Dia a Dia

Se necessário, vá sozinho


Um amigo tem uma fábula sobre a glória que ilustra bem a condição de pessoas que se destacam em alguma atividade. “Certo trabalhador cortava lenha perto da montanha. Diziam que em seu topo havia prazeres e tesouros imensuráveis.

O homem olhou pra cima, desejoso, até que apareceu a Glória. Refeito o susto, ele suplicou pelos favores dela, que asseverou: Todos podem desfrutar das minhas bençãos, só é preciso subir. Então, possúido por uma onda de excitação febril, ele atacou a montanha e foi subindo. Mesmo com medo da queda, mesmo os ferimentos com a subida se acumulando, não se deteve.

Até que resolveu olhar para baixo, e um frio atacou seu coração quente. Não foi a altura, mas a consciência que a vila, todos os seus, estavam agora cada vez mais longe. Quando olhou de novo, vacilante, para seu objetivo: o topo, a Glória pairava outra vez acima dele.

Chegar ao topo significa deixar coisas para trás, pessoas para trás, disse ela já em tom severo …” A história prossegue, mas quero a questão suscitada. Você está pronto para isso? Porque frequentemente é assim mesmo. Não importa seu objetivo, pessoas te criticarão, outras puxarão você para trás, há as sanguessugas e os abutres. E você terá que escolher todo o tempo entre ser amado, ou seja, atender as necessidades e expectativas das pessoas; ou seguir com seus planos.

O caminho da realização é solitário, funciona como um funil na melhor das hipóteses, porque muitas vezes é estreito desde o primeiro passo. Quem nunca se viu criticado por um projeto só de falar sobre a ideia? Pior, e quando a turma do deixa-isso- pra-lá vence e ri como hiena ao ver você estatelado no chão?

Sim, porque correr atrás de seu sonho não é garantia de nada. Qualquer um pode mesmo subir a montanha, não quer dizer que conseguirá chegar lá no topo. Chegando ou não, a verdade é que esta viagem é solitária até quando pensamos em um grupo. Quantas bandas se despedaçam pelo caminho e saem com aquela “Vamos dar um tempo para focar em projetos pessoais”.

Sim, você pode escolher a multidão, nada te impede. Mas sempre haverá aquela voz incomoda a te lembrar: E se… ? É como um chamado. Um edito da vida, do destino, de Deus: vá e faça. Não quer dizer que ela deixará de te pregar peças. Mas ela chama com veemência. Do garoto com uma guitarra embaixo do braço à sexagenária que resolveu voltar à faculdade e terminar o curso abandonado por ‘amor’, pelos filhos, pela família. Realização nunca teve a ver com dinheiro, status, é só um chamado, só uma maneira de estarmos em paz conosco mesmos.

Como uma vocação. Você não precisa viver dela. Mas viver para ela. Este amigo mesmo, o dono da fábula, é um pão-duro. E veja a vida a pregar peças, logo ele gasta suas economias para terminar um filme. Por quê? – pergunto. Ele dá com os ombros.

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Cláudio Fernando

Formado em administração de empresas, pós graduado em economia e relações internacionais, mestrando em gestão ambiental pela universidade de Ribeirão Preto e professor universitário nas áreas econômicas

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