Cidadania e Direitos Humanos

Wakanda, Pantera Negra e a sua grande contribuição para os Direitos Humanos.

No dia 28 de agosto de 2020, o mundo sofreu uma grande perda. O ator Chadwick Aaron Boseman, intérprete do herói Pantera Negra morreu aos 43 anos, após uma batalha de quatro anos contra o câncer colorretal.
Apesar deste ser seu grande marco nas telas, o ator vinha desempenhando diversos papéis relevantes com um forte olhar para os Direitos Humanos.

Na sua filmografia, constam 42 – A História de uma Lenda (2013), onde interpretou o jogador de beisebol norte-americano Jackie Robinson, primeiro jogador afro-americano da Major League Baseball na era moderna e que rompeu a “linha de cor” no beisebol.

Em Marshall (2017), deu vida a Thurgood Marshall que foi o primeiro juiz associado afro-americano da Suprema Corte dos Estados Unidos. Também é conhecido por ter atuado para garantir a independência do Quênia e ficou responsável por elaborar uma Carta de Direitos para a constituição do país, com a maior parte de seu texto inserido durante a sua oficialização em 1963.

Assim, ao analisar o seu currículo cinematográfico dá para perceber a sua atração por personagens cujas lutas pela garantia de direitos das minorias foram importantes.

Neste artigo, farei uma análise sobre o personagem Pantera Negra e a sua grande contribuição para os Direitos Humanos iniciando pela própria composição do herói.

O Pantera Negra é o primeiro super-herói de ascendência africana criado por uma grande editora de quadrinhos norte-americano, em 1966. Com isso, houve o início da desmistificação do padrão herói caucasiano e o reforço da importância da representatividade: ao nos enxergar em uma história, nos sentimos humanos e pertencentes.

Se uma sociedade só produz narrativas com poucas representações, certamente essa sociedade é desigual.
Como contextualização histórica, na década de 1960 surgiu um partido político nos Estados Unidos com foco na luta da população afro-americana pelos seus direitos civis: os Panteras Negras.

Fundado por universitários negros, surgiu como um movimento de combate à violência policial contra negros nos Estados Unidos e transformou-se em um partido político com um projeto revolucionário de combate à desigualdade contra os afro-americanos. Há alguma semelhança com a atualidade ?

Retornando ao longa-metragem, outra questão abordada é a valorização das tradições comunitárias em consonância com a tecnologia. Segundo o filme, há milhares de anos, cinco tribos africanas guerreiam quando um meteorito contendo vibranium, um metal fictício, caiu na Terra.

Um guerreiro ingere uma “erva coração” afetada pelo metal e ganha habilidades sobre-humanas, tornando-se o primeiro Pantera Negra. Ele une as tribos, exceto a tribo Jabari, para formar o Reino de Wakanda. Os wakandanos usam o vibranium para desenvolver tecnologia avançada e isolar-se do mundo, que acha que o país é uma nação do Terceiro Mundo.

Apesar da alta tecnologia utilizada naquele universo, alguns rituais são de tradição xamânica – envolvendo uso de substâncias psicoativas encontradas em ervas, cura, transe, transmutação e contato entre corpos e espíritos de outros xamãs (neste caso, dos Panteras Negras ancestrais), de seres míticos, de animais, dos mortos.

O princípio da equidade também faz parte do universo do filme. N’Jobu, tio de T’Challa, planejava compartilhar a tecnologia de Wakanda com pessoas de ascendência africana ao redor do mundo para ajudá-los a conquistar seus opressores. Morto, seu filho Erik Killmonger, considerado o vilão da trama, segue para concretizar o desejo do pai de um mundo menos desigual.

Apesar das razões justificáveis do vilão, há perda de foco em sua missão após conquistar o poder pois, depois de derrotar seu primo e ingerir a erva em forma de coração, Killmonger manda queimar as que restam. Tal ação nos lembra figuras históricas que, ao evocar motivação legítima para suas manobras são inebriados pelo poder e a figura tirânica aparece. Lembram de Hitler ?

Por fim, há o reconhecimento dos erros de estratégia de Wakanda. Ao esconder o seu poderio, por meio de isolamento e ocultação de sua opulência, de certa forma negou que pessoas de ascendência africana ao redor do mundo tivessem melhoria nas condições de vida, bem como no acesso a serviços e direitos.

Tendo uma fortuna estimada em mais de US$ 90 trilhões, o Pantera Negra é considerado o personagem mais rico da ficção de todos os tempos. Sua riqueza poderia aplacar boa parte das mazelas das pessoas negras, por meio de um projeto de distribuição de renda e vislumbrar uma possível superação do abismo racial.
No final, T’Challa estabelece um centro de ajuda humanitária no prédio onde N’Jobu morreu. Depois, aparece diante das Nações Unidas para revelar a verdadeira natureza de Wakanda ao mundo e pede para que sejam uma só tribo. Sua frase é histórica e remete a importância dos Direitos Humanos:

“Agora, mais do que nunca, as ilusões da segregação ameaçam a nossa existência. Todos nós sabemos a verdade. Mais coisas nos conectam do que nos separam. Mas em tempos de crise, os sábios constroem pontes enquanto os tolos constroem barreiras”.

Não há como deixar de citar a importância do empoderamento das mulheres no contexto da trama, como a generala Okoye, a princesa Shuri, a rainha Ramonda e a namorada de T’Challa, Nakia.

Nakia, espiã e guerreira, é a personagem que inaugura a consciência de T’Challa contra a precarização das condições de vida das populações afrodescendentes e negras, principalmente às mulheres, num chamamento para evitar a atual tendência de diminuir a importância das lutas contra as violências de gênero, raça e sexualidade, das políticas de migração e de combate à xenofobia.

Obrigado, Wakanda por nos lembrar da importância da aplicação dos direitos fundamentais, da democratização do poder e dos mecanismos de erradicação da opressão. Obrigado, Chadwick Boseman, por encarnar um personagem tão denso que nos incentiva a refletir sobre nosso papel no mundo e na necessidade de apostar em políticas de ação afirmativa de forma consistente.

WAKANDA FOREVER ! DIREITOS HUMANOS: NEM MAIS, NEM MENOS !

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Luiz Eduardo

Mestre em Ensino em Ciências da Saúde pela UNIFESP/SP. Consultor Técnico do Instituto Joana d’Arc (Guarujá/SP). Especialista em Gestão de Políticas Pública pela ENAP (Brasília/DF). Militante e Consultor em AIDS, Sexualidade, Direitos Humanos e Cidadania.

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