Economia

Ansiedade financeira em tempos de pandemia

A essência do tempo é de incertezas e ansiedade. Para nos ajudar a refletir, quero usar um experimento especialmente importante como exemplo sobre o que é chamado de “Desamparo Aprendido” (Nontransient learned helplessness, Martin E. P. Seugman & Dennis P. Groves, Psychonomic Science volume 19, pages 191–192 1970).

O experimento foi conduzido da seguinte forma: Um cachorro foi colocado em uma sala com um sino. De tempos em tempos, o sino tocava e, alguns segundos depois, esse cachorro levava um choque. Por um tempo, até que o animal se acostumasse com o ambiente, o sino tocava, ele levava um choque; sino, choque; sino, choque.

Em uma segunda sala, havia também um cachorro que sofria um choque ao mesmo tempo em que o primeiro cão, mas o segundo não ouvia sino nenhum, somente recebia o choque. Esse segundo animal também ficou na sala até se acostumar com o ambiente onde nada previa o choque, apenas vinha sem qualquer aviso.

Depois de um tempo, os dois cães acostumados cada um com o seu ambiente, foram realocados para uma nova sala. Esse espaço tinha uma divisória, sendo que, se os cães ficassem de um lado receberiam um choque e, se pulassem para o outro lado, evitariam o choque. O que aconteceu com os dois cães? Como eles exibiram comportamento de maneira diferente?

O primeiro cachorro explorou o ambiente, recebeu choques algumas vezes até que, em determinado momento, pulou a cerca e descobriu uma maneira de escapar dos choques.

O segundo cachorro não explorou o ambiente, apenas se deitou no chão choramingando. Basicamente, o segundo cão perdeu a esperança de que qualquer coisa sobre o ambiente fosse previsível. O segundo cão, a propósito, –e isso é extremamente triste– teve seu sistema imunológico enfraquecido pela situação, tornando-se mais suscetível a todos os tipos de doenças.

Por que estou lhe contando essa história? Porque acho que a crise do coronavírus é uma crise em várias frentes, mas também é um exercício para “Desamparo Aprendido”.

Estamos todos um pouco como este segundo cachorro. O mercado de ações, por exemplo, não está apenas caindo, está, também, de tempos em tempos, subindo de maneira imprevisível. As instruções que recebemos estão imprevisíveis. “Fique em casa!”, “Não fique em casa!”, “Há um vírus!”, “Não há um vírus!”, “A OMS (Organização Mundial da Saúde) é a culpada!”; tudo isso é incrivelmente confuso e difícil de lidar. Um momento que desafia nossa mentalidade e equilíbrio psicológico.

O que podemos fazer para obter algum controle?

Uma abordagem é a “Terapia da compra”, já que é uma maneira de ganhar controle sobre o mundo. Tem uma jaqueta naquele site daquela loja que eu não tenho, se eu apertar um botão a jaqueta se tornará minha. Alguém embala, entrega e eu recebo.

Há uma quantidade tremenda de sentimento de controle quando compramos algo porque mudamos o estado do mundo. Mesmo não sendo uma abordagem ruim, acaba sendo muito cara e como grande parte da nossa incerteza atual tem a ver com o nosso futuro financeiro, não é a recomendada para obter uma sensação de controle.

Outra opção é criar uma economia de emergência, entendendo que precisamos de algo como âncora, algo que possamos sentir que estamos evoluindo. É difícil e esse não é o momento ideal para começar a economizar, mas é um momento importante para tentar, não apenas pela questão econômica em si, mas por uma sensação de controle que podemos sentir seguindo esse caminho.

Uma terceira abordagem é a de tentar limitar nossos gastos. Estamos todos em casa tempo demais e, de tempos em tempos, pensamos em fazer algo divertido. E a vida não é sobre ser infeliz, é sobre usar nossos recursos da melhor maneira possível. E, como uma inspiração, contarei uma experiência que fizemos com o intuito de ajudar as pessoas a se manterem dentro do orçamento pré-definido.

Descobrimos que dividir o orçamento por semana, não por mês, e começar a contar toda segunda-feira aumenta a probabilidade de as pessoas manterem os gastos sob controle. Sugiro que você inicie esse teste com você nessa quarentena e consiga manter-se dentro do orçamento definido previamente por você.

Como podemos reduzir o estresse?

Para tentar reduzir o estresse, uma sugestão é a de tentar controlar nossos hábitos de mídia. A mídia é boa em criar uma espécie de pânico. Vemos os números de pessoas adoecendo e morrendo, e isso muda o tempo todo e temos o desejo de continuar checando, verificando e acompanhando a evolução.

E checar as notícias é uma boa ideia, mas talvez não logo de manhã e talvez não a última coisa antes de se deitar para dormir. Deveríamos destinar e limitar um tempo para ver notícias, assim como para fazer outras atividades ao longo do nosso dia.

E o mercado de ações? Devemos continuar acompanhando o tempo todo?

