Cidadania e Direitos Humanos

A importância das benzedeiras e rezadeiras no passado e presente



Quem nunca, na sua infância, precisou dos cuidados e atenção de uma benzedeira ou rezadeira ? Quem nunca fez uma pequena promessa, fez uma simpatia ou deu três pulinhos para que São Longuinho ajudasse a achar algo perdido ?

Num passado distante, as benzadeiras e rezadeiras ocupavam um importante papel na atenção a população em geral, com maior inserção nas comunidades com carências diversas, como
as favelas e demais espaços com ausência do poder público.

Mas elas podem ser consideradas relevantes para as políticas públicas ? A temática rezas e benzimentos no contexto das políticas públicas ainda é um campo pouco explorado e causa um certo estranhamento na medida em que, mesmo com quase quatro décadas de estudo, o componente espiritualidade configura num campo restrito aos cuidados em saúde em detrimento aos demais campos das políticas.

Para melhor entendimento, benzimento corresponde a “uma linguagem oral e gestual com a qual as pessoas detentoras de saberes e de poderes especiais expulsam as forças que perturbam a vida harmoniosa do ser humano”. Já às rezas são um “conjunto de orações e benditos rezados nas peregrinações religiosas”.

Historicamente, o benzimento no Brasil teve seu início em meados da época colonial (Século XVII) e o ambiente precário facilitou a sua difusão, devido à ausência ou pouquíssima presença de médicos, cirurgiões e remédios.
Assim, auxiliou na disseminação da cultura sobre o uso medicinal de plantas, raízes e orações, de forma oral, contando na época com a crença em lendas e outras crendices.

A prática do benzimento surgiu com a junção de ritos e sincretismo de um povo misturado desde o descobrimento do Brasil, como os indígenas (pajés); dos portugueses e espanhóis (jesuítas e católicos) e africanos (curadores e líderes espirituais).

Atualmente, outras religiões e filosofias de vida adotaram a prática, como os kardecistas, umbandistas, candomblecistas, esotéricos, terapeutas holísticos e, por incrível que pareça, os pentecostais. Com essa mistura, surgiu uma diversidade de rituais, significados e prática, modernizando sua concepção sem esvaziar a essência da tradição do ritual.

A maioria das benzedeiras são mulheres, mas há homens, ainda que em menor número. Em comum, há o aprendizado desta prática com familiares.

Desde o surgimento do Sistema Único de Saúde (SUS) há a existência das Práticas Integrativas e Complementares (PIC) na atenção básica. Oficialmente, conta com 34 especialidades, que vão desde homeopatia, arteterapia e reflexologia até constelação familiar, cromoterapia e ozonioterapia.

Porém, embora existam práticas que utilizam aspectos da espiritualidade na sua execução, como o reiki e a imposição de mãos, os benzimentos e rezas não constam entre as especilidades oferecidas pelas PIC, assim como às terapias tradicionais indígenas e afro-brasileiras, apesar de sua semelhança.

Os praticantes de benzimentos e rezas localizam-se geralmente em núcleos urbanos mais populares e, por conta do olhar desconfiado ou descrente da sociedade, oferecem seus serviços e se instalam nas regiões mais pobres, local onde as desigualdades, vulnerabilidades e ausência do poder público e de suas políticas públicas são gritantes.

Ao reconhecer o importante papel das benzedeiras e rezadeiras com a sua inclusão no processo de formulação e execução de políticas públicas, alguns municípios potencializam os bons resultados de suas ações. No Estado do Paraná destacam-se duas cidades (Rebouças e São João do Triunfo) que, por meio de promulgação de leis específicas, reconhecem as benzedeiras e rezadeiras como agentes de saúde pública.

Em Maranguape (CE), a gestão local incluiu as benzedeiras e rezadeiras na atenção básica de saúde, em conjunto com os médicos de família. Desse modo, alcançou resultados positivos no combate à mortalidade infantil e suporte as mulheres que deram à luz há bem pouco tempo, visto que as benzedeiras e rezadeiras conhecem a realidade da região em que vivem, utilizando ervas, rezas e outras práticas.

Em Guarujá, não há uma estimativa da quantidade de benzedeiras e rezadeiras existentes no município, nem como se dá a sua inserção nas políticas públicas locais. A existência atual da prática é baixa e encontra-se espalhada por diversas localidades, sem reconhecimento formal. Porém, de acordo com as falas dos moradores mais antigos do município, citam a sua importância, no passado e presente, para os cuidados de algumas doenças e de “coisas da alma”.

O seu papel social e suas ações são, de forma inconsciente, equiparados as estratégias de atenção vigente nas diversas políticas públicas, como as relacionadas a Saúde, a Assistência Social, a Educação, ao Meio Ambiente e a Cultura, com caráter transversal.

Ainda, as benzedeiras e rezadeiras são lideranças comunitárias, para além de lideranças religiosas ou tradicionais, pois estão atentas as necessidades da população que as procuram e falam sobre suas necessidades e demandas, por meio de promoção de acolhimento, aconselhamento, escuta e cura, visando o bem-estar da comunidade assistida.

Mas ainda há espaço para elas nos tempos atuais? Sim. Mesmo que o mundo moderno e patriarcal tenha afastado o homem do simples, do natural. Infelizmente, as bisavós, avós e mães já não tinham mais para quem legar o ofício, para quem ensinar a benzer. Seus bisnetos, netos e filhos não queriam aprender.

Ao fazer uma busca nas redes sociais, observamos que há um grande movimento de resgate dos ofícios tradicionais, dos processos de cura e das práticas de medicina popular, por meio da oferta de cursos de benzedeiras. Recentemente, ao pesquisar pelo termo “curso de benzedeira” tivemos como resposta 1.420 resultados.

Respondendo a pergunta acima, há um indício de que os ofícios tradicionais das benzedeiras e rezadeiras estão modernizando a sua forma de transmissão de saberes e garantindo a sobrevivência de tão nobre prática, por meio do resgate da ancestralidade, trazendo para a atualidade, novamente e sempre, o divino poder de ajudar o próximo.

Até os dias de hoje as simpatias são praticadas. Algumas grávidas ainda colocam tesoura aberta debaixo do colchão para diminuir as câimbras nas pernas; pessoas que têm medo de relâmpago fazem uma cruz de sal grosso e pedem para Santa Bárbara levar a tempestade ou rezam a Santa Clara trazer de volta o Sol, com a oferta de ovos. E saltar as ondas do mar ? E vestir cores em datas específicas do ano ? Se você acredita em uma dessas “crendices”, qual a dificuldade em aceitar a prática das benzedeiras e rezadeiras ?

Portanto, reconheçamos o importante papel desses seres que abdicam de suas vidas para o bem maior. Que as políticas públicas as incorporem seus conhecimentos e sua sabedoria para fortalecer as ações junto a população. Viva as Albertinas, as Cidas, as Maria Camila, os Possidônios, os Sérgios, as Genuínas, as Sílvias, as Rosas, as Henriquetas, os Candeias que, em vida, salvaram tantas vidas. E reconheçamos e saudamos a nova geração que leva esse ofício com tanto amor !!!

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Luiz Eduardo

Mestre em Ensino em Ciências da Saúde pela UNIFESP/SP. Consultor Técnico do Instituto Joana d’Arc (Guarujá/SP). Especialista em Gestão de Políticas Pública pela ENAP (Brasília/DF). Militante e Consultor em AIDS, Sexualidade, Direitos Humanos e Cidadania.

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