Economia

Endividados, pequenos empresários diminuem de tamanho e vendem comércio para honrar compromissos

A dificuldade no acesso de linhas emergenciais do governo e os altos juros cobrados no mercado de crédito tradicional têm preocupado empresários de pequenos negócios.

Com as portas fechadas há três meses e sem perspectiva de faturamento no curto prazo, empresários diminuem o tamanho de suas empresas e colocam seus comércios à venda na tentativa de honrar compromissos com funcionários, fornecedores e até quitar dívidas anteriores.

Foi no cenário de crédito caro e de falta de perspectiva sobre uma reabertura duradoura que o empresário Délio Canabrava decidiu fechar e colocar à venda o bar que abriu há 14 anos no Alto da XV, região de vida noturna movimentada em Curitiba (PR) até o início da pandemia.

Quem quiser assumir o negócio terá de assumir cerca de R$ 250 mil em dívidas bancárias, e só. “Temos esse passivo e precisamos, de alguma forma, passar ele para frente. Então estou buscando alguém que pegue o bar, pague as dívidas e toque ele”, diz.

Em apenas dois dias, apareceram cerca de 100 interessados na “doação” do negócio. “Em seis meses, o bar vai bombar de novo, mas eu não tenho mais condições de bancar um custo fixo de R$ 50 mil até o fim do ano, sem faturamento”.

Os últimos dados do Banco Central apontam que o saldo de crédito voltado para pessoas jurídicas aumentou cerca de R$ 30 bilhões (0,2%) entre março – mês de início da pandemia de coronavírus – e maio, para R$ 1,566 trilhão.

As concessões, no entanto, não acompanham o pequeno movimento de alta. O montante total cedido às pessoas jurídicas caiu 36,2% na mesma relação, de R$ 224,8 bilhões para R$ 143,4 bilhões.

Canabrava diz ter buscado os bancos com quem tinha relacionamento e também a linha de crédito liberada por meio do governo do Paraná. Nos primeiros, diz, o dinheiro era aprovado, mas os juros e as condições não compensavam. No segundo, a burocracia era grande – e até hoje não houve resposta.

“Tenho um bom nome na praça, mas mesmo assim o dinheiro não vem. Vem, mas muito caro, para pagar em 36 vezes e sem carência.”

O empresário tem outros três negócios na capital paranaense, um restaurante, uma confeitaria e uma distribuição de pratos congelados –esses já adaptados à nova realidade de salões fechados.

Curitiba chegou a liberar a abertura dos bares e restaurantes, mas um novo período de quarentena foi determinado, agora mais rígido. Na terça-feira (30), o governo do Paraná decretou “lockdown” por 14 dias, período em que apenas atividades essenciais poderão funcionar.

O assessor econômico da FecomercioSP (federação de comércio, serviços e turismo em SP), André Sacconato, diz que primeiros três meses foram praticamente nulos em relação à concessão de crédito às empresas, o que começou a mudar somente em junho, com os aportes do governo no fundo garantidor do Pronampe.

Para ele, com o risco de inadimplência maior, era natural que os bancos segurassem as concessões de crédito. Era necessário, portanto, que o governo atuasse, especialmente para atender as micro e pequenas empresas.

“O governo tem obrigação de liberar [recursos que garantam os empréstimos] porque as empresas foram obrigadas a fechar devido à pandemia”, diz. “O pequeno e médio, quando o banco oferecia crédito, era um linha própria, com risco altíssimo e juros de 6%, 8% ao mês.”

Segundo o diretor de inovação, produtos e serviços bancários da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), Leandro Vilain, as concessões de março a maio ainda representam um avanço importante em relação a meses anteriores.

“A tendência declinante reflete a desaceleração progressiva da atividade, que deve apresentar o seu vale no segundo trimestre”, diz.

Ele afirma, porém, que houve alta de 43,4% nas concessões para pessoas jurídicas entre março e junho deste ano quando comparado a igual período de 2019.

“Isso aconteceu pelo expressivo aumento na demanda no início da crise, por conta da forte incerteza do cenário econômico, da redução das operações no mercado de capitais e do cancelamento de linhas de financiamento externo para o Brasil”, disse Vilain, da Febraban.

Sacconato, assessor da FecomercioSP também afirma que os bancos passaram exigir imóveis como garantia desses empréstimos. Nos setores de comércio e serviços, porém, é incomum as empresas serem proprietárias dos imóveis que ocupam.

Essa foi a exigência recebida pelo empresário Sidney Rubin, que tentava um empréstimo para manter o pagamento de salários e fornecedores em dia. Não conseguiu. Dono de uma confecção, ele tem 10 lojas funcionando -desde o início da pandemia, fechou três e avalia encerrar mais uma.

“Tenho uma empresa com 53 anos no mercado e com histórico de boa pagadora, mas os bancos querem garantias para emprestar. Antes, eu colocava faturamento de loja, mas agora eles querem imóveis e eu não tenho”, diz.

