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Hey, medo! Já não te escuto mais

“Ei dor…eu não te escuto mais,
Você, não me leva a nada.
Ei medo…eu não te escuto mais,
Você, não me leva a nada.
E se quiser saber pra onde eu vou,
Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou
E se quiser saber pra onde eu vou,
Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou…”

 

E foi exatamente assim que enfrentei um dos meus maiores medos, o medo do mar. Esta canção do Jota Quest me inspirou profundamente, fui para este lugar ensolarado e, com amigos, enfrentei o mar. Sim!!! Uma canoagem, em grupo, num dia super ensolarado, foi a minha oportunidade para deixar de escutar o medo paralisante. E digo a ele: Hey, medo. Já não te escuto mais!

Fácil? De forma alguma! No início paralisei, o medo faz estas coisas. Mas, com ajuda, de mãos dadas e palavras de apoio, segui em frente e enfrentei aquele “monstro” que me impediu tantas vezes de fazer coisas deliciosamente maravilhosas, como navegar, nas águas calmas e com a vista exuberante de praias de Santos e Guarujá.

Você deve estar se perguntando aí. Mas você é terapeuta e, ainda assim, sente medo e precisa de ajuda para enfrentá-lo?

Sim! O medo é um sentimento de receito tão intenso em determinadas circunstâncias, que chega a ser paralisante, pode levar a pessoa a ter crises de falta de ar e pânico. Eu, paraliso e perco o ar. Posso enfrentar sozinha? Sim, entretanto, não vejo qualquer problema em receber apoio.

E assim foi. Por cerca de quatro semanas fui me preparando psicologicamente para o evento. Conversei com amigos sobre o assunto, estudei o percurso e avaliei o perigo, convidei amigos a estarem junto comigo nesta aventura. Sim, encarei como uma aventura, como uma grande oportunidade, que me traria grande aprendizado.

Um dia antes do evento, senti que estava prestes a desistir quando uma amiga perguntou se eu estava animada. Acreditem, respondi que estava animada, mas a vontade real era dizer, “não, estou apavorada!”. Terapeutas também sentem medo!

O medo pode ser considerado como um sentimento de receio em relação a uma pessoa, a uma situação ou mesmo a um objeto, no meu caso, uma situação, enfrentar a imensidão do mar. Sentir medo é inerente à própria pessoa, o que atemoriza um indivíduo, pode ser indiferente para outra. Confesso que fiquei mais tranquila quando ela disse também ter medo, mas que em enfrentaríamos juntas.

Quimicamente podemos dizer que o medo é uma sensação em consequência da liberação de hormônios como a adrenalina, que causam imediata aceleração dos batimentos cardíacos. É uma resposta do organismo a uma estimulação aversiva, física ou mental, e a função é preparar o sujeito para uma possível luta ou fuga e, no meu caso, a ideia foi justamente a de fugir, não enfrentar a situação.

Finalmente o momento de encarar a situação chegou.  E eu, me sentindo confiante, fiz exatamente o que o instrutor disse, segurei o banco e estávamos a um passo de colocar a canoa toda na água. Minha posição era o banco seis, ou seja, a última a entrar na embarcação.

E então escutei, “cuidado, aí tem um degrau e o chão está liso”. Foi o suficiente para querer largar tudo e fugir dali. Soltei o banco, e fui de ré, andando para traz e disse, que não deveria ter ficado no último banco. Justamente neste momento a ajuda veio, fui, literalmente, pega pela mão pela Mary que, prontamente estava ali e me conduziu para enfrentar aquela situação, para mim, aterrorizante.

Nestas circunstâncias nosso cérebro é ativado involuntariamente e libera substâncias que disparam o coração, tornam a respiração ofegante e contraem os músculos. Essa reação é conhecida reação de luta ou fuga, afinal, o medo está associado ao instinto de sobrevivência.

Algumas pessoas também sentem o famoso frio na barriga, vontade de urinar e tem as pupilas dilatadas. Essas são reações sentidas pois o sangue corre para as extremidades do corpo e para a musculatura como mecanismo de defesa.

O medo não é sinal de fraqueza ou covardia, como dissemos anteriormente, é uma reação involuntária e natural com a qual o ser humano convive ao longo de vários momentos de sua vida.

Podemos sentir medo de inúmeras coisas, desde ver uma barata até o medo de avião, medo de palhaços (coulrofobia), medo de gatos (elurofobia), medo de tomar banho (ablutofobia), medo de altura (acrofobia), medo de não ter fobias (afobias), medo de ser tocado (afefobia). Ao sentir medo, o cérebro é ativado involuntariamente.

Então pensamos que o medo é algo ruim. Queremos nos livrar dele a todo custo, mas vamos entender algo aqui. O medo tem uma função em nossas vidas, justamente a de nos salvar, nos cuidar para que não saiamos por aí fazendo “o que nos der na telha”.

Se as pessoas não sentissem medo, não viveriam por muito tempo. Já pensou, poderíamos sair correndo entre os carros em alta velocidade, ficaríamos lado a lado de animais ferozes, pularíamos de prédios ou precipícios sem nada para nos proteger, nos atiraríamos no mar sem coletes salva vidas, entre tantas outras coisas.

O medo, neste sentido, é a nossa trava, é o que nos ajuda a pensar nos riscos e consequências antes de fazermos algo e, também, é uma resposta imediata nos momentos em que nos sentimos amedrontados e precisamos agir.

