Economia

Aloysio Faria era o último dos grandes fundadores de bancos do Brasil

Aloysio de Andrade Faria (1920-2020) era o último dos grandes fundadores da banca moderna no Brasil, instituições que foram criadas ou ganharam corpo nos anos 1940 e que resistiram à onda de quebradeiras decorrente também do fim da superinflação, a partir de 1994. Era do grupo que incluiu um Amador Aguiar (do Bradesco, fundado em 1947), um Walther Moreira Salles (do Unibanco, de 1942) ou de um Olavo Setúbal (do Itaú, de 1943).

O empresário morreu nesta terça-feira (15), aos 99 anos.

Faria foi dono do Real, banco que assumiu com a morte do pai, em 1948, então ainda chamado Banco da Lavoura de Minas Gerais, que havia sido criado como uma cooperativa de crédito agrícola, em 1925. Sob Faria, o banco cresceu, foi pioneiro e ativo em negócios internacionais e mudou de nome no começo dos anos 1970 (para Real), durante uma disputa com o irmão, Gilberto Faria (1922-2008), também banqueiro (Banco Bandeirantes), político e que foi padrasto do ora deputado federal Aécio Neves.

Em 1998, o Real foi vendido para o holandês ABN Amro por US$ 2,1 bilhões, o equivalente hoje a US$ 3,34 bilhões (cerca de R$ 17,7 bilhões) –o ABN seria comprado em 2007 pelo Santander. Em 1998, era o quarto maior banco privado do país, tido então por analistas do ramo como dos mais eficientes. Faria reteve alguns negócios do Real, que se tornaram parte do conglomerado Alfa, hoje entre as 50 maiores instituições financeiras do Brasil. O grupo tem empreendimentos como os hotéis Transamérica, as lojas C&C Casa e Construção, fazendas e indústria de óleo de palma, a Águas Prata, a rádio e TV Transamérica e o Teatro Alfa, em São Paulo.

Faria era neto do coronel Pacífico Soares de Faria, pecuarista do Vale do Jequitinhonha, e filho de Clemente Faria, fundador do banco, deputado federal e figura de peso na elite mineira nos anos 1940. Ele mesmo, porém, ficou conhecido pela discrição, chamado de “banqueiro invisível”.

É difícil encontrar registros de seu envolvimento com políticos. Quase não aparece em memórias de gente com poder na economia e na política do século 20. Aparece de modo curioso e de passagem nos “Diários da Presidência” de Fernando Henrique Cardoso. Lá, FHC diz que parte da banca privada brasileira estava entre irritada e assustada com a concorrência estrangeira, que Faria estava contente com venda do banco e que o Real na verdade havia sido oferecido a compradores de fora pelo Banco Central.

Em 2015, Faria apareceu na lista de milionários brasileiros que usavam contas do HSBC na Suíça para movimentar recursos por paraísos fiscais. Em 2003, fora investigado pela CPI Mista do Banestado, pois um banco de Faria era objeto de um inquérito sobre lavagem de dinheiro nos EUA.

Faria formou-se em medicina no que é hoje a Universidade Federal de Minas Gerais, em 1945, e mestre em ciência (fisiologia) pela Universidade Northwestern (EUA), em 1947. Era gastroenterologista em Belo Horizonte quando o pai morreu de pneumonia. Depois de seis meses entre o trabalho em um hospital, pela manhã, e no banco, de tarde, acabou por preferir a finança.

Em 2000, em uma entrevista rara, à revista IstoÉ Dinheiro, disse que, tivesse sido médico por cinco anos, não teria largado a profissão. Foi também em torno do ano 2000 que se afastou do dia-a-dia de seus negócios, que não deixou de acompanhar até o final da vida, no entanto. Dizia que seu “hobby número um” era ler biografias, história e romances, Guimarães Rosa em particular, sentado na varanda de sua casa, diante do lago da sua fazenda em Jaguariúna (SP). Foi da direção do Museu de Arte Moderna de Belo Horizonte e do Museu de Arte de São Paulo (Masp), que recebeu algumas doações caras do banqueiro.

Conta nessa entrevista à IstoÉ que de fato criou a sorveteria La Basque, em São Paulo, porque, segundo ele, não haveria bons sorvetes no Brasil e ele adorava o doce. Além de finanças, arte, “Grande Sertão: Veredas” e sorvete, Faria gostava de criar gado e cavalos árabes e da raça pampa. Um contemporâneo ainda vivo diz que Faria não gostava de “confusão, política, notoriedade, que eram uma chateação”; gostava de mandar, sendo centralizador nos negócios, e “de viajar para a Inglaterra”. Nas palavras desse conhecido, seria um conservador, que não gostava de qualquer espécie de confusão, um conservador estrito, mas ilustrado. Teve cinco filhas, nenhuma das quais se interessou pela atividade do pai. Era casado com Clea Dalva Faria. Seria em 2020 a 55ª pessoa mais rica do Brasil, com R$ 8,3 bilhões de patrimônio, segundo a revista Forbes.​

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