Colunas

Pirei na batatinha. E agora?

Com certeza você já ouviu a expressão “pirei na batatinha”, não é mesmo?

E quando você escuta alguém dizer esta frase, o que pensa? O que a pessoa estaria querendo dizer quando declara ter “pirado”?

Seria o mesmo que endoidar, falar besteiras, “viajar na maionese”? Seria o mesmo que enlouquecer, fazer coisas absurdas?

Esta expressão é muito utilizada num contexto de brincadeira, tem a conotação de dizer que alguém está dizendo ou fazendo coisas absurdas, muito usada no Brasil indica que a pessoa pode ter feito alguma “asneira” ou ter cometido um erro.

O fato de alguém admitir que está fazendo alguma coisa diferente do programado, que está “pirado”, pode ser o indicativo de que ela se envolveu em um processo emocional que a tirou do que acredita ser o melhor caminho, o que nos leva a crer que ela pode ter acessado a sua criança interior ferida, que não sabe como agir ou reagir em determinadas circunstâncias.

Todos nós, adultos, temos uma criança interior ferida que nos habita, que muitas vezes vem à tona quando nos sentimos pressionados, rejeitados, desaprovados. Quando percebemos esta criança no comando de nossas emoções e sensações, podemos nos sentir inadequados e, então, “piramos na batatinha, surtamos, brigamos, chutamos o balde”.

Nossa criança ferida interior é parte de nós que experimentou e se adaptou a diversos comportamentos e padrões, uma parte inconsciente de nossa mente em que carregamos necessidades não satisfeitas, emoções reprimidas. É a nossa criança quem se manifesta quando acessamos experiências que ainda não foram resolvidas e, muitas vezes, enxergamos o mundo e agimos nele a partir dos olhos desta criança.

Quando entendemos que, nestas situações, perdemos o controle das emoções e somos generosos conosco, temos a possibilidade de rever a nossa maneira de agir, podemos aprender a não ”pirar” e nos comportar de maneira mas assertiva e amorosa. Para isso, é preciso olhar para dentro e perceber os gatilhos que acordam nossa criança.

É importante reservar momentos para autorreflexão, momentos em que olhamos para dentro e percebemos a forma como estamos agindo e pensando. Ouvir os próprios pensamentos é uma excelente oportunidade para elaborar novos contextos e maneiras de viver.

A nossa criança se forma a partir do relacionamento que tivemos com os nossos pais, com amigos, com professores. Ele molda cada relacionamento e comportamento que temos na fase adulta.

Queremos, desejamos, esperamos, ser aceitos e amados desde muito pequenos, daí a importância de os adultos ensinarem às crianças, desde muito cedo, a dizerem como se sentem, o que desejam.

Quando as crianças não aprendem a se expressar e dizer como se sentem, não aprendem a entender suas emoções e sentimentos e podem se tornar adultos com dificuldades para lidar com elas.

Elis Regina, na canção “como nossos pais”, retrata bem como agimos e reagimos de acordo com o que aprendemos em nossos lares e como repetimos padrões de comportamento, que muitas vezes nos traz dor e sofrimento.

 

“Minha dor é perceber

Que apesar de termos

Feito tudo o que fizemos

Ainda somos os mesmos

E vivemos

Ainda somos os mesmos

E vivemos

Como os nossos pais”

 

Neste trecho da canção fica explícita a ideia de que a criança que habita em nós, para honrar pai e mãe, para ser aceita e amada, ainda que tente fazer diferente, repete as histórias de seus antepassados, vive e age como eles. É certo que desejamos ser vistos e ouvidos pelos país, que também carregam os seus próprios traumas não resolvidos, herdados de seus ancestrais, eles também não sabem, ao certo, como regular as suas emoções e, assim, não sabem não lidar bem com as nossas.

Nossa tendência, então, é tentar nos adaptar à realidade, o que para a maioria de nós significa, de alguma forma, tornar quem nossos pais esperam. É nesta busca para agradar aos pais que nos comportamos da maneira como eles acreditam ser as melhores e rejeitamos nossa individualidade e as nossas partes, que acreditamos ser vistas por eles como ruins ou vergonhosas.

Desta maneira deixamos de atender a algumas necessidades, permitimos que situações dolorosas fiquem guardadas em nosso inconsciente, muitas vezes nos sentimos assustados e violados, criamos e armazenamos feridas emocionais não resolvidas e, a partir delas, agimos e reagimos no mundo e nos diferentes relacionamentos.

Nossa criança ferida pode nos levar ao desenvolvimento de baixa autoestima, de uma imagem corporal distorcida, desenvolvermos um medo pelas críticas ou forte resistência às mudanças e, ainda, um profundo medo de abandono e rejeição nos relacionamentos, o que pode nos levar a nos tornar dependentes emocionais, a vivenciar relacionamentos abusivos ou a “pirar na batatinha” vez ou outra, especialmente quando as vivências da nossa infância nos trazem à memória as fantasias infantis nas diferentes fases e áreas da nossa vida adulta.

Sim, a maior parte das coisas que fazemos em nossa vida adulta e na maior parte de nossos relacionamentos afetivos é a criança interior ferida quem manda, porque muitos de nós entramos nas relações para resolver carências, medo, solidão, aprovação.

E, se “piramos na batatinha” é porque, muitas vezes, nos sentimos prisioneiros, vivemos diferentes agressões físicas e emocionais, maus tratos de vários tipos. A culpa não é nossa.

Quando entendemos que tudo está relacionado à nossa criança interior ferida e traumatizada, conseguimos refletir a respeito disso e perceber que podemos ressignificar estes sentimentos, lembranças negativas e emoções, tratando as dores, nos desenvolvendo como adultos emocionalmente saudáveis e aprendendo a criar relacionamentos afetivos saudáveis e duradouros em diferentes áreas da nossa vida.

Os sinais que mostram que a nossa criança interior pode estar ferida são o medo de receber críticas; o medo ou a vergonha de nos expressar em algumas circunstâncias; a tendência a esperar que outras pessoas falem primeiro para que possamos utilizá-las como “modelo” ao nos posicionar; nos colocar em situações em que tentamos ajudar ou “salvar” a alguém. Outro sinal importante é quando temos dificuldades em dizer não ou quando nos sentimos responsáveis pelas emoções de outras pessoas.

Quando não damos a devida atenção a estes sinais, a nossa tendência é descartar ou invalidar as nossas emoções, novamente repetindo padrões de nossos pais e, assim, mantemos o ciclo e a nossa criança interior permanece ferida, sem ser ouvida, se manifestando em momentos em que somos confrontados ou pressionados por experiências que nos remetem à uma experiência já vivida.

Esse tipo de situação pode nos levar a nos sentir envergonhados, incapazes, ou mesmo a desenvolver a síndrome do impostor, em que, mesmo que os outros digam e reconheçam o nosso potencial, nos sentimos incapazes, acreditamos “não fazer nada direito, não sermos capazes de fazer as coisas sozinhos”.

Embora o nosso adulto saiba do seu potencial e da sua qualidade, a nossa criança interior está assustada porque tem uma memória infantil que não foi tratada e, este adulto se sente constrangido e diminuído, experimenta incertezas, medo e confusão.

Há maneiras diferentes para acolher e validar a criança interior. É um trabalho em que desenvolvemos a empatia por nós mesmos, por nossos pais e pelos outros, que nos perdoamos e perdoamos aos demais. Quando curamos e perdoamos nossa criança, permitimos o desenvolvimento de novas sinapses e novos pontos de vista são criados.

A partir do desenvolvimento da inteligência emocional é possível iniciar o processo de cura da criança interior. O relaxamento, a meditação com a sua criança e os decretos diários e os mantras podem ser excelentes aliados.

Escolha ficar em um lugar tranquilo, respire profundamente, em quatro tempos, e calmamente conecte-se com a sua criança, traga à tona as memórias da sua infância, seja gentil. Se precisar olhe as fotos de quando você era criança e repita frases positivas para fortalecer esta criança. Abaixo, indicarei algumas sentenças que você pode repetir ao fazer esta atividade:

– Eu estou seguro sendo eu mesmo.

– Eu estou seguro agora.

– Sentir medo é normal, eu estou aqui, está tudo bem.

– Eu entendo seus medos e protejo você.

– Eu não preciso ser o que não sou para agradar a alguém.

– Eu posso ser quem eu quiser.

– Eu sou a minha melhor versão.

– Meus pais são seres humanos feridos também. inconscientemente eles podem ter projetado os seus traumas em mim.

– Eu perdoo meus pais.

– Meus pais fizeram o melhor que eles puderam.

– Meus pais me ensinaram tudo o que eles sabiam.

-Eu te amo, eu me amo. Estamos seguros agora.

Outra ação para a cura da sua criança interior é a celebração do seu nascimento. Reserve um momento para agradecer e dar boas-vindas a si mesmo. Diga à sua criança tudo o que você diria a um bebê amado e esperado.

Escolha um momento e permita que o seu lado infantil venha à tona. Divirta-se. Faça coisas que você amava fazer quando era criança. Brinque, leia, desenhe, como a seu alimento preferido, pule, dance, corra, cante.

Visite os lugares que você gostava de ir quando era apenas uma criança, brinque com outras crianças, passeie com seu cachorro. Estes exercícios e práticas podem trazer muitas emoções, acolha a cada uma delas, pare, respire, sorria.

O processo da cura da criança interior nos ajuda a viver uma nova vida afetiva, a libertar-nos de mágoas e ressentimentos da infância, melhoramos a nossa autoestima, a nossa autoimagem e autoconfiança.

A partir deste processo, ampliamos a consciência e visão de nossa infância e história de vida, ampliamos a visão de quem somos e de quem são os outros. Desta maneira, compreendemos o funcionamento de nossa criança interior e a repercussão dela em nossa história afetiva, no nosso cotidiano.

Quando acessamos nossa criança, compreendemos a sua dinâmica nas nossas relações afetivas, passadas e atuais e aprendemos a lidar com as nossas emoções atuais, uma vez que identificamos e ressignificamos as causas das nossas dificuldades nas relações e damos passos para nossa libertação da dependência e codependência emocional.

Criamos condições psíquicas adequadas para nos relacionarmos de forma saudável e paramos de nos desgastar quando permitirmos acessar nossas memórias infantis, paramos de fugir, de nos boicotar e adquirimos a capacidade de sermos felizes, trocamos a solidão pela solitude, aprendemos a lidar com os nossos medos e nos fortalecemos.

Fortalecendo a nossa criança, acabamos com a tendência de ficarmos pensando no passado, Percebemos nossa própria transformação e nos livramos de traumas e dores, nos tornando leves, fortes, serenos e animados.

Continue lendo

Yvie Favero

Yvie Favero é master terapeuta emocional, pedagoga e psicopedagoga. Atua dentro das práticas integrativas complementares em saúde e presta assessoria e consultoria em saúde e bem-estar.

Artigos relacionados