Dia a Dia

O que tem feito da sua vida?



Há uma contradição persistente nas pessoas: ao mesmo tempo em que elas só pensam em si mesmas, depois ampliam a mesquinhez e o umbiguismo a seus pais, sua família, suas posses, seus amigos, sua turma; elas se sentem vazias.

Um vazio culpado, pois elas têm tudo. Um vazio que assombra como uma condenação. E aí vivem num círculo vicioso. Consomem para preencher este vazio, mesmo sabendo que em algum momento o eu e o vazio vão se encontrar, nem que seja durante os sonhos ou pesadelos.

Entrar para alguma religião não resolve o problema quando o suposto fiel acredita que o sagrado é instância de barganha: eu me submeto a sua vontade desde que eu ganhe isso ou aquilo, ou seja perdoado daquela falta, que repetirei, repetirei, repetirei. Estes maus fiéis escarnecem da fé.

Assim o vazio bate com mais força e frequência. Procuremos a essência deste vazio então em outro lugar. Alguns intelectuais e líderes religiosos afirmam que o ser humano é um ser transbordante, que ele é maior que sua vida. O sentido final do homem é fazer algo além de si mesmo.

Sua finalidade é dar uma finalidade a sua liberdade. Ou livre-arbítrio. O fato de pessoas ricas sentirem-se vazias e incompletas parece referendar esta ideia. Afinal de contas? Qual seu grande plano? Não estou falando de autossalvação, isso é umbiguismo.

O que você deixará para o mundo? Albert Sabin deixou a vacina, o seu Mário deixou uma árvore para quem quisesse se proteger à sombra dela. Não é o tamanho, é a capacidade de se doar sem posts ou textãos. Desculpem-me todos os seres medíocres e suas comendas e títulos acadêmicos ou de qualquer natureza honorífica.

Há algo de estranhamente humilde e belo em alguém que dá um presente a pessoas que ainda nem existem. Sei que é difícil, também sou humano, também tenho umbigo. Também exercito o eu, eu, eu, eu e em um exercício patético de falsa humildade, exercito o meu, meu, meu. Como diz aquele pensador, o outro é sempre aquele que a gente não deseja.

Mas dificuldades à parte, parece que não há outro caminho, porque o vazio está aí, ó, dentro de você, dentro de nós. Se bem que colocando uma lupa ou olhando-o com honestidade, ele não é o nada, ele é uma acusação em forma de simples pergunta: Que tem feito de sua trajetória? E a pergunta é mais amedrontadora quando sabemos que assim como Caim, quem pergunta sabe a verdade.

Não somos Deus, claro, mas sabemos de nós. Alguns falarão que pensar em deixar algo para o mundo como símbolo de nossa grandeza é só egoísmo mal disfarçado de nobreza.

Concordo. Mas o acusador não nos pergunta o que temos feito de grande. Ele quer saber o que fazemos de nossa vida. E vida só se vive com o coração, que até pode nos fazer errar, nunca fingir. Que tem feito de sua vida?

Continue lendo

Cláudio Fernando

Formado em administração de empresas, pós graduado em economia e relações internacionais, mestrando em gestão ambiental pela universidade de Ribeirão Preto e professor universitário nas áreas econômicas

Artigos relacionados


 
Botão Voltar ao topo