Rubin está organizando um grande bazar do estoque da marca para levantar dinheiro e, assim, bancar as demissões – de 250 funcionários entre fábrica e lojas, metade já foi dispensada – e acertar contratos com fornecedores.

“Comecei a dispensar o pessoal no fim de abril e estamos tentando fazer acordos, porque não tenho dinheiro. Sei que vou encarar umas ações trabalhistas, mas não tinha outro jeito.”

Segundo o diretor da Febraban, no entanto, houve recuo nas taxas de juros entre fevereiro e maio deste ano.

“Mesmo com o aumento do risco nas operações de crédito e a expectativa de aumento expressivo da inadimplência, que já se refletiu na forte elevação das provisões, as taxas de juros e os spreads bancários recuaram. Os juros para o conjunto das operações de crédito recuou de 23,1% para 20,4% ao ano, e o spread médio [diferença entre a taxa de captação e a de empréstimo] de 18,6% para 16,4%”, disse.

O presidente da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil), Fernando Pimentel, diz que, de todas as medidas tomadas pelo governo em meio à pandemia, as ligadas à concessão de crédito para empresas são as menos eficazes. “Houve uma super demanda por empréstimo e nenhuma medida fez chegar com fluidez à ponta.”

Pimentel afirma que “ninguém quer viver de crédito”, mas que em um momento de retração é necessário dar combustível para retomar as atividades e preservar empregos. “È o que vai nos ajudar a atravessar o período de crise”.

O ajuste no Pronampe, há pouco mais de dez dias, melhorou a aprovação de crédito para os pequenos, segundo Paulo Solmucci, presidente da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes).

Alexandre Sampaio, da FBHA (Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação), diz que não há muita boa vontade dos bancos em atender o setor de turismo, que segue sem capital de giro para se manter e sem condições de reabastecimento para uma reabertura. Ele estima que 30% dos hotéis, hostels e pousadas não consigam reabrir.

Na educação privada, o crédito via Pronampe também parece ter começado a sair, segundo presidente da Fenep (Federação Nacional das Escolas Particulares), Ademar Batista Pereira. “Nosso setor quase não toma crédito, usa-se mais para investimento e expansão”, diz.

Pereira afirma que a linha para financiamento da folha foi a mais utilizada pelas escolas, além da aplicação da Medida Provisória que permitiu acordos para redução de salários e jornada.

OUTRO LADO

Os bancos afirmaram que mantiveram suas políticas de análise de crédito e risco adaptadas ao atual cenário de pandemia de coronavírus e afirmam compromisso com a disponibilidade do crédito àqueles que precisam.

Em nota, o Bradesco afirmou que analisa os pedidos de crédito caso a caso, mas que os preços do crédito sempre serão estabelecidos olhando para a curva de juros futuros – os quais, em um momento de crise, tendem a ser menos previsíveis e pela qualidade do crédito do cliente.

“Houve uma diminuição natural da oferta de garantias mais líquidas e comuns nas operações de crédito para PJ. O banco, no entanto, não mudou a sua política de crédito, que analisa diferentes aspectos e perfil de risco do cliente. A orientação feita aos gerentes do banco é sempre pela oferta do melhor produto ao nosso cliente, a partir da sua necessidade de valor, carência, prazo para pagamento e, principalmente, as melhores taxas. Isto inclui as ofertas feitas nos canais digitais do banco”, disse o Bradesco em nota.

Já o Banco do Brasil afirmou que intensificou o apoio a seus clientes durante a pandemia e que cabe aos micro e pequenos empresários escolherem, junto à assessoria do banco, quais as soluções que melhor atendam suas necessidades.

“O BB continuará a apoiar o segmento, dentro de suas diretrizes de concessão de crédito e reafirma que há expectativa de aumento de exposição a esse segmento – seja por meio de linhas com recursos governamentais como das linhas tradicionais de capital de giro e investimento constantes do portfólio de produtos do BB”, disse em nota.

O banco também afirma que não houve alteração quanto à exigência de garantias para operações de crédito.

Em nota, o Santander também afirmou que não tem medido esforços para entender as necessidades de seus clientes e apoiá-los na travessia do atual momento. “Esta postura tem permitido à instituição adotar, além das iniciativas alinhadas diretamente entre o governo e o setor bancário, outras soluções direcionadas a segmentos mais vulneráveis, como microempreendedores individuais (MEIs), microempresas e pessoas com dificuldades para honrar seus compromissos”, disse.

O Itaú disse que vê de forma positiva todas as medidas que contribuam para a sustentabilidade das operações de micro, pequenas e médias empresas no atual momento e afirma que não adotou como política a elevação de taxas de juros desde o início da pandemia.

“Temos oferecido condições inéditas de alongamento de prazos, carências e renegociações para seus clientes por meio do Programa Travessia. […] Casos pontuais de ajuste de taxas de juros podem ter ocorrido em razão de uma piora na avaliação de risco de algumas operações”, afirmou em nota.

Procurada, a Caixa Econômica Federal não respondeu até a conclusão desta reportagem.

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