A ideia de que algo ou alguma coisa possa nos ameaçar a segurança ou a vida, faz com que o cérebro ative, involuntariamente, uma série de compostos químicos que provocam reações que caracterizam o medo, ele é o alerta de extrema importância para a sobrevivência das espécies, principalmente para nós, seres humanos.

Existem diferentes tipos e níveis de medo, que podem ir desde uma ligeira ansiedade ou desconforto, como o que senti, até o pavor total. As respostas do organismo também se apresentam de diferentes maneiras, de acordo com a intensidade em que o medo se apresente.

Fico me perguntando de onde vem este meu medo de mar, altura e imensidão. Não recordo de nenhum evento que tenha ocorrido nesta existência e que possa acionar este botãozinho. Entretanto, sabemos que nossas emoções são criadas desde nossa vida intrauterina e, posso, ainda neste estágio, ter experimentado sensações semelhantes que, hoje, acionam esta emoção.

Outro fator a considerar é a nossa necessidade de honrar aos antepassados e às nossas aprendizagens anteriores. Se você foi criado em uma família em que ouvia verdades como “não suba aí, vai se machucar”, “não vá para o fundo, a água vai te levar e você não voltará”, “cuidado, ali é alto e você pode cair e machucar”, o medo pode ser acionado cada vez que passar por circunstâncias parecidas com tais comandos.

Está tudo bem. Não precisamos descobrir exatamente qual a raiz da questão, qual é o botão que aciona este medo. Agora que sabemos que ele tem uma origem, um significado e importância, podemos, devemos, ressignificar, enfrentar.

Sendo o medo uma emoção normal, sabemos que ele continuará existindo e evitando que enfrentemos grandes riscos. Podemos trabalhar com ele para que não nos impeçam de viver nos relacionar com as pessoas.

Neste final de semana, enfrentei o medo do mar. Ainda tenho alguns medos a enfrentar, como o medo de altura. Estou disposta a superá-lo e não permitir que se torne um impeditivo para que faça coisas que desejo em minha vida.

Caso você tenha algum medo, como o de falar em público ou andar de avião, que tal começar agora a mesmo a superá-los, também?

Abaixo descrevo algumas dicas do que eu fiz para superar alguns medos. Sugiro que você tente também.

A primeira coisa que fiz foi aceitar que tenho medos. A partir deste momento foi possível encará-los e entender como resolvê-los. Meu segundo passo foi escrever a respeito. Você sabe que a escrita é uma ferramenta terapêutica poderosa para organizar nossos pensamentos, emoções e medos?

Tenho um caderno terapêutico em que escrevo sobre o que me tira o sono, provoca calafrios no meio da noite. Esta é uma forma de aliviar o que sinto em relação aos medos.

Frases como “nunca vou superar”, “é difícil demais” já não fazem mais parte do meu cotidiano. Procuro modificar meu interessante ponto de vista em ralação às coisas e me pergunto sempre “Como pode melhorar”, “o que é isso?”, “o que faço com isso?”, “é possível mudar isso?”, “se sim, como posso mudar isso?”.

O segredo é confiar e encarar e ultrapassar os medos, dominando-os. Para isso, cultivar pensamentos positivos é importante, além de entender que nós é quem devemos criar um ambiente propício para a superação dos medos, acreditando, pensando, verbalizando e essa positividade.

Estamos acostumados a ver as dificuldades e desafios, não é mesmo? O que tenho buscado fazer é mudar esta perspectiva, ressaltando as vitórias. Percebi que o medo é nutrido pelos fracassos e pelo negativismo, portanto, para superá-lo é importante dar menos espaço para o que acontece de ruim.

Ter colocado minhas vitórias sob holofotes me ajudou a usar cada uma delas como combustível para continuar em frente.

Outra forma de superar meus medos é conversar a respeito deles, quando me permito encarar de frente, percebo que não são apenas meus, que sentir medo é natural e saudável.

No meu enfrentamento ao mar, segui estes passos descritos anteriormente e, também foquei na respiração em quatro tempos, uma vez que percebi que o medo estava a ponto de me paralisar, minha respiração foi ficando ofegante.

De mãos dadas com a amiga que veio em meu socorro e a respiração em tempos, foi possível seguir em frente e, qual não foi minha surpresa ao perceber que o medo foi embora, cedeu completamente ao que estava me propondo a fazer. Durante todo o passeio, não voltou e seguimos em paz e tranquilidade para o vislumbre daquelas cenas perfeitas do céu, mar e praias lindas de nossa costa.

Outras duas dicas valiosas que podem te ajudar a enfrentar o medo são a prática da meditação e a terapia. A meditação, é uma ótima maneira de começar a trabalhar a sua respiração e o foco no presente. A terapia ajuda a olhar para as emoções, medos e fobias e a encarar de frente. Muita gente nem sabe, mas alguns medos e fobias são decorrentes de situações que aconteceram lá na infância. Provavelmente os meus venham de lá, como disse à pouco, aqui neste artigo, mesmo.

Trabalhar estes sentimentos, gatilhos emocionais e resgatar nossa história nos ajuda a entender o que está impactando nossa vida atualmente.

A terapia é uma maneira muito eficaz de trabalhar nossas emoções a partir de um mergulho interior e da construção de diálogos construtivos. Bora lá, nesta jornada em busca de bem-estar, autocuidado e qualidade de vida! Bora dizer bem alto:

– Hey, medo.

Já não te escuto mais!

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Yvie Favero

Yvie Favero é master terapeuta emocional, pedagoga e psicopedagoga. Atua dentro das práticas integrativas complementares em saúde e presta assessoria e consultoria em saúde e bem-estar.

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