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Perdoou ou separou?

Há certa maneira de tornar a vida um inferno absoluto, é o famoso “ou, ou”. Assim, a vida se constrói numa série de dilemas shakespearianos, um jogo de perder, cruel e amargo. Me caso ou compro uma bicicleta? Perdoou ou separo? Sigo a carreira ou sigo com a banda? E vamos encarando a jornada como um jogo de quem consegue perder menos, em tempos de ódio político então, ou você corre comigo, ou morre. Crescer não é perder coisas, mas saber decidir enquanto exigências e possibilidades só aumentam. Isso não quer dizer abrir mão do que amamos, mas saber a hora e o lugar delas.

Então podemos trocar o dilema do “ou, ou” por ‘o que posso agora, o que deve ser feito”. Explico-me com um exemplo: você quer fazer arte e precisa sobreviver. A conta não fecha, como já sabemos. A primeira ideia é ter que escolher entre viver de arte e não ter teto, ou desenvolver uma carreira de sucesso e morrer cheio de dinheiro, mas sem realização pessoal.

Agora saia por um instante desta dicotomia e pense: por que não desenvolver sua carreira e ter a arte como hobby? Já sei o que você pensou! “Por que não posso ter uma carreira artística e unir o útil ao agradável?” Bingo! De um, “ou, ou”, você passou a ter três opções, largar a arte, seguir a carreira corporativa e fazer da arte a carreira. Só não se esqueça que toda e qualquer decisão vem com um pacote próprio de benções e desgraças, ossos do ofício.

A parte chata de qualquer festa é a arrumação pós-convidados. Claro que enfrentar tempestades pelo que gostamos é muito melhor que fazer isso só por estabilidade financeira. Somos seres multidimensionais. Mas viver de arte também não é para fracos. E viver de arte, mesmo com uma carreira vencedora, não significa estar livre de trancos e solavancos, e sim, você também pode perdoar e acabar uma relação que já não tem sentido.  Melhor, você pode ter o coração leve com toda a situação, deixemos de focar nas eventuais perdas e agradeçamos o que foi bom.

Tive uma amiga-irmã, rimos muito, ajudamo-nos demais, um dia, ela começou a se afastar até não atender ligações, percebi que fui trocado por amigos mais ‘ricos’ e sofisticados, um sentimento de pesar, raiva e traição. Você sabe o sintoma. O amor azeda, cada pensamento da falta é um espinho cravado, ou ela permanece minha amiga ou é traidora. Alguém me abriu os olhos, os dez anos de irmandade e parceria são um presente sem preço, só posso agradecer e torcer que os novos amigos sejam merecedores da amizade dela. Sou grato pelo que foi, cada minuto juntos ajudou a me construir, no mais, naquilo que não temos forças nem sabedoria para mudar, sejamos pacientes. Paciência não se trata de aceitação condescendente, trata-se de perceber o ritmo das coisas e esperar sua maturação. Um dia, ah, um dia, e se não for dia, teremos as estrelas.

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Cláudio Fernando

Formado em administração de empresas, pós graduado em economia e relações internacionais, mestrando em gestão ambiental pela universidade de Ribeirão Preto e professor universitário nas áreas econômicas

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