano que foi reforçado nas reuniões com a comitiva brasileira.

“Vemos as redes 5G criadas com fornecedores não confiáveis ​​como uma ameaça à segurança, e achamos importante que nossos amigos e aliados estejam cientes de quais são esses riscos. […] Esperamos que o governo brasileiro escolha fornecedores de confiança.”

As investidas americanas sobre o Brasil em relação à Huawei começaram ainda no governo Donald Trump e persistem com Biden, que tem mantido —e até reforçado— políticas anti-Pequim aplicadas pelo republicano.

O argumento dos americanos é que a Huawei repassa informações sigilosas para o governo chinês, o que ameaçaria a segurança de dados do Brasil e a cooperação com os EUA.

Ainda segundo Anderson, não haverá investimentos em um país que escolher o que os americanos chamam de “fornecedores não seguros” para a implantação da rede 5G e que “a confiança não pode existir onde as tecnologias e os provedores de serviços estão sujeitos a um governo autoritário, como o da China.”

Segundo ele, os EUA não estão sujeitos a “caprichos de regimes autoritários.”

“Ninguém quer investir em economias onde há temor de que a propriedade intelectual pode ser facilmente acessada por um regime autoritário”, completou o diplomata.

Durante coletiva em Washington, o ministro Fábio Faria disse que a comitiva estava nos EUA para “decidir sobre a rede privativa, não sobre o edital que já está pronto.”

“Não houve pedido direto (dos EUA) para vetar a Huawei”, disse Flávio Bolsonaro.

No início do ano, a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) aprovou regras para o leilão de 5G no Brasil sem restrições para Huawei como fornecedora de equipamentos –a chinesa fornece ao menos 50% das atuais redes de 3G e 4G do Brasil.

As regras do leilão, porém, exigem que as empresas migrem, no próximo ano, para tecnologias com redes independentes, que não sejam baseadas na rede atual.

O edital precisa ainda da chancela do TCU (Tribunal de Contas da União), que contou com dois ministros na comitiva que viajou aos EUA, justamente para colher informações sobre as possíveis regras.

Faria afirmou que o prazo do leilão, previsto para julho, ainda deve ser possível de ser cumprido.

Segundo autoridades brasileiras e americanas, o objetivo da visita era a troca de ideias sobre segurança cibernética, modelos regulatórios e viabilidade do uso de redes privadas, além de reuniões com potenciais investidores. Nenhum acordo ou parceria formal foi firmado entre os governos.

A maior parte das reuniões, com autoridades do Departamento de Estado, do Conselho de Segurança Nacional e do Departamento de Segurança Interna americanos aconteceu na embaixada do Brasil em Washington, de segunda (7) a quarta-feira (9), quando a comitiva também se encontrou com o presidente do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), Mauricio Claver-Carone.

Faria afirmou que pediu uma linha de crédito para o banco para ampliar a conectividade no Brasil, principalmente na região norte do país. Carone afirmou que trabalharia para parcerias. Há cerca de um mês o banco já havia aprovado US$ 1 bilhão para investimentos em digitalização no Brasil.

Ainda em Washington, a comitiva do governo se reuniu com o diretor de Inteligência Nacional para o Hemisfério Ocidental nos EUA, e representantes de empresas como Qualcomm, Motorola, IBM e da consultoria Eurasia,

Também fazem parte da comitiva, entre outros, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que, assim como Flávio, é suplente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, e o diretor-geral da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), Alexandre Ramagem.

Esta é a segunda viagem feita sob comando de Fábio Faria para tratar do 5G. Em fevereiro, a comitiva brasileira passou por Suécia, Finlândia, Japão e China.

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