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A vida passa rápido

Uma conversa bem clichê em que pessoa mais velha, já com tantos cabelos brancos, aconselha jovem a aproveitar a vida. “Aproveita, aproveita muito, acaba rápido, rapaz.” Na cabeça deste ser cheio de saudades e certa inveja mal disfarçada, o pós-juventude é um mundo distópico onde os sonhos foram devastados e obrigações, rotinas chatas e contas a pagar assolam a humanidade. Será?

Primeiro: a juventude não é unanimemente a melhor época da vida. Pensem em pessoas que passaram por situações de violência reiterada ou miséria nos supostos anos dourados.

Segundo: a vida que você tem hoje é muito mais um amontoado de decisões que você tomou do que o trabalho implacável do destino roubando o ouro de sua vida, ano a ano.

Terceiro: ter inveja da juventude alheia é no mínimo um contrassenso. Se você envelheceu, viveu sua juventude plenamente. A velhice seria assim um atestado de que você sobreviveu aos terremotos. Gozou o que tinha que gozar. Com um bônus: a vida continua sendo escrita, não há aposentadoria para o viver. Ah, sim, as feridas, as dores, etc. Fazem parte.

O que estou tentando dizer é: o melhor tempo da sua vida é quando você está vivo, é hoje. Isso não quer dizer que não deveríamos olhar para trás, para o passado. É a partir deste olhar, deste constante virar de cabeça que corrigimos nosso caminho, aprendemos lições. Mas o passado funciona como um buraco negro e seu poder de atrair tudo a seu redor. Devemos nos relacionar com o ontem contemplativamente. De certa distância emocional e reinterpretando-o para tirarmos aprendizados funcionais no hoje e que nos levam para frente. Se nos deixarmos seduzir pelas dores e o dourado de nossa idealização daqueles anos, – ah, aqueles anos! – seremos sugados. As lembranças nos atraindo, como o canto da sereia, e nos afogamos como marinheiros no mar de memórias. Aos invejosos, percebam que seu olhar na juventude alheia é absolutamente idealizado.

Cada geração de tenra idade tem seus amores, dores, contradições e desafios. Têm muitos planos, muitos sonhos, muito potencial e um mundo duro pela frente.  Eles envelhecerão, assim como nós, muitos ficarão pelo caminho, terão suas histórias. Aos que se culpam por não terem feito, ou terem feito, ou não terem feito do jeito certo. Virem a página. Não dar para ganhar todas. Nunca saberemos o resultado do e se eu tivesse… Dois amigos resolveram ‘fugir’ de uma vida medíocre, na melhor das hipóteses, e embarcar no navio que os levaria para o novo mundo cheio de oportunidades e dinheiro – pensavam. A ponto de embarcarem, um deles amarelou, sua cabeça rodava, insegura. Acabou não indo. Trinta anos depois, levando sua vida medíocre: casado, com filhos já criados, suspirava o tal ‘e se…’ Não sabia ele que aquele navio e seu amigo nunca chegaram. Afundaram-se.

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Cláudio Fernando

Formado em administração de empresas, pós graduado em economia e relações internacionais, mestrando em gestão ambiental pela universidade de Ribeirão Preto e professor universitário nas áreas econômicas

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