Dia a Dia

Qual idade você quer ter até o dia da sua morte?

Quem tem medo da velhice? Quem quer ser jovem para sempre? Sabemos que é desejo irrealizável. Mesmo que um dia a ciência nos traga a tal juventude eterna, aí um lugar-comum se tornará realidade: Juventude é um estado de espírito. Há um frescor e uma inconsequência na juventude que se apaga com a idade.

A experiência transforma leveza juvenil em sabedoria e, consequentemente, em responsabilidade, nada é mais impune. Vamos morrer, fato. Envelhecer é o processo, se tivermos sorte.

A morte precoce está sempre à espreita. O problema está em outro lugar, muitas pessoas têm medo da velhice por temer sua subsistência. A questão não é a velhice, mas a possibilidade da pobreza.

Outras parecem ter problemas para passar o bastão, prática muito comum por pessoas que são referências em movimentos culturais, ou instituições sociais, eternas presidentes e gurus, não querem dar chance ao novo. E estou dizendo ao novo mesmo, logo, a alguém que mais que ter ideias contrárias, tenha ideias e visões completamente novas, que ponham abaixo tudo que foi construído pelos que o precederam.

Não lembro quem declarou algo assim: “O compromisso da juventude é trair os que a precederam”. Quem não quer largar o osso, quem não entende que o mundo passa, mais que temer a velhice, teme perder poder. Tem medo de que sua herança não se eternize. Isso tem muito a ver com poder.

Mas um terceiro grupo tem tão somente medo de perder aquele frescor da juventude e vive intensamente e na negação. Curiosamente vivem, logo, envelhecem. Não há droga, síndrome de Peter Pan, discurso ou produtos que parem o processo.

Não adianta acreditar que os filhos continuarão sua obra, os filhos têm suas prioridades, assim como tivemos as nossas. Este medo do correr do tempo é perigoso e tragédia anunciada, pois em algum momento nos daremos conta que ela chegou. A velhice tão temida esteve sempre à espreita, quieta, paciente.

Não há ilusão, não há negação, pois isso denunciará um velho gagá. Agora é sentar-se e olhar pra trás: o que foi feito de nossas vidas? O que plantamos? O que ficou? Qual nossa herança? Fomos amados? Não há mais tempo para fantasias. No fim, estamos de novo sozinhos, como no nascimento.

Corrijo-me, estamos de novo sozinhos com nós mesmos. No fim, responderemos àquela pergunta lá do início: Qual o meu lugar no mundo? No fim, estaremos a ponto de descobrir o grande mistério. Há o outro lado? Como ele é, onde ele é? Ou será apenas o fim.

A não existência. Não haverá mais dor nem luta, nem dúvidas filosóficas, também não mais vida. No fim, a vida foi aquilo que nós fizemos, quem amamos, os caminhos percorridos. Talvez permaneçamos vivos nos corações conquistados em nossa trajetória. Pendurados na memória coletiva e nos monumentos, que também chegarão ao fim. No fim, o caminho é o que importa.

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Cláudio Fernando

Formado em administração de empresas, pós graduado em economia e relações internacionais, mestrando em gestão ambiental pela universidade de Ribeirão Preto e professor universitário nas áreas econômicas

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