Economia

Covid-19 empurra classe média da Índia na direção da pobreza

Ashish Anand sonhava em ser estilista de moda. Um ex-comissário de bordo, ele pediu dinheiro emprestado de parentes e aplicou toda a sua poupança de US$ 5.000 para abrir uma loja de roupas nos arredores de Déli, vendendo ternos, camisas e calças desenhadas sob medida.

A loja, chamada The Right Fit, foi inaugurada em fevereiro de 2020, semanas antes de o coronavírus atingir a Índia. O primeiro-ministro Narendra Modi subitamente ordenou um dos mais duros lockdowns nacionais para contar a doença. Sem poder pagar o aluguel, Anand decidiu fechar a loja dois meses depois.

Agora, Anand e sua mulher e dois filhos estão entre os milhões de pessoas na Índia em risco de cair da classe média para a pobreza. Eles dependem de doações de seus sogros idosos. As lentilhas cozidas com arroz substituíram os ovos e frangos na mesa de jantar. Às vezes as crianças vão para a cama com fome, disse ele.

“Não sobrou nada no meu bolso”, disse Anand, 38. “Como posso não dar comida aos meus filhos?”

Agora uma segunda onda de Covid-19 atingiu a Índia, e os sonhos de classe média de dezenas de milhões de pessoas enfrentam um perigo ainda maior. Cerca de 32 milhões de pessoas no país já foram levadas à pobreza pela pandemia no último ano, segundo o Centro de Pesquisas Pew, formando a maioria dos 54 milhões de pessoas que saíram da classe média em todo o mundo.

A pandemia está desfazendo décadas de progresso em um país que aos tropeços tirou centenas de milhões de pessoas da pobreza. Problemas estruturais profundos e a natureza às vezes impetuosa de muitas políticas de Modi já vinham impedindo o crescimento. Uma classe média encolhida causaria danos duradouros.

“É uma notícia muito ruim de todas as maneiras possíveis”, disse Jayati Ghosh, economista do desenvolvimento e professor na Universidade de Massachusetts em Amherst. “Isso atrasou nossa trajetória de crescimento enormemente e criou uma desigualdade muito maior.”

A segunda onda apresenta opções difíceis para a Índia e para Modi. Na sexta-feira (16), o país registrou mais de 216 mil novas infecções, outro recorde. Os lockdowns voltaram em alguns estados. Com o trabalho escasso, os trabalhadores migrantes estão lotando trens e ônibus para voltar a suas casas, como no ano passado. A campanha de vacinação do país está lenta, apesar de o governo ter retomado o ritmo.

Mas Modi parece não querer repetir o lockdown draconiano do ano passado, que deixou mais de 100 milhões de indianos sem emprego e muitos economistas culpam por agravar os problemas da pandemia. Seu governo também relutou em aumentar os gastos substancialmente, como nos EUA e outros países, em vez de divulgar um orçamento que aumentaria os gastos em infraestrutura e outras áreas, mas que também enfatizasse a redução da dívida.

O governo Modi defendeu sua condução da pandemia, dizendo que a vacinação está avançando e que há indícios de uma recuperação econômica. Os economistas preveem uma recuperação no próximo ano, mas o aumento repentino das infecções e o ritmo lento de vacinação –menos de 9% da população indiana foram inoculados– poderão solapar essas previsões.

As previsões de crescimento animadoras parecem muito distantes para Nikita Jagad, que estava sem trabalho há mais de oito meses. Uma moradora de Mumbai de 49 anos, Jagad parou de sair com suas amigas, de comer em restaurantes e até de andar de ônibus, a menos que a viagem fosse para uma entrevista de emprego. Às vezes, disse, ela se fecha em seu banheiro para que sua mãe de 71 anos não a escute chorar.

Na semana passada, Jagad conseguiu um emprego como gerente em uma empresa que oferece serviços de limpeza para companhias aéreas. Ele paga menos de US$ 400 por mês, aproximadamente a metade de seu salário anterior. Também poderá durar pouco: o estado de Maharashtra, onde fica Mumbai, anunciou medidas de bloqueio nesta semana para impedir a disseminação da segunda onda.

Se perder o novo emprego, Jagad continuará sendo o único apoio de sua mãe. “Se alguma coisa acontecer com ela, não tenho dinheiro nem para interná-la no hospital”, disse.

A classe média da Índia pode não ser tão rica quanto seus pares nos Estados Unidos e em outros lugares, mas constitui uma força econômica cada vez mais poderosa. Embora as definições variem, as pesquisas Pew definem as famílias de classe média e classe média-alta como as que vivem com cerca de US$ 10 a US$ 50 por dia. Esse tipo de renda poderia dar a uma família indiana um apartamento em um bairro bom, um carro ou moto, e a oportunidade de enviar seus filhos a escolas privadas.

Aproximadamente 66 milhões de pessoas na Índia cumprem essa definição, comparadas com cerca de 99 milhões pouco antes da pandemia no ano passado, segundo o Centro Pew. Essas famílias indianas cada vez mais afluentes atraíram empresas como Walmart, Amazon, Facebook, Nissan e outras a investir pesado em um país de consumidores ambiciosos.

A classe média indiana é central para além da economia. Ela se encaixa nas ambições mais amplas do país de rivalizar com a China, que cresceu mais depressa e de forma mais consistente, como superpotência regional.

Para chegar lá, o governo indiano poderá precisar cuidar das pessoas que o coronavírus deixou para trás. As rendas familiares e o consumo geral diminuíram, apesar de as vendas de alguns produtos terem aumentado recentemente por causa da demanda acumulada. Grande parte dos mais atingidos estão na classe de comerciantes da Índia, os lojistas, operadores de quiosques e outros pequenos empresários que muitas vezes vivem às custas de grandes companhias.

“A Índia não está sequer discutindo a pobreza ou a desigualdade, a falta de emprego ou a queda da renda e do consumo”, disse Mahesh Vyas, executivo-chefe do Centro de Monitoramento da Economia Indiana. “Isto precisa mudar logo”, disse ele.

A maioria dos indianos está “cansada” e “desanimada” pela falta de empregos, disse Vyas, especialmente os trabalhadores de baixa qualificação.

“A menos que o problema seja encarado, este será um marco que retardará o crescimento sustentado da Índia”, afirmou.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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