Dia a Dia

Quem é você quando ninguém está olhando?


Ser ético é bonito, fica bem na foto, compõem bem um vídeo e nos inspira a postar aquelas frases ótimas que a gente pega de algum lugar, achando que é de determinado autor mas pertence a outro. Sentimos o ego massageado, fortalecemos o sentimento de pertencer ao grupo dos civilizados cheios de cultura e, de brinde, nem precisamos ser, bastar parecer. Somos, sim, a sociedade do que importa é a aparência.

Os gregos têm um conto muito interessante: um boníssimo camponês encontrou um tal anel que dava o poder da invisibilidade a seu portador. No fim da história, o boníssimo camponês estuprou a rainha e matou o rei, tudo sem deixar marcas ou testemunhas.

Certamente um conto moral da série “E quando ninguém está vendo…” Quem afinal de contas é você quando ninguém está olhando, O que você faz quando tem a certeza que não vai deixar marcas ou sua ação não terá consequências para si? Sabemos do mais do mesmo: você tem sua própria consciência, sua educação e moral, além de sermos tementes a Deus que tudo ver e conhece o coração do homem. Assim a pergunta moral do conto grego esvazia-se nos argumentos furtivos de sempre.

Afinal, não existem anéis mágicos. Pos… até que criamos as redes sociais e o zap zap. Uma espécie de anel mágico 4.0. Necessário dizer que de uma certa forma cada pessoa que tem uma conta na rede social ou que tem um número de “zap zap” é um micro Roberto Marinho, podendo fazer o que quiser com o seu microimpério de comunicação.

Por exemplo, repassar fake news e compartilhar discursos de ódio. E a gente ainda pode dar a nossa versão do “Nós erramos” dos jornalistas. “Não sabia que era uma fake news.” Na maioria dos casos é verdade, verdade também que em nenhum momento você pensou em pesquisar a fonte da informação e já foi repassando. Melhor que a ficção, nosso anel mágico digital tem outro poder que os pobres gregos não pensaram: ampliar o ego do usuário e aí eu que sou um Pacato Cidadão posso virar um leão, posso constranger, ameaçar, julgar, condenar.

Ou então, aquele ser escroto consegue, nas redes e só nelas, transforma-se no Mahatma Gandhi digital. E para aonde vai a ética? Ela vai mal. Medimos nossa ética só quando a situação concreta se apresenta. Muitos se dizem humildes e valorizam a humildade. Mas ser ou parecer humilde quando não se tem poder é mais questão de sobrevivência que ética.

A prova dos noves aparece quando temos poder. Aí estamos livres e empoderados para escolher tratar as pessoas dignamente e respeitar as normas ou o ‘manda quem pode…’. Poder nos dar liberdade, inclusive e, frequentemente, para oprimir os mais fracos.

A Ética ou “Eu posso, mas devo?” – dos filósofos chama-nos à ação. E o Papa Francisco colocou isso tão bem em ”Talvez hoje nos faça bem perguntar a nós mesmos: sinto compaixão? Qual sua resposta?

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Cláudio Fernando

Formado em administração de empresas, pós graduado em economia e relações internacionais, mestrando em gestão ambiental pela universidade de Ribeirão Preto e professor universitário nas áreas econômicas

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