Dia a Dia

O novo sempre vem



Atlas, junto com outros titãs, tentou tomar o poder dos deuses do Olimpo. Zeus o condenou a sustentar nas costas o universo ou o mundo. Já entendemos que isso foi a punição de Atlas. E você, por que carrega o mundo? Não é do que reclamamos? Que estamos sempre com uma carga nas costas.

Que se morrermos não se sabe que será do mundo? Ao menos pensamos assim, acumulando raiva e rancor / Amando o próximo / Dizendo a verdade / Se arrependendo / Dando a outra face. Como cantam os Titãs… olha que cínica coincidência. E vamos contando os dias para que todos percebam o quanto fizemos por eles, o quanto somos fundamentais.

Um amigo já idoso postou dia desses que o velório é o local onde a família reconhece tudo o que fizemos pra eles, já tarde demais. Meu amigo passa por problemas comuns e, praga de nossa época, desabafa no virtual. Concordo com a colocação dele, mas ele está sendo otimista, porque o velório acaba e a vida segue. A grande questão é para que carregamos o mundo?

Ele parece ter girado perfeitamente nestes últimos 5 bilhões de anos, e olha que a humanidade só apareceu há 100 mil anos. Sim, o mundo anda bem sozinho. Sim, as pessoas permanecerão depois que nós morrermos. Sim, a empresa, a instituição, o time, a arte, seu ex ou sua ex seguirão em frente depois que você se for. A fila anda no tempo dela, não adianta ter pressa.

Podemos ver este fato como uma condenação, um atestado de nosso minúsculo tamanho comparado às coisas. Mas também é um ato de liberdade. Hoje as pessoas estão tentando legislar a vida de todo mundo, o que falar, o que vestir, o que pensar, o que seguir. “O mundo está perdido, os jovens em perigo, a política corrompida (esta é verdadeira desde a Grécia)”, ao mesmo tempo queremos liberdade, nossa vida é coisa nossa.

Será que esta fome de controle não significa que temos medo de perdê-lo e desenvolvemos a fantasia de controlar os outros para não parecermos tão frágeis? Ainda não evitamos a chuva, mas temos capas e guarda-chuvas e muita resiliência, afinal é dilúvio atrás de dilúvio.

E esta fantasia de controle tem um efeito colateral mais perverso: ficamos doentes, paranoicos e sentidos com a falta de consideração da humanidade. “Gente, eu estou apenas salvando o mundo, demonstrem ao menos respeito!” Acumulando raiva e rancor. Ver alguém feliz então é um insulto. “Como ele pode rir enquanto me sacrifico tanto?” O mundo é ingrato, tem suas pautas e segue sem olhar para trás.

A juventude então, nem aí para a tradição, aquela que você também não estava nem aí na sua mocidade. Pensemos por um segundo: Se o mundo pode continuar sem mim, por que mesmo eu o carrego? Assim eu posso viver com leveza, isso não significa ser irresponsável ou niilista. Significa assumir a parte que nos cabe, lembram da fábula do beija-flor e do leão?

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Cláudio Fernando

Formado em administração de empresas, pós graduado em economia e relações internacionais, mestrando em gestão ambiental pela universidade de Ribeirão Preto e professor universitário nas áreas econômicas

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