A resposta é basicamente não. Se você quiser fazer alterações em seu portfólio, por exemplo: “Acredito que a empresa X vai desenvolver a nova vacina contra o coronavírus e, portanto, acredito que valha a pena investir nessa ação agora”, tudo bem, vá em frente e invista. Mas a ideia de que qualquer um de nós, pessoas normais, seríamos mais espertos do que o mercado, é muito improvável. Nesse caso, acompanhar as flutuações do mercado de ações nos deixará somente mais ansiosos.

Qual é o nosso ativo mais importante?

Existem muitas classes de ativos diferentes: imóveis, ações, títulos, todo tipo de coisa. Mas uma classe importante de ativos somos nós mesmos.

Para a maioria de nós, somos a nossa principal fonte de renda pelo resto de nossas vidas. Nos tempos de coronavírus, muitas coisas ruins estão acontecendo, mas uma coisa boa é que temos mais tempo e, certamente, temos um tempo mais flexível.

E como você gostaria de investir isso no ativo mais importante que temos, que somos nós? Aprenderia algo novo? Investiria em sua saúde? Criaria melhores hábitos? Eu acho que você poderia investir em tudo isso. Acredito que o desafio para todos nós é como criar nesses tempos terríveis e complexos algum tipo de oportunidade que possa talvez propiciar uma vantagem sobre alguns hábitos que queremos mudar. Portanto, pensar em como vamos usar esse momento como uma oportunidade para investir em nós mesmos, aprendendo ou fazendo algo novo.

Como investidor iniciante, que tipos de metas devo priorizar?

Quando você pensa em metas para poupar dinheiro, existem as de curto prazo, como comprar uma bicicleta, e as de longo prazo, como criar um fundo para a sua aposentadoria. No momento, o objetivo prioritário deve ser o de criar algum tipo de poupança, algum tipo de conta para emergência.

Em seguida, sugiro que haja uma mescla entre metas de curto e longo prazo. E por que eu acho que deveria ser uma mescla? Porque também devemos nos recompensar de tempos em tempos.

Se você definir metas apenas em longo prazo, por exemplo, quero quitar meu carro e/ou comprar uma casa, mesmo sendo maravilhoso, não é muito motivador. Precisamos criar uma vida que tenha prazeres também de curto prazo: por exemplo, juntar dinheiro para um novo computador e outras coisas que são divertidas.

O ideal é descobrir uma mistura entre objetivos que são mais em longo prazo e metas de curto prazo que tornarão nossas vidas melhores de uma maneira mais imediata.

Como investidor iniciante nesse momento, devo começar a investir ou devo esperar por um momento mais propício?

Essa é uma pergunta muito difícil de responder. Ninguém sabe se, em média, o mercado de ações irá primeiro cair para depois subir ou primeiro subir para depois cair. Há muita irracionalidade no mercado de ações e é muito difícil de prever.

O que sabemos é que, se você esperar pelo momento certo, talvez possa nunca começar. Portanto, uma possibilidade seja a de adotar uma ideia de base média de valores. Você assume para si que não sabe exatamente qual é o momento certo para entrar no mercado de ações, mas decide por começar a investir mesmo assim. A partir da data definida por você, todo mês irá colocar uma pequena quantia no seu portfólio. Alguns investimentos você fará quando o mercado estiver mais alto, outros ocorrerão quando estiver mais baixo, mas você estará decidindo que, no primeiro dia do mês, você investirá uma determinada quantia.

Assuma que, provavelmente, você nunca atingirá o ponto exato de entrada ideal no mercado de ações, mas pelo menos estará criando o hábito de investir.

Como pensarmos nas nossas finanças para nos tornarmos psicologicamente mais estáveis?

Comecei essa discussão dizendo que o momento em que vivemos é difícil. A flutuação e as incertezas são complexas e prejudiciais. Cada um de nós precisa se perguntar quanto de dinheiro precisamos ter em nossas economias de emergência para nos sentirmos um pouco mais seguros. Portanto, se você sentir que tem o suficiente, vá em frente e invista, mas se achar que precisa desse dinheiro em sua conta de emergência, mantenha-o lá. Pode não ser a coisa mais ideal do ponto de vista de um retorno financeiro, mas nossa estabilidade psicológica também é fundamental.

Sentir-se um pouco mais seguro e um pouco menos preocupado é tão importante que, mesmo se você tiver uma perda percentual no seu ganho, o esforço valerá a pena.

Tenho sorte de ainda ter um emprego, mas meu salário foi reduzido em 20%. Como devo me ajustar?

Vinte por cento é um grande corte, você não pode cortar tudo em 20%, certo? Você não pode reduzir seu aluguel, eletricidade etc. em 20%. Um corte de 20% significa reajustar muitas coisas. E o tempo de coronavírus é muito difícil, mas uma das coisas que está nos dando é a oportunidade de reavaliar quais são as coisas que de fato nos trazem alegria. Por exemplo, tenho certeza que você está comendo menos fora, seus padrões de gastos mudaram.

Eu examinaria suas despesas e talvez entenderia esse como um bom momento para avaliar o que realmente lhe traz felicidade. Com isso, criaria um novo orçamento com a restrição necessária de 20%, mas garantindo coisas que lhe trará alguma felicidade e prazer.

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