Cidadania e Direitos Humanos

O difícil processo de ser gente grande


Muitas vezes a vida nos prega peças. Num momento, estamos vivenciando uma espiral positiva, com alegria e muitas coisas boas acontecendo. De repente, algo subitamente nos tira o chão, o rumo, o prumo e, dependendo de sua força – espiritual, mental, física e afetiva – a sanidade.

Vários são os caminhos que nos levam a este turbilhão de emoções, como uma montanha russa: insatisfação no trabalho, na vida afetiva, na econômica ou um mega pacote combo e sortido; a própria pandemia atual da COVID – sorrateira, confusa, imprevisível e solitária; abalos na relações humanas – seja por ruídos, por ausência de saúde, enfim!

Quem nunca passou ou está neste momento passando por isso ? E, num momento de pedido de socorro, vê o mundo desabar, as pessoas se afastarem ou simplesmente te ignorar … Será o fim dos tempos ? Não … Isso se chama vida!

Somos criados para viver de forma plena, com amores duradouros, empregos ou trabalhos para além do simples ganha-pão, relações familiares harmônicas e amizades perfeitas. Qualquer movimento fora destas expectativas é intolerável ou inaceitável.

Sem contar nos prazos a serem cumpridos, de forma velada mas com cobrança real: até a adolescência, sem muitas expectativas; na primeira fase da juventude, a necessidade de ter definida uma carreira; até os 30 anos, questionamentos pelo possível não casamento, a não definição de uma profissão, a ausência de bens materiais para provar a sua competência – casa, carro ou outros bens, dependendo da sociedade em que vivemos.

Após os 40 anos, o reforço da cobrança de todas essas expectativas, além da inevitável entrada para a decadência física. Aos 50, apesar de você cumprir com algumas “metas”, fizer um movimento de reavaliação de regras, como a de que a manutenção de relações – afetivas, sexuais, emocionais – são uma via de mão dupla ou que solidão acompanhada não é uma solução e decide viver uma carreira solo, aguardem as reações!

Ufa ! Que modelo cruel de existência! E o que fazemos com os nossos desejos e escolhas individuais ? E a possibilidade de aprender com os erros ? É ruim desejar um reconhecimento, uma estrelinha na testa pelo bem feito a outrem ? Essa história de “fazer o bem sem olhar a quem” é assertivo quando o receptor do bem compreende a palavra reconhecimento.

E quando nos deslocaremos do senso comum, nas regras impostas socialmente ou camufladas em conselhos e valorizaremos qualidades como maturidade, empatia, amor próprio e gratidão ? Vale a pena rever seus conceitos.

A maturidade é um conjunto de qualidades e habilidades necessárias para lidar com os desafios de uma fase específica da vida. Assim, não aparece só na velhice e está relacionada ao aprendizado vindo dos desafios passados.

Como dizia Shakespeare, na sua obra “O Menestrel”: “(…) maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas do que com quantos aniversários você celebrou.”
Já a empatia, recentemente a elegi como a palavra mais importante neste momento. É a nossa capacidade de se colocar no lugar do outro. Isso ocorre para entender o que sentiríamos se estivéssemos na mesma situação.

Muitas vezes temos grande dificuldade de exercer.

Criticamos a vida alheia com muita rapidez e pouco refletimos se as nossas palavras e julgamentos machucarão outras pessoas, esquecendo que nem sempre a nossa própria vida está aquela maravilha !

O amor próprio refere-se a um estado de apreço por si mesmo e que provém de ações que nos ajudam a crescer psicológica, física e espiritualmente. Vem do amadurecimento, do fortalecimento da autoestima e do autoconhecimento, que nos permitem identificar nossas forças e fraquezas, e aprender a lidar com elas. Caso você dependa exclusivamente do reconhecimento de seu valor por parte de outras pessoas, com certeza há algo errado.

Por fim, a gratidão ! Que palavra sublime, tantas vezes citadas e tão incompreendida ou impraticada ! Para falar sobre ela, partiremos do “Tratado sobre Gratidão”, de São Tomás de Aquino. A obra ensina que existem três níveis de gratidão: um nível superficial; um nível intermédio e um nível mais profundo.

O primeiro trata sobre os níveis de reconhecimento intelectual, notado a partir do nível cerebral, por meio do nível cognitivo do reconhecimento. O segundo, está vinculado ao agradecimento, ao dar graças a alguém por aquilo que se fez para a gente. Por último, o terceiro nível do agradecimento é o relacionado ao vínculo e comprometimento com quem praticou o bem.

Diante disso, proponho que façamos um exercício para que o nosso processo de transformação seja mais efetivo. Que tal seguir os 10 pontos listados abaixo com verdadeira dedicação ?

1. Entender que, o que é verdade para você não necessariamente é para o outro e aceitar as diferenças;
2. Ter claro a realidade e os valores das pessoas que compõe sua vida;
3. Investir no autocuidado antes de cuidar de alguém, além de se dedicar ao autoconhecimento;
4. Valorizar a individualidade de cada pessoa, já que somos únicos;
5. Praticar verdadeiramente a escuta ativa. Não é sempre sobre você e aceite que nem sempre terá o que falar;
6. Julgar jamais as pessoas pelas ações, sem direito a defesa ou explicação. É insensível;
7. Verificar a linguagem corporal. Seu corpo realmente fala por você;
8. Ser empático até com quem te irrita, exercendo a tolerância e disposto a mudar de opinião;
9. Pensar em ajudar as outras pessoas de forma despretensiosa. Caso tenha alguma intencionalidade, prepare-se para diminuir a desilusão;
10. Refletir sobre as suas verdadeiras motivações sem a obrigação de agradar a sociedade. A verdade liberta !

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Luiz Eduardo

Mestre em Ensino em Ciências da Saúde pela UNIFESP/SP. Consultor Técnico do Instituto Joana d’Arc (Guarujá/SP). Especialista em Gestão de Políticas Pública pela ENAP (Brasília/DF). Militante e Consultor em AIDS, Sexualidade, Direitos Humanos e Cidadania.

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