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Qual o equivalente para sororidade e dororidade no universo LGBT ?

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Aviso aos leitores: este artigo é o mais pessoal que escrevi nestes últimos tempos. Recentemente participei da live “COVID-19 em Guarujá e os impactos nos Direitos Humanos” e, dentre as discussões apresentadas acerca de políticas públicas para mulheres, surgiram duas palavras em nosso debate: sororidade e dororidade.
 

Fiquei bastante intrigado para analisar qual seria a diferença entre seus conceitos e, como um grande desbravador das relações sociais, mergulhei no universo das definições.
 

Sororidade, em sua concepção mais simplista, tem sido mais usada por seus contornos feministas e significa a união entre as mulheres ou a empatia e solidariedade real feminina, combatendo a rivalidade entre o gênero.
 

Na sua aplicabilidade, são representadas através de atos como não julgar por atitudes diferentes (roupa, corpo, relacionamentos ou comportamentos), valorizar a produção e o trabalho de outras mulheres, ofertar escuta e apoio sem pré-julgamento, abolir as rivalidades e competições desnecessárias, dar voz a mulheres que queiram expressar suas opiniões, bem como refletir o tom de suas críticas a outras mulheres, para não cair no machismo invertido.
 

Portanto, sororidade é a busca pelo fim das desigualdades e opressões históricas para que todas – e todos – possam alcançar seu potencial máximo com as mesmas chances. É criar uma rede de apoio entre as mulheres e estimular que sejam agentes de transformação na vida umas das outras. É exercitar um olhar mais humano e menos crítico para toda e qualquer mulher, independentemente de quaisquer vínculos.
 

Após esta pequena aventura, comecei a explorar o significado de dororidade. Fiquei espantado com os resultados, pois acreditava que era um sinônimo de sororidade. E tive a certeza que não.
 

Dororidade é a cumplicidade entre mulheres negras, visto que algumas dores são específicas da raça, como o racismo, as questões de classe, o próprio gênero, as fantasias sexuais, entre outras questões. Por isso a sororidade não alcança toda a experiência vivida pelas mulheres negras em seu existir histórico, já que sua dor é completamente invisibilizada.
 

Durante séculos, a sociedade não insere em sua estrutura as mulheres negras, colocando-as sempre nos lugares cultural e historicamente destinados para elas, como nos cuidados do lar e dos filhos dos patrões, nas religiões estigmatizadas ou, comumente, na cama. Atualmente, tais negações abrangem a violência obstétrica, a perda ou encarceramento dos seus entes queridos ou a versão moderna da casa grande e senzala.
 

Segundo Vilma Piedade, professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, pós-graduada em Ciência da Literatura, que se identifica como mulher preta, ativista, feminista, de Axé e faz parte da RENAFRO (Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde), “O feminismo precisa assumir abertamente a luta antirracista e dororidade é um passo importante no entendimento dessa necessidade. Não há democracia plena sem a inclusão das mulheres negras embutida na estrutura da sociedade”.
 

E vai além: “dororidade carrega, no seu significado, a dor provocada em todas as mulheres pelo machismo. Contudo, quando se trata de nós, mulheres pretas, tem um agravo nessa dor, agravo provocado pelo Racismo. Racismo que vem da criação branca para manutenção de Poder. Aí entra a Raça. E entra Gênero. Entra Classe. Sai a Sororidade e entra Dororidade”.
 

Não poderia ter uma explicação mais clara para demonstrar tais simbologias. Há sim diferença. E cai por terra aquela frase: “todas são mulheres. Ao priorizar umas em detrimento de outras, estamos desqualificando o conjunto”.
 

Assim, ainda banhando dos conhecimentos de Piedade, arrematamos estas pseudocríticas com sua constatação: “Dororidade. Sororidade. Não há dor maior ou menor. Dor não se mede. É de quem sente. Há dor. Dor dói e ponto. E a nossa dor é Preta. E a Pele Preta ainda nos marca e nos mata na escala inferior da sociedade”.
 

Diante dessa imersão, veio uma indagação: como importar tais conceitos para a população LGBT ? Afinal, as adversidades sofridas por este segmento e a falta de união ou empatia são similares aos conceitos apresentados nesse artigo.
 

Voltando às pesquisas encontrei um texto que trata sobre a Tardia Sororidade LGBT, onde citava a esperança de uma possível união do segmento antes, durante e depois da eleição do atual Presidente da República, por conta de suas posturas opostas aos conceitos tratados anteriormente.
 

Segundo o texto, a polarização de opiniões pós eleição apenas acirrou as disputas discriminatórias, inclusive entre esta parcela da população, contrariando o princípio de união e empatia. Termina lamentando o não investimento histórico em Sororidade LGBT que talvez pudesse ter evitado a posse do atual opressor da comunidade.
 

Após potencializar as minhas sinapses veio a seguinte autoindagação: Aonde caberia a Generosidade no contexto da população LGBT ? E lá vou eu novamente para a análise …
 

Generosidade é a virtude em que a pessoa tem quando acrescenta algo ao próximo e não se limita apenas em bens materiais, mas ressalta a nobreza e procura o bem-estar da sociedade. Uma vez que para exercitar a generosidade é preciso reconhecer a humanidade do outro, suas qualidades e limitações, e ainda assim considerá-lo merecedor do seu gesto legítimo de apreço.
 

Assim, precisamos ressignificar o conceito de generosidade para lançá-la ao universo LGBT, através da distinção entre as definições de sexo e gênero, a organização social, comportamental, representação de gêneros e expectativas sobre a relação entre os sexos. Ainda, revisitar questões como identidade de gênero, as orientações sexuais e a necessária quebra do padrão heteronormativo, usualmente aplicado nas diversas sociedades.
 

Depois dessa overdose positiva de informações, ouso cunhar um novo neologismo: a Generosidade, com a seguinte etimologia: Em latim, Genero é um conceito generalista que agrega em si todas as particularidades e características que um grupo, classe, seres, coisas têm em comum (ou seja, ser humano), da qual se soma ao sufixo -dade que significa pertencer a um grupo.
 

Com isso, a generosidade agrega a nova definição de um grupo de seres humanos que partilham as mesmas características: ser da mesma espécie. Ao fazer um mix dos conceitos de sororidade, dororidade e generosidade, temos a seguinte definição para a Generosidade LGBT:

 

“Generosidade LGBT é a busca pelo fim da heteronormatividade, das desigualdades históricas geradas pelo viés da orientação sexual e identidade de gênero, com a criação de uma rede de apoio e união para e entre LGBT com o objetivo de estimular a transformação de suas vidas.  Para isso, deve-se não desmerecer ou minimizar as dores específicas de cada segmento, combatendo as rivalidades, reconhecendo sua humanidade, qualidades e limitações, com o intuito de estimular o bem-estar do indivíduo e da sociedade”.

 

Então sejamos Generosos ! Para isso teremos que ampliar nossa consciência de grupo. Por meio deste novo conceito, há a possibilidade de investir nessa mudança de crenças, atitudes e valores. Que tal espalhar essa ideia em suas rodas de conversas, no bate papo entre amigos, provocando discussões em lives, grupos virtuais, entre outros ? Deste modo, com entendimento de quem somos evitamos novos ataques a nossa dignidade.

Portanto, façamos um grande chamamento aos LGBT ! Não podemos mais perder tempo. Vamos municiar nossos sentimentos com empatia, respeito e amor ao próximo para a garantia de um futuro sem (auto) segregação, sobretudo aqueles relacionados ao  gênero, raça, orientação sexual ou identidade de gênero.
 

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