Cidadania e Direitos Humanos

BBB21: Homofobia, desresponsabilidade e as lições a serem (des) aprendidas


Apesar de o Big Brother Brasil (BBB) ser um programa de entretenimento consagrado com altos índices de audiência e acompanhado por milhões de pessoas, tenho minhas ressalvas e raramente assisto. Acho o formato de “vitrine humana” um tanto perverso. Porém, não posso negar que, de vez em quando, sou vencido pela máxima “vamos dar uma espiadinha”.

Há pouco tempo, deparei-me com a atitude um tanto controversa de um dos participantes, Rodolffo. Não sei de seu histórico na casa ou na vida – realmente não me interessa – mas por conta do discurso por trás do ato tenho que abrir um parêntese já que atinge aquilo que luto e acredito: o respeito a orientação sexual, identidade e performance de gênero.

Nas vésperas de uma das festas do BBB, ao receber um vestido da produção para o evento, Rodolffo disparou a frase: “Alá, mandaram um vestido pro Fiuk”. Mesmo com a afirmação por parte do Fiuk que curtia a vestimenta, pedido para não fazer pouco caso e contando com o apoio do Gilberto, LGBTQIA+ assumido, Rodolffo continuou: “Como que leva um menino desses para as boates lá em Goiânia?”.

O desenrolar dessa história foi o posicionamento contundente de Gilberto e Sarah contra o comentário enviesado de Rodolffo, a fúria de Fiuk e a sua indicação para o paredão por parte de Gilberto, líder naquele momento.

Percebendo a possibilidade de ser execrado pela audiência, Rodolffo se colocou à disposição para pedir desculpas ao Fiuk pelo seu comentário machista, homofóbico e em tom vexatório.

O pedido saiu, mas pela culatra: ao invés de assumir a sua culpa e pedir perdão, reforçou a sua dificuldade com o assunto em razão de sua criação, alegando que sempre conviveu com pessoas “racistas, homofóbicas e machistas”.

Depois, reclamou sobre a falta de paciência das pessoas da casa e fora dela, em ensinar o que é certo e errado a respeito do tema e como se comportar em sociedade.

Ficou claro que a formalização de tal pedido teve um objetivo claro: a de “limpar a própria barra” e não o de assumir que reforçou um pensamento arcaico.

Aliás, as críticas de Rodolffo a Fiuk por usar saia são extremamente machistas, mas infelizmente refletem o pensamento de grande parte da sociedade que precisa efetivar urgentemente mudanças de paradigmas.

Nesta análise, jogamos luz diretamente aos preconceitos velados, disparados em brincadeiras jocosas que ferem, machucam, humilham e tentam diminuir os indivíduos com a correlação de seus desejos e gostos como sinônimo de defeito.

E aqui estamos falando apenas do olhar sobre as vestimentas. Quando fazemos correlação entre o masculino e o feminino, papéis sociais e relações de poder, a situação ganha enormes proporções.

Alegar que as pessoas “mais esclarecidas” tenham obrigação de ensinar sobre qualquer tema é tentar se desresponsabilizar de seus atos. Nos dias atuais ser preconceituoso é uma escolha.

Existem diversos meios e formas de se obter informações, como na TV, nas redes sociais, em mídias especializadas sobre a temática ou junto aos militantes que erguem suas bandeiras para a defesa das minorias que lutam por direitos igualitários.

No entanto, mais emoções estavam por vir. Mesmo indicado ao paredão pelo Gilberto, com justificativas certeiras, causando espanto ao indicado e sua convicção de que seria eliminado por conta do episódio, há uma reviravolta e é poupado de sua saída por uma diferença de pouco menos de 0,5 % dos votos da escolhida pelo público.

Apesar de não verbalizado, o “Brother” voltou deste paredão com a sensação de que estava correto e tratando os ofendidos como “mimizento”. Triste contradição e oportunidade perdida para uma reflexão mais apurada sobre o assunto.

E aqui não estamos polemizando a penalização por meio da exclusão mas a perda da possibilidade de que este programa possa ser um local para discutir esta questão de forma realista, já que afeta direta ou indiretamente milhões de pessoas.

Gilberto teve a capacidade de fazer com que ao menos o público promovesse um debate sobre os motivos de seu gesto. Só este ato possui um valor inestimável e entra para os anais da luta LGBTQIA+ no BBB por respeito.

As edições anteriores já demonstraram que o BBB vai para além de um jogo. É um espaço perfeito para promoção de discussões sobre misoginia, violência contra mulheres, preconceito contra homossexuais, relacionamentos tóxicos, racismo, xenofobia, intolerância religiosa, machismo, dentre tantas mazelas, pois representa a sociedade por meio de seu grupo – ou microssociedade.

Assim, por conta deste episódio, o BBB revela muito sobre o nosso Brasil atual. Mostra sobre as posturas erráticas de nosso presidente, que desconstrói falas, ignora o significado de empatia, instaura a política do “e daí”, das Fake News, das mudanças repentinas de opiniões – muito mais para ficar “bem na fita” do que sua crença.

É a opinião distorcida de seus familiares, dos colegas de trabalho, da perpetuação das piadas de mau gosto. E quando há a reação daqueles que se sentiram atingidos ou ofendidos, suas reclamações são minoradas como pequenos “queixumes” ou “chatices”, seus pedidos de respeitos e gritos de alerta são abafados, diminuídos ou responsabilizados como “sem paciência para ensinar”.

De minha parte, percebo que a grande maioria da população não está disposta a mudar, pois consideram ser cansativo e desnecessário, mantendo seus conceitos deturpados e, por consequência, que seus privilégios continuem intactos.

A saída ou não de Rodolffo nem me importava tanto já que, neste mundo, sua postura não é uma exceção mas regra. Nosso desejo é que aprenda a lição e não cometa mais erros semelhantes. Mas, ao cometer, por conta do processo de aprendizagem, que reconheça suas atitudes e não tente ser vítima ou culpabilizar os outros. Isso se chama hombridade.

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Luiz Eduardo

Mestre em Ensino em Ciências da Saúde pela UNIFESP/SP. Consultor Técnico do Instituto Joana d’Arc (Guarujá/SP). Especialista em Gestão de Políticas Pública pela ENAP (Brasília/DF). Militante e Consultor em AIDS, Sexualidade, Direitos Humanos e Cidadania